Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
9

“Um rapaz em mau estado morreu-me nos braços”

No quartel de Quiximba, eu era o homem dos sete ofícios e muitas vezes dei comigo a ajudar os enfermeiros
Vanessa Fidalgo 25 de Agosto de 2019 às 01:30
Amadeu Ferreira
Amadeu Ferreira
Amadeu Ferreira
Amadeu Ferreira
Amadeu Ferreira
Amadeu Ferreira
Amadeu Ferreira
Amadeu Ferreira
Amadeu Ferreira

Embarquei para Angola a 21 de maio de 1972, precisamente no mesmo dia e quase à mesma hora em que regressei, dois anos depois. Eu e um colega tínhamos ido à boleia de uma companhia de artilharia, de maneira que quando chegámos a Luanda ficámos um dia inteiro sentados em cima das nossas coisas. Durante esse dia, fumei um maço de tabaco inteiro e comi um gelado. À noite, a Polícia Militar veio junto de nós perguntar o que estávamos ali a fazer, e levaram-nos para que nos juntássemos a uma companhia metropolitana durante alguns dias, a CMR 113.

Aí ficámos. Ao fim de pouco tempo, esse meu camarada seguiu para Serpa Pinto. Eu ainda fiquei mais algum tempo, mas depois também recebi ordem para me juntar à companhia 3438, que estava aquartelada em Quiximba.

A minha especialidade era corneteiro, porque já antes de ir para a tropa tinha ligação à música - toquei numa fanfarra em Campolide e numa banda em Tomar. Aliás, a minha mãe nem chegou a ver-me fardado e prestes a embarcar. Julgava-me em Lisboa, a tocar, mas afinal tinha sido mobilizado. Foi melhor assim. Imagine-se a dor e a angústia da mãe de um filho único que via partir para a guerra.

Em Quiximba, curiosamente, encontrei até um grupo de soldados engraçado nesse capítulo, pois integrava vários artistas, sobretudo fadistas.

Homem dos sete ofícios

Havia um soldado mecânico que queria muito aprender a tocar a corneta e lá lhe ensinei, de maneira que muitas vezes era ele que ia para a parada tocar para a alvorada e não eu. Eu saía muitas vezes para missões de patrulhamento, para operações táticas e para ir à caça. Aliás, antes da especialidade era atirador e participei em várias operações. Devo ter sido um dos que disparou mais tiros e gastou mais balas, porque já desde os dez ou doze anos de idade atirava com caçadeiras e desde os 14 que tinha licença de caça. Talvez por isso, quando cheguei a Angola estava desertinho para dar uns tiros. Mas, basicamente, atirava a tudo: às árvores, às garrafas, aos embondeiros. Contacto com o inimigo houve em situações diferentes. Primeiro, logo à chegada à região de Nambuangongo, em Canacassala sofremos uma emboscada e ficámos horas debaixo de intenso tiroteio. Depois, já no fim da comissão, quando fomos fazer proteção a civis na zona da barragem do Cambambe também sofremos alguns ataques. A norte defrontámo-nos com o MPLA, a sul com a FNLA. De uma só vez, num ataque, tivemos dois mortos e um ferido grave, que morreram inocentemente, só por causa de uma ordem que nem devia ter sido dada para proteger um civil...

Muitas vezes ajudei os enfermeiros da base e numa dessas ocasiões morreu-me um rapaz nos braços. Era um de quatro rapazes que tinham sofrido um acidente muito grave. O rapaz estava em muito mau estado e os enfermeiros já nem sabiam o que haviam de lhe fazer com os meios que tinham. Eu corri a pedir ajuda a um enfermeiro civil, mais velho e experiente, mas não pôde ou não quis ajudar... sei é que às tantas, o rapaz ferido dizia-me: ‘Ó Ferreira, eu vou morrer!’ E eu dizia-lhe: ‘Não vais nada, pá’. E ele repetia: ‘Vou morrer, vou Ferreira’ e eu insistia que não... até que se foi, assim. Foi um episódio que ainda hoje me custa a recordar .

Noutra situação ajudei um furriel que estava muito ferido a chegar ao quartel para receber a ajuda dos enfermeiros. Ele, reconhecido, ofereceu-me todo o seu material de pintura, pois sabia que eu gostava também de pintar. No quartel era um verdadeiro homem dos sete ofícios.

Nunca mais voltei a Angola, nem quero. Quando de lá saí, antes de embarcar, bati com os dois pés na terra e disse: ‘Adeus, terra maldita’.

Nome: Amadeu Ferreira

Comissão: angola 1972-1974

Força: Batalhão de Caçadores 3869 - Companhia 3438

+ Info: 68 anos, reformado




Angola Qiximba guerra colonial mortos
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)