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Um ‘roberto leal’ em cada esquina

No Rio de Janeiro há um português em todas as ruas. São donos de botecos, engenheiros, alfaiates...
Sara Tainha 14 de Agosto de 2016 às 11:46

Não fui eu que escolhi   o   Brasil, foi o Brasil que me   escolheu   a mim.   Cheguei   num domingo à noite, na segunda-feira ao final do dia estava contratada." As palavras são de   Patrícia   Domingos,   uma   advogada   portuguesa.   Tem   25   anos   e   uma   posição num escritório que   garante que só teria em Portugal daqui a 10 ou 15 anos.

As portas abriram-se no Rio de Janeiro. Não hesitou, deixou a casa dos pais e atravessou o Atlântico. "Vinha com a mala vazia de expectativas. É o truque da minha felicidade", confessa.   Patrícia   é   apenas um dos exemplos dos muitos jovens portugueses que, nos últimos anos, invadiram a cidade brasileira. São qualificados,   chegam   para   ganhar   o dobro, ou até mesmo o triplo, mas alguns deles, ficam também pelos encantos cariocas. É o caso de Luís Gomes, natural de Évora, que não resistiu às praias, às paisagens, ao calor e às "garotas de Ipanema".

O   engenheiro   civil,   de   34 anos,   desistiu   de   procurar trabalho em Portugal. Antes de se fixar no Brasil, passou uma   temporada   em   Barcelona. "Quando chegou a crise, fui despedido e negociei uma   indemnização.   Com   esse   dinheiro decidi mudar-me para o Brasil. Durante dois meses,   tive   a   decidir   onde   iria   ficar.   Passei   15   dias   no Rio,   15   dias em São Paulo, 10 em   Florianópolis   e   10   dias   em   Porto   Alegre.   A   escolha foi fácil… Rio de Janeiro".

Luís veio trabalhar para uma empresa de construção. Começou   por   ganhar   mais   do dobro   do   que   ganharia   em Portugal. Um ano depois subiu de cargo e o ordenado voltou a subir. "Os brasileiros são desorganizados   e   adoram   o trabalho   dos   portugueses", conta. Tal como Patrícia, rapidamente chegou a um cargo de destaque. "Aos 32 anos era diretor de produção, algo que só aconteceria em Portugal aos 50 anos", sublinha.

Malhão e Marcelo

Realidade bem diferente viveram aqueles que escolheram o Brasil na primeira metade do século XX. Os que chegavam ao   Rio   de   Janeiro,   e   foram muitos, trabalhavam na construção   civil,   indústria   e   comércio.   Há   vários   ‘botecos’ portugueses pelas ruas cariocas.   No   mercado   do   Cadeg, em Benfica, quando se chega ouve-se logo falar dos famosos   bolinhos   de   bacalhau   do   senhor   Carlinhos.   "Cheguei ao   Brasil   há   55   anos,   tinha apenas 14 anos. A minha família já trazia na mala a receita dos pastéis de bacalhau. No entanto, só 24 anos depois de estar   no   Brasil   é   que   abri   o Cantinho das Concertinas".

O nome não é por acaso. Todos os sábados há uma festa portuguesa. Há sardinhas no carvão,   febras,   bacalhau,   e música tradicional portuguesa. Mas a atração principal são os bolinhos de bacalhau. A fila chega a dar a volta ao edifício e ali são vendidos cerca de 2 mil pastéis.   "Os   brasileiros   adoram a nossa comida e adoram dançar o vira", confessa. Carlos Cadavez tem 70 anos mas está sempre pronto para um pezinho   de   dança.   "Sou   eu que ensino os cariocas a dançarem o malhão", conta o português, natural de Mirandela.

O   restaurante   é   bem   conhecido. Nas paredes estão expostas   centenas   de   fotografias e páginas de jornais. Os bolinhos de bacalhau já foram notícia um pouco por todo   o   Mundo.   "Ao   todo,   já dei   mais   de   50   entrevistas, até aos chineses!"

Mais a sul, a 15 quilómetros dali, no Leblon, encontramos o   restaurante   Jobi.   O   dono, Narciso Rocha, chegou ao Rio de Janeiro há 56 anos. Com ele trazia   a   vontade   de   pôr   as mãos   na   massa.   "Tinha   15 anos e ajudei o meu pai a abrir esta   casa.   A   minha   família queria   que   eu   estudasse   mas eu preferi trabalhar".

Ao longo dos anos, o restaurante   foi   ganhando   nome   e tornou-se   ponto   de   passagem   obrigatório   na   cidade, principalmente para os portugueses. "A tripulação toda da TAP vem aqui. E tenho dois clientes habituais muito especiais:   um   deles   é   Durão   Barroso   que,   sempre   que   pode,   faz uma visita. O outro é Marcelo Rebelo de Sousa". Desde   que   é   Presidente   da República, falta-lhe o tempo na   agenda   para   visitar   este   amigo   de   longa data. Mas o filho mais velho do chefe de Estado, Nuno Rebelo de Sousa, é cliente habitual da casa. Narciso prefere não comentar sobre os gostos de Marcelo: "Agora já é mais complicado falar sobre ele", diz entre risos.

Aqui no Jobi é difícil encontrar mesa para sentar. É um ponto   de   encontro   para   os emigrantes,   principalmente nos dias de jogos de futebol. "Seja   Benfica,   FC   Porto   ou Sporting,   os   portugueses vêm   sempre   ver   a   bola   e   petiscar entre amigos".

Tal   como   Narciso,   uma grande parte dos primeiros emigrantes a chegar ao Rio de Janeiro abriu pequenos espaços comerciais, não só de restauração. Os alfaiates portugueses   também   faziam   sucesso. João Vilela, de 88 anos, aprendeu   a   profissão   com   o pai.   Chegou   ao   Brasil   em 1939. "Tinha apenas 12 anos. Embarquei   num   navio   no Porto e demorei 22 dias a chegar. Vim num barco muito velho,   com   poucas   condições. Parecia que os dias não passavam…", recorda.

Este português nasceu em Trás-os-Montes.   A   família passava dificuldades e procurou o país irmão. "Em Portugal passámos até fome. Aqui era todo um mundo novo por descobrir". Para trás, ficaram as vinhas, a primavera e a vida simples do campo. E mesmo com 88 anos, a memória não lhe falha. "Tenho muitas saudades das flores amarelas e de quando andava atrás dos grilos durante a noite para os fechar em caixas de papelão."

A vida encarregou-se de o fazer   crescer   rapidamente   e trocar as tardes no campo por uma vida de muito trabalho. "Como eu, muitos portugueses vieram para o Brasil nessa altura. Os brasileiros chamavam-nos   galegos   e   nós   não gostávamos. Se há coisa que os portugueses fizeram neste país foi trabalhar", sublinha.

"Eu tenho muito orgulho no meu   pai.   Teve   uma   vida   de muita luta e sinto que os portugueses   são   isso   mesmo: uma força extraordinária de trabalho. Ser filha de um português ensinou-me a ter essa garra, a não desistir", frisa Nelise   Vilela,   que   já   nasceu   no Brasil. A farmacêutica, de 53 anos, cresceu com rituais bem portugueses no Rio de Janeiro. "Lembro-me das alheiras que a minha avó fazia. Guardo esses   sabores,   esses   temperos. Assim como guardo a voz da   Amália,   que   tantas   vezes tocava em minha casa", recorda. O primo, Luís Neves, também viveu esses tempos, que guarda com nostalgia. "Havia todo   um   ritual   em   torno   do bacalhau ao sábado à tarde. Cozinhar as batatas, cortar as cebolas, a couve. Pôr o bacalhau de molho. Vinha sempre uma   grande   travessa   para   a mesa e sempre com muito pão à mistura", lembra o brasileiro de 59 anos. "Só mesmo ao fim de semana é que se viviam estes momentos. Sempre foram todos muito dedicados ao trabalho", assegura.

Olímpicos e política

A dedicação dos portugueses ao trabalho é um dos pontos mais elogiados pelos brasileiros.   Patrícia   Domingos,   que faz parte da nova geração de emigrantes, chegou com metas bem definidas. "Só ganhei vida própria dois anos depois de estar aqui. Tinha objetivos profissionais muito definidos. Só parei para respirar quando alcancei   todos   eles",   conta   a advogada. Passa a maioria do dia no escritório, onde exerce direito. O edifício fica em Copacabana, na marginal, mesmo junto ao mar. "A vista ajuda a passar as muitas horas de trabalho",   confessa.   Vive   na cidade   carioca   desde   2012. Mudou-se quando tinha apenas 21 anos. "As pessoas perguntavam   aos   meus   pais   se não eram loucos em deixar- -me vir para aqui. Principalmente por todas as questões ligadas à segurança", conta. E a segurança foi precisamente um dos pontos que mais influenciou   a   escolha   da   primeira   casa.   "Ter   um   lugar para dormir era a prioridade. Não   queria   saber   se   tinha uma   casa   bonita   ou   grande. Só   queria   estar   segura   e   em silêncio para poder concentrar-me no trabalho". Escolheu o Leblon para morar, na zona sul da cidade.

É   aí   que   encontramos   a maioria desta vaga de novos emigrantes   portugueses. "Primeiro morei num quarto de empregada, na casa de uns amigos. Era tão pequeno que tinha   que abrir   a   mala   em cima   da   cama.   Depois   mudei-me   para   Ipanema,   para uma   casa   que   dividia   com mais três pessoas. Na altura, em 2011, pagava cerca de mil euros de renda. Decidi escolher a zona mais nobre da cidade,   também   para   poder aproveitá-la ao máximo", diz Luís   Gomes.   O   engenheiro rapidamente   se   apaixonou pelos   brasileiros.   Veio   sozinho mas, quando reparou, já tinha   amigos.   "Na   festa   do meu 30º aniversário convidei mais de 80 pessoas e só estava no Rio de Janeiro há cinco meses. Quando dei por mim já estava a falar com o sotaque do Roberto Leal".

O sol, a praia e a natureza são os   pontos   que   apaixonam quem lá passa. A insegurança e   o   trânsito   caótico   são   os principais problemas da cidade. Agora, com os Jogos Olímpicos, a segurança foi reforçada, mas nas estradas acumulam-se as filas. Na metrópole está a escrever-se a história do   maior   evento   desportivo do Mundo, que tem contado com alguns contratempos.

"Têm   sido   muitos   os   problemas   de   organização   mas estou surpreendida pela forma como o Rio de Janeiro está a   conseguir   dar   a   volta.   Os brasileiros são mesmo assim. Quando   tudo   parece   correr mal, há sempre uma solução", frisa Patrícia Domingos. João Vilela   não   se   lembra   de   ver tanta gente na cidade. "Há turistas   por   todos   os   lados.   O problema é que só se lembram de dinamizar o Rio nesta altura",   critica   o   antigo   alfaiate. Luís   Gomes,   por   seu   turno, acha   que   não   houve   planeamento   suficiente.   "Tenho   a sensação que foi tudo forçado. Há desorganização e basta olharmos para a crise política que o Brasil está a viver".

Essa crise política começa, agora, a afastar os portugueses   que   se   instalaram   nos últimos   anos.   "Há   muitos emigrantes a voltar este verão.   As   empresas   de   engenharia, por exemplo, começaram a despedir. Os escândalos da Petrobras, Lava Jato,   o   impeachment…   fizeram as obras parar. Há quem sinta   que   o   Brasil   acabou   e muitos estão a encontrar-se no   avião   para   regressar   a casa", termina Luís.

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