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Um verão de ferro

Nuno Henrique luz conta a sua experiência em provas internacionais de iron man
29 de Setembro de 2013 às 15:00
Um verão de ferro

Olho para a fotografia e só me lembro do sofrimento. Não me lembro que estava nos Alpes a subir uma das montanhas famosas da Volta à França, nem que o tempo estava ideal, nem que a paisagem merecia mais atenção.

Mas não vou esquecer-me tão cedo do que me custou aquele momento, nem de que aquela subida acima dos 2000 metros era apenas uma das mais de 40 de idêntico calibre que iria ultrapassar em 14 etapas.

Fora do circuito dos profissionais, a Haute Route, em particular a versão Iron - i.e., fazer a Haute Route Alpes e a Haute Route Pirenéus de seguida -, é uma das corridas de ciclismo mais difíceis do Mundo. Mais agonia só mesmo na Race Across America e os seus 4800 quilómetros de costa a costa, de Oeste para Leste.

Este ano, dos 1000 participantes nas duas provas - 600 nos Alpes, 400 nos Pirenéus -, 40 fizeram as duas, e desses 40 eu fui o único português.

A Haute Route versão Iron tem sete etapas nos Alpes - quase 900 km entre Genebra, na Suíça, e Nice, no Sul de França - e outras tantas nos Pirenéus, entre Barcelona e Anglet, perto de Biarritz. Ao todo, cerca de 1600 km e mais de 40 mil metros de subidas - ou 20 vezes a serra da Estrela, do nível do mar até à Torre. Em duas semanas e com uma bicicleta.

O que significa toda esta contabilidade? Sofrimento. Pelo menos durante metade do dia, com etapas entre as 04h30 e as 06h30 de duração, andamos em desconforto físico, por vezes extremo. A segunda metade do dia é passada a tentar recuperar do esforço da primeira - beber, comer, massagem, levantar as pernas, pensar noutras coisas, beber, comer, dormir.

NÃO É SÓ SOFRIMENTO 

A partir de certa altura, as pernas começam também a sentir o peso do passado recente: começamos a carregar o cansaço do dia mais o cansaço das etapas anteriores. Nas pernas e, acima de tudo, na cabeça. Cada esforço minimamente prolongado acima do vermelho deixa uma pequena cicatriz mental. Quando tentamos repetir, percebemos que aquela zona ficou sensível, tipo gato escaldado. Mas repetimos na mesma. Porque os controlos horários são apertados. Porque estamos num comboio em andamento do qual não queremos, por preço algum, saltar. Sobretudo, porque a cabeça manda fazê-lo.

E aqui está a explicação para o sofrimento, sendo uma presença tão importante em dias como estes, não ser o principal. É importante como barreira a ultrapassar. É importante por ser a marca de que o desafio era ambicioso, no limite do que é possível para nós. E é importante porque sem sofrimento durante as etapas pouca conversa haveria à mesa depois.

Mas o principal em provas deste tipo não é a glorificação das dificuldades vividas. Pode dar um certo prazer, é uma bazófia inofensiva, mas é uma satisfação superficial, dependente da capacidade de o próximo se impressionar com a nossa história.

Porque o objetivo último de nos lançarmos neste tipo de desafios não é mostrar ao Mundo que somos os mais fortes de pernas. É mostrar a nós próprios que temos cabeça para vencer qualquer obstáculo. As pernas são apenas a ferramenta.

Isto podemos aprendê-lo nos desportos de endurance, mas em boa verdade é válido para tudo. A vantagem de o aprendermos - ou, para ser exato, de nos ser revelado tão claramente aquilo que já sabíamos - nos desportos de endurance é que os resultados são imediatos, ao contrário do que quase sempre acontece no dia a dia. Isto é, aqui há uma relação entre boa cabeça e bons resultados.

No caso específico da Haute Route, a organização é de tal forma profissional - a maior parte da equipa trabalhou na Volta à França - que o atleta não tem mesmo qualquer desculpa extradesportiva. O alojamento, a comida, as massagens, a logística diária - bagagens, bicicletas -, estão previstos para não pensarmos em mais nada que não seja as montanhas que se seguem. Durante as etapas, e tal como no Tour, andam sempre para trás e para a frente carros de apoio, e não faltam, para os problemas mecânicos, as clássicas carrinhas amarelas da Mavic.

Em suma, chega sempre (várias vezes durante o dia) aquele momento em que somos só nós e o percurso. O percurso vai lançando as suas surpresas, e nós vamos tentando perceber se estamos à altura. E, pelo caminho, percebemos que estamos à altura. Que perdemos o medo a qualquer coisa que, meses antes, parecia monumental. É disto que se trata.

Dito de outra maneira: a única qualidade verdadeiramente indispensável para fazer esta e outras provas do género é não ter medo. Quando é assim, tudo o resto vem por acréscimo. O estado físico à partida, avalia-se. O peso, perde-se. A forma, ganha-se. A cabeça, prepara-se. O tempo, inventa-se. A rotina, cria-se e depois cumpre-se. A idade, os anos de desporto ou não-desporto, a inexperiência nas distâncias mais longas, não têm qualquer importância. Só é preciso pensar um pouco maior do que o habitual.

NO MEIO DE 5600 

Na realidade, isso foi o que me aconteceu no início do verão. Porque as Haute Routes, sendo um programa de barba rija, não eram, por si só, a minha prioridade para 2013. Faziam parte de um programa maior.

Um mês antes estava eu na Alemanha, em Roth, perto de Nuremberga, por volta das seis da manhã e no meio de 5600 atletas a olhar desconfiado para as águas escuras do canal de Hipoltstein.

Uns minutos depois, era suposto mergulhar e nadar quase quatro quilómetros (3860 metros) em menos de duas horas, após o que teria 180 quilómetros para completar de bicicleta em menos de nove horas, natação incluída. Acabada a bicicleta, o dia continuava com 42,195 quilómetros de corrida (uma maratona). Tempo-limite para fazer tudo: 15 horas.

A prova chama-se Challenge Roth e é um dos monumentos da distância Ironman - juntamente com o campeonato do Mundo, no Havai. Este ano, foram 220 mil os espectadores ao longo de todo o percurso, muitos deles sentados em mesas corridas à beira da estrada, meio escondidos atrás de gigantescas canecas de cerveja.

Para Roth, eu fui com algum medo, mas também com uma confiança mesmo na fronteira do responsável. O que era inevitável: embora fosse um Ironman, era também o meu primeiro triatlo; e não faltou, e por pessoas muito mais experientes do que eu nestas coisas, quem me tentasse explicar que talvez fosse uma ideia um bocado irrefletida.

O que era tudo verdade; só que eu não tinha medo, e sabia que ou tinha treinado o suficiente, ou, no caso das minhas limitações (natação; posição aerodinâmica na bicicleta), tinha para cada uma um plano B. Além de querer fazer um Ironman logo à primeira, eu queria fazê-lo a sério, isto é, correndo toda a maratona, sem me ver reduzido a alternar entre passo lento de corrida e caminhada, como é frequente acontecer.

No final, correu tudo perfeitamente. Nadei em 01h36, pedalei em 06h46 e corri toda a maratona em 04h40. Foi difícil, claro que foi. Mas nunca tive aqueles momentos negros em que só apetece encostar de vez - sobretudo se começamos a pensar demasiado na próxima dificuldade; i.e., a sofrê-la inutilmente por antecipação.

O sofrimento, o desconforto físico elevado, gasta muita energia mental. Ora, mesmo começando nós o dia num estado de grande placidez, apenas com a dose de excitação necessária para estarmos na partida com vontade, a nossa reserva de energia mental é finita, e saber geri-la ao longo do dia é um dos grandes segredos dos desportos de ultraendurance.

Atendendo a que eu não sou um superatleta mas um tipo normalíssimo, que ainda por cima não gosta mais de sofrimento físico do que o comum dos mortais, resta-me, como explicação para o facto de ter conseguido fazer no espaço de sete semanas um Ironman mais a Iron Haute Route, a falta de medo. Isso, a teimosia, e fazer bem o trabalho de casa. Mas sobretudo não ter medo. Agora olho para as fotografias e é o que fica.

BI DE UM ATLETA A TODA A PROVA

Além do Challenge Roth e da Iron Haute Route, fez provas de BTT por etapas. Dois TransPortugal, Dois TransAlp, um TransPyr, um Titan Desert e um Brasil Ride. Entrevistado pelo Slowtwitch.com - maior site de desportos de endurance - e pela Procycling. Até ao final do ano vai fazer mais um triatlo distância Ironman.

"Quando comecei tinha 93 kg. Hoje, tenho 69"

ENTREVISTA: F.C.

Como surgiu o interesse por esta modalidade?

Pelo ciclismo o meu interesse é antigo, sempre gostei de ver o Tour e o Giro na televisão. Quando comecei a fazer desporto, em 2008, comecei pelo BTT pela simples razão de que conheci um grupo de amigos que fazia BTT. Depois de ter feito uma série de provas de BTT por etapas, quis experimentar outras coisas envolvendo na mesma a bicicleta. Daí o ciclismo de roda fina, primeiro, e ultimamente o triatlo. Andar de bicicleta dá-me uma grande sensação de liberdade.

Qual era a sua condição física ?

Quando comecei tinha 93 kg. Agora tenho 69 kg. A minha condição física geral na altura (inícios de 2008) está implícita nos seguintes factos: não fazia desporto, fumava imenso, comia relativamente ‘limpo' mas em quantidades desmesuradas, mais do que uma vez fiquei ofegante a subir escadas.

Como treina?

Consegui criar uma rotina eficiente, em parte também porque (no caso do triatlo) posso treinar os três desportos no raio de um quilómetro, perto da minha casa. No total, treino entre uma hora a hora e meia por dia, com sessões maiores ao fim de semana.

Qualquer pessoa pode ser um Ironman?

Partindo do princípio de que não tem problemas físicos que a impeçam de fazer os esforços necessários, não diria qualquer pessoa, mas muita gente está apta a fazer um Ironman. Muito mais gente do que aquela que pensa que está apta. O que é preciso, acima de tudo, é não ter medo.

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