Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
8

UM TRAUMA COLECTIVO

O barco afundado na Galiza não deixou só marcas de fuelóleo no mar. Depressão ou alcoolismo são problemas que podem atingir a população, especialmente os pescadores galegos. E a ‘maré negra’ vem a caminho
31 de Janeiro de 2003 às 20:40
Em seis dias, o petroleiro Prestige – que às 15h15, do dia 13 de Novembro de 2002, emitiu o primeiro sinal de SOS, a 51 quilómetros do Cabo Finisterra, na Galiza – partiu-se em dois e desapareceu no Atlântico. Tão profundo como o mar onde o Prestige está afundado, é o desgosto da população piscatória da ‘Costa da Morte’, que de um dia para o outro se viu privada da riqueza natural do oceano, agora impróprio para a captura de peixe e marisco. Há mais de dois meses que o dia-a-dia dos que ganhavam a vida naquele mar, já não é passado a bordo das embarcações.

Agora, enquanto decorrem as operações de limpeza, é em terra que os pescadores são mais precisos. Todos os braços são poucos para limpar as praias e salvar as espécies animais atingidas pelo derramamento de 37 mil toneladas de fuelóleo, tarefa que gerou uma onda de solidariedade para com o povo galego. Esse esforço contribuiu para “aliviar” a tristeza da população, que apesar de se ter queixado da falta de acompanhamento do governo espanhol, descobriu o valor da palavra entreajuda: “O Estado esteve ausente, mas em contrapartida, descobrimos Espanha”, desabafou Miguel Anxo, psicólogo do Hospital de Santiago, que tem acompanhado o drama dos galegos.

Os profissionais de saúde concordam que a solidariedade ajuda, mas não é suficiente para reparar os traumas psicológicos: “Ansiedade, depressão, ‘stress’, dores de cabeça, problemas familiares e um significativo aumento da ingestão de bebidas alcoólicas, são alguns sintomas associados a este tipo de situações traumáticas. Perturbações que podem afectar qualquer classe social, mas não há dúvida de que os pescadores e os marisqueiros vão ser os mais castigados”, confirma o psicólogo, que avança com a possibilidade deste “grupo de risco” vir a sofrer de depressão crónica. Nos piores casos, fala-se mesmo em tendências suicidas.

CRIANÇAS TAMBÉM VÃO SOFRER

Se durante anos, as águas galegas (ricas em peixe e marisco) serviram de sustento a esta gente, agora tudo mudou. Trabalhar está fora de questão – os biólogos marinhos alertam que o mar está “impróprio para consumo” – e ninguém avança com uma data certa para a recuperação do ecossistema. A maré negra vai continuar a massacrar os pescadores por mais tempo, para quem o futuro se traduz numa incógnita.

E não são os subsídios do Governo que vão dar alento a estas famílias, desde sempre ligadas ao mar, e que nunca aprenderam outros ofícios: “Quando as operações de limpeza acabarem e a população tiver de se confrontar com a nova realidade – o desemprego – os problemas vão começar a surgir. Não nos podemos esquecer que essas pessoas não têm outros interesses para além do trabalho diário. Fruto da educação ou da origem social, os pescadores e marisqueiros que neste momento passam o dia em terra, sem nada que fazer, vão começar a procurar um refúgio no álcool”, constata Miguel Anxo. Com a ingestão de bebidas alcoólicas a crescer, os psicólogos alertam para o risco dos restantes familiares – em especial as crianças pequenas, que não conseguem compreender a gravidade da situação – poderem vir a sofrer com a tragédia. Noites mal dormidas e falta de nutrientes básicos na alimentação – provocados pela quebra do poder de compra dos pais – podem dar azo a uma diminuição no seu rendimento escolar. Outra dor de cabeça para os pais...

Para combater esta crise, um grupo de psicólogos está a trabalhar num projecto que visa, pelo menos, minimizar os efeitos psíquicos da situação. Para já, há três grandes objectivos: reforçar a rede de apoio às populações, para que se sintam mais acompanhadas, (em especial quando os voluntários partirem); alertar os profissionais de saúde para estas situações clínicas e organizar grupos de apoio que respondam às solicitações.

Além disso, vários grupos ecologistas estão a pressionar o Governo de Aznar para realizar estudos epidemiológicos a todos os que estiveram em contacto com o fuelóleo, já que segundo Sara del Rio (da Greenpeace) este combustível contém hidrocarbunetos, substância associada ao risco de incidência de cancro: “Alguns dos componentes do fuel foram classificadas pela Organização Mundial da Saúde como altamente cancerígenos”, avança Sara, que deixa um alerta: “Quando o fuelóleo entra em contacto com a pele, o melhor é retirá-lo rapidamente com água limpa, para não ser absorvido”. Percebe-se por que é que os galegos já chamam a esta tragédia o “Chernobyl espanhol”.

MARÉ NEGRA em PORTUGAL

Isabel Ambar, oceanógrafa física do Instituto de Oceanografia, diz que o fuelóleo do Prestige ainda pode chegar a Portugal. As previsões apontam para Março: “Em princípio vai haver uma mudança de regime dos ventos e correntes por volta de Fevereiro/Março. Prevê-se que, especialmente em Março, os ventos dominem de quadrante Norte, empurrando as águas para Sul", explica. Até lá, a única coisa a fazer é esperar.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)