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Um filme contra os sapos

A mais jovem realizadora a ganhar um urso de ouro em Berlim é portuguesa e tem raízes ciganas.
Marta Martins Silva 28 de Fevereiro de 2016 às 15:00
FOTO: Mariline Alves

Quando se escreve Leonor Teles no motor de pesquisa do Google, na internet, já não é a história política e pessoal da rainha regente de Portugal em 1383 e 1384 que aparece em primeiro lugar. Uma homónima realizadora de cinema roubou a sua majestade o protagonismo na rede desde que recebeu um Urso de Ouro para a Melhor Curta-metragem no 66º Festival de Berlim, a 20 de fevereiro, graças ao filme ‘Balada de um Batráquio’.

No filme, que pretende ser de intervenção, apesar de o considerar "parvo e tosco", Leonor parte sapos de loiça – colocados à porta de muitos estabelecimentos comerciais para afastar os ciganos – numa abordagem artística à xenofobia que existe em Portugal contra a etnia. Leonor diz que apesar de ser a mais jovem realizadora de sempre a ganhar tal galardão (e logo num dos festivais de cinema mais conceituados do Mundo) será a mesma de sempre. A mesma jovem de 23 anos, nada e criada em Vila Franca de Xira, que sonhou – "o único sonho que tive realmente até agora" – ser piloto da força aérea mas que se interessou pela fotografia em movimento antes de sequer começar a cruzar os céus vestida com a farda militar. Antes da curta-metragem premiada em Berlim, Leonor só tinha feito um filme, no âmbito da sua licenciatura em Cinema (tem também um mestrado em Audiovisual e Multimédia), também ele premiado (no festival de cinema de Vila do Conde e no IndieLisboa) e também ele sobre a temática cigana, um tema que lhe corre no sangue por parte do pai.

"O primeiro filme que fiz, o ‘Rhoma Acans’ – rodado no Casal dos Estanques em Vialonga – fazia um paralelo entre a minha vida e a vida das raparigas ciganas. No fundo confirmou aquilo que eu já sabia: elas casam muito cedo, têm de ter filhos, cuidar da casa, nem sequer têm direito à adolescência. Senti que a minha vida – se o meu pai não tivesse casado com a minha mãe (uma não-cigana) e nunca tenha tido nada a ver com as tradições da etnia porque não concordava com essas práticas conservadoras que excluíam a mulher – podia ter sido assim. Eu podia ser uma daquelas raparigas e essa foi uma das razões que me levou a fazer este filme". Percebe-se nas suas palavras – que são poucas e ainda um pouco contaminadas pela montanha-russa que Berlim pôs em andamento – que há uma certa necessidade (ainda que mais pessoal do que profissional, por muito que uma coisa leve à outra) de perceber um ADN que lhe pertence mas que por circunstâncias da vida não vivenciou.

"No primeiro filme foi mais perceber as minhas origens, na ‘Balada de um Batráquio’ quis arranjar um meio de me expressar sobre a relação entre a comunidade cigana e a sociedade em geral. Mas as pessoas são livres de acharem o que quiserem, não me cabe a mim ditar essa mensagem".

Pai orgulhoso

Uma coisa é certa: o que se segue não vai incidir no mesmo tema. "A nível profissional para já encerrei este capítulo, não é o meu papel ser embaixadora dos assuntos sociais". Mas e a família o que achou da ‘Balada’ que a Portugal Film (que representa a curta) levou a Berlim? "Agora já não tenho contacto com a minha família de etnia cigana porque o meu pai e a minha avó já morreram e já não falo com os meus primos, por isso não faço ideia do que vão pensar quando o filme chegar a Portugal (ainda não há data)". E o pai, com que olhos teria encarado tanto sapo de louça partido? "Acho que teria achado uma macacada completa mas tenho a certeza que teria gostado de saber que foi premiado em Berlim. Além de que como ele gostava de desconstruir a tradição teria ficado orgulhoso por eu ter feito o mesmo".
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