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Um 'sonho americano' à portuguesa

Saíram dos Matos da Ranha, uma aldeia em Pombal, quando tinham 10 e sete anos. Hoje são donas de uma empresa de construção norte-americana digna de ser visitada e elogiada pelo presidente dos EUA.
27 de Outubro de 2013 às 15:00
O cumprimento entre Obama e Manuel Luís. Na foto, a mulher e a filha do português
O cumprimento entre Obama e Manuel Luís. Na foto, a mulher e a filha do português FOTO: Pete Souza

Duas portuguesas foram elogiadas por Barack Obama. Filhas de Manuel Luís, um homem que aprendeu a ler e a escrever em casa, com a mulher. Nascido na aldeia dos Matos da Ranha, no concelho do Pombal, partiu na década de 1970 para a América com o simples sonho de proporcionar às filhas o melhor ensino do Mundo. Cidália e Natália são hoje donas da maior empresa de construção do Maryland, no sul da Costa Leste dos EUA. Para o presidente Obama, a M. Luís Construction – que assume o nome do patriarca – é o “verdadeiro sonho americano”.

As duas irmãs afirmam que nunca passaram dificuldades em Portugal. Os tempos na aldeia eram vividos com a família, os amigos e a estudar. “O meu pai trabalhava na construção e a minha mãe na agricultura. Nunca nos faltou nada. É importante dizer que nós não emigrámos por questões financeiras”, confessa Cidália à ‘Domingo’, numa conversa por telefone. Apesar da distância do país onde passaram a infância, Cidália e Natália dominam a língua portuguesa, com sotaque e vários estrangeirismos.

EM BUSCA DE NOVAS OPORTUNIDADES

Manuel e Albertina Luís partiram para França no início dos anos 60 em busca de uma vida melhor. Após o 25 de abril de 1974, regressaram à aldeia dos Matos da Ranha com as duas filhas ao colo, Cidália e Natália. Aquilo com que se depararam nada tinha a ver com as expetativas.

“Depois do 25 de Abril, o meu pai regressou com a esperança de que tivessem ocorrido grandes melhorias, mas não encontrou nada disso. Portugal estava caótico após o golpe de Estado. Nós regressámos em 1974 e apanhámos essa confusão. O grande receio do meu pai era que não conseguíssemos construir um futuro no nosso País” – conta Cidália Luís, hoje com 45 anos.

“Ninguém na minha aldeia tinha tirado um curso superior. O meu pai falava-me na Universidade de Coimbra e dizia-me que era um lugar espetacular, frequentado por grandes académicos portugueses. O meu sonho passou a ser visitar a Universidade de Coimbra. Não frequentá-la, apenas visitá-la” – recorda Cidália, que anos mais tarde acabou por entrar na prestigiada Universidade de Harvard, nos EUA.

Tomada a decisão de abandonar Portugal, a família Luís arriscou novamente a dureza da emigração. Desta vez partiram para a América. Cidália e Natália tinham apenas 10 e 7 anos.

NOVO PAÍS, NOVOS DESAFIOS

Chegados aos EUA, Manuel e Albertina Luís puseram literalmente ‘mãos à obra’. Em 1985, o casal fundou a M. Luís Construction. A empresa de construção fez sempre parte da vida das suas filhas: “Desde os nossos 14 anos que estivemos envolvidas na empresa, quer fosse durante as férias, depois das aulas ou nos fins-de-semana”, explica Cidália. Foi este sentido de responsabilidade e disciplina que as moldou e ajudou a terem uma atitude determinada perante os desafios da vida. Ambas confessam que a adaptação ao seu novo país não foi fácil.

“O que me deixou mais aborrecida na altura foi não conseguir perceber o porquê de as outras pessoas não me entenderem. Quando tentava manter uma conversa, eu percebia que estávamos a falar línguas diferentes, mas ficava muito frustrada por não conseguir comunicar”, contou Natália, de 41 anos, à ‘Domingo’. Os meses foram passando e o inglês começou a ser uma realidade cada vez mais presente no dia-a-dia desta família.

Com o vocabulário a tornar-se cada vez mais apurado e com as questões comunicativas a dispersarem-se, Cidália e Natália sabiam que tinham um objetivo a cumprir. “O nosso emprego, segundo o meu pai, era estudar. Ele estava sempre a dizer que a sabedoria não ocupa lugar, por isso era importante acumularmos o máximo de saber que conseguíssemos. Não podíamos “andar a passear os livros”, como ele dizia. Não havia tempo para isso, nós tínhamos uma missão muito explícita: nós viemos para os EUA para estudar e conseguirmos ter uma vida melhor”, recorda Cidália ainda com o sentido de responsabilidade na voz.

As irmãs portuguesas fazem questão de agradecer todos os dias aos seus pais a oportunidade que estes lhes deram. Cidália e Natália acreditam que os seus pais “estavam para além do seu tempo e da sua geração”.

“Nós sempre pudemos dar voz a qualquer opinião que tivéssemos, sobre qualquer assunto, mas tínhamos também a responsabilidade de conseguir defender os nossos argumentos. Desde que me lembro, a ideia de não conseguirmos fazer algo nunca entrou nas nossas vidas. O nosso pai nunca nos deixou sentir que, por sermos meninas, não íamos conseguir alcançar o que queríamos”, explicou Natália.

MULHERES DE CAPACETE EM PUNHO

As duas jovens acabaram por concretizar o sonho dos seus pais e frequentar a universidade. A missão parecia estar cumprida. No entanto, a força dos laços familiares fez com que as irmãs Luís colocassem de parte as carreiras académicas que tinham construído e as ambições próprias do mercado empresarial. Assim, em 2008, Natália convenceu a irmã mais velha a regressar ao Maryland e a tomarem conta da empresa fundada pelos pais.

As mulheres portuguesas perceberam desde cedo que estavam a entrar num terreno que, aparentemente, não era seu. “Fomos vítimas de discriminação muitas vezes. Penso que o sistema ainda não está preparado para ter mulheres líderes em indústrias compostas maioritariamente por homens”, confessa Natália Luís. No entanto, o sucesso acabou por surgir: A M.Luís Construction vale hoje 6 milhões de dólares (cerca de 4.386 milhões de euros) e emprega 250 pessoas.

 “OBAMA FOIMUITO AMÁVEL CONNOSCO”

A grande conquista surgiu em Setembro deste ano, quando a família Luís foi convidada para um jantar com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. “Fomos chamados à Casa Branca para participar no quinto aniversário da queda do banco de investimentos Lehman Brothers. Fomos integrados num grupo de empresas que passaram por este momento difícil da nossa história económica e que conseguiram sobreviver. Foi uma grande surpresa para nós. Os meus pais estavam em Portugal e foi exigido que marcassem presença nas comemorações, por isso tiveram que vir a correr para os Estados Unidos”, contou Cidália ao CM.

Mas o melhor ainda estava para vir… “Duas semanas depois, recebemos um telefonema da presidência a dizer que Obama queria visitar a nossa empresa! Ficámos chocadas. E a verdade é que ele veio mesmo, foi muito amável connosco, falou com os nossos empregados e com os nossos pais, que lhes contaram um bocadinho da nossa história”, recorda Cidália Luís.

O discurso de Barack Obama, no qual evidencia o esforço e a dedicação destas mulheres portuguesas e usa a sua empresa como exemplo do ‘sonho americano’, colocou as irmãs Luís no mapa. A sua empresa é agora conhecida no mundo inteiro e tida como um exemplo de sucesso.

“O ‘sonho americano’ existe mesmo. O meu pai, que nasceu e cresceu nos Matos da Ranha e era analfabeto, conseguiu educar duas filhas num país estrangeiro e fundar uma empresa que foi visitada pelo presidente dos EUA”, diz Cidália, com alguma emoção na voz.

 A SAUDADE DO ETERNO EMIGRANTE

As duas mulheres contaram ao CM que, apesar do sucesso que têm vindo a atingir no outro lado do Atlântico, têm as mesmas dúvidas e tristezas que qualquer outra pessoa que abandona o seu país. “O emigrante fica perdido no tempo. Eu tenho 45 anos e sinto-me americana, mas também sou portuguesa. Na América tenho que explicar porque é que tenho este nome, mas quando chegou a Portugal, já não me sinto a aldeã de Matos da Ranha. É muito difícil”, explica Cidália. “Quando parte, o emigrante leva as memórias do país que deixou. Quando regressa, é difícil encontrar o país representado nessas memórias, pois este não parou no tempo, continuou a desenvolver-se”, acrescenta.

Mesmo com o sucesso e prestígio que alcançaram nos Estados Unidos, e com as angústias identitárias próprias de quem se sente dividido entre duas culturas, Cidália e Natália Luís garantem que sentem uma certa vaidade em ser portuguesas.

“O meu marido é português e a sua família vive toda em Portugal. Vamos aí pelo menos duas vezes por ano, pois quero que os meus filhos tenham contacto com as suas raízes. Sinto-me orgulhosa de fazer parte de uma cultura que já deu tanto ao Mundo”, disse Natália Luís.

Cidália não esquece os pormenores da sua terra natal. “Quando vou a Portugal, passo sempre alguns dias na praia do Pedrógão (Leiria) e visito a Quinta das Lágrimas. A verdade é que tenho saudades das luzes de Lisboa, do nosso churrasco (que é o melhor do Mundo!) e do Oceano, pois não há cheiro como o do mar português”.

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