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Um segredo perdido: A contemplação

“Numa mala de porão que antigamente serviu para viagens a bordo do paquete ‘Niassa’ (...) está recolhida essa valiosa correspondência comercial”
António Sousa Homem 5 de Dezembro de 2010 às 00:00
Um segredo perdido: A contemplação
Um segredo perdido: A contemplação

O meu avô Alfredo era avesso a sistemas filosóficos, porque o único papel que conhecia, além dos livros de contabilidade, pautados pelo sistema antigo (à mão), e dos versos de poetas lúgubres, bucólicos ou vagamente patrióticos, era o da correspondência comercial, desenhada à mão, com tinta inglesa, ou dactilografada sem rasuras.

A sua ideia de "correspondência comercial" era tão vaga e heterogénea que daria para uma antologia de todos os géneros literários, se lhe retirarmos os conselhos sobre a época das vindimas, o comércio dos citrinos e a acumulação de miolo de amêndoa. Eram cartas longas, algumas, precisas e económicas outras, consoante a disposição, a meteorologia e as necessidades, nunca perdendo de vista a divisa irónica do Padre António Vieira, que pedia desculpa por as cartas irem compridas – porque não tivera tempo "para a pôr mais curta".

Numa mala de porão que antigamente serviu para viagens a bordo do paquete ‘Niassa’ e hoje serve de poiso a todas as centelhas de pó de Moledo, está recolhida essa valiosa "correspondência comercial". Numa das cartas menciona a necessidade de apressar um casamento; noutra, depois de considerar que determinado banco era o melhor para "investimentos africanos", recomenda o uso de linho mourisco tingido, e não do galego, para os estofos de uns cadeirões na Quinta do Vezúvio; há numerosos comentários à política britânica, aos costumes da época (que o atormentam mas não o comovem), ao vício de falsificar vinhos e até à qualidade das águas das Caldas de Moledo, na Régua.

Os negócios – o seu trabalho de estimável e consciencioso contabilista e guia para investimentos – eram um veículo, como qualquer outro, para se relacionar com o seu tempo. A excepção era Guerra Junqueiro, em cuja Quinta da Batoca pernoitou várias vezes, nos limites de Barca d’Alva. O velho Doutor Homem, meu pai, nunca compreendeu a ternura que o seu pai, administrador de propriedades, votava àquele homem radical, republicano e vagamente proudhoniano. Sobretudo não entendia a dedicação a uma gasta edição da ‘Velhice do Padre Eterno’, de onde sobressaía ‘O Melro’, um poema que lhe suscitava riso mais do que admiração.

Só o compreendi depois de ter visitado Barca d’Alva e de ter imaginado os dois solitários, sob a protecção da Serra do Roboredo, que observavam o Douro e comentavam a colheita da azeitona, a chegada do Inverno ou dos crepúsculos do Verão abrasador do vale. Era esse o seu sistema filosófico: contemplar. É um segredo que hoje se perdeu.

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