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Correio da Manhã

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UM SILÊNCIO MAIOR

No início de uma semana dedicada às vítimas dos desastres rodoviários, que culmina no próximo domingo com o Dia Europeu da Memória, o Domingo Magazine andou pelas estradas portuguesas à procura das memórias da morte. Estão um pouco por todo o lado, em pequenos altares de valeta. E não contam histórias: contam silêncio
8 de Novembro de 2002 às 19:36
Perante uma sepultura há sempre um silêncio incontornável. O silêncio surdo de um diálogo interrompido pela morte. Estas não são sepulturas. São pequenos altares colocados na berma das estradas portuguesas, em memória de vítimas de acidentes rodoviários. Assinalam locais que pertencem à morte e à memória da morte. Junto deles, o silêncio é ainda maior.

A maior parte são homenagens simples e sem nome. Uma coroa de flores em forma de coração depositada aos pés de um sinal de “stop”. Um ramo de rosas secas, envolto em papel celofane e preso por arames ao tronco de um pinheiro. Uma cruz de ferro, três jarras com flores de plástico desbotadas pela luz e um crucifixo de madeira com a figura de Cristo – em frente, do outro lado da estrada, dois ‘stands’ de automóveis usados continuam as suas promoções e os seus preços de ocasião. Demasiado óbvio para passar por ironia do destino.

Não há nomes, não há datas, a morte e a sua memória são coisas demasiado íntimas, como a própria dor. E quando as há é porque foi impossível calá-las: Francisco morreu com 16 anos numa estrada no Alentejo e o seu altar ergue-se no meio da planície, branco como um grito. Para nos lembrar que as estradas portuguesas são assassinas. E que há assassinos a percorrê-las diariamente.
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