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“Um pelotão fazia a ‘volta dos tristes’”

A companhia 1405 ficou na Magina, aquartelamento numa clareirada mata do luvo, onde até o campo de futebol era inclinado.
Leonardo Ralha 15 de Fevereiro de 2015 às 10:00

A unidade mobilizadora do Batalhão de Artilharia 1852, cujo comandante era o tenente-coronel Barbosa de Abreu, foi o Regimento de Artilharia de Costa, em Oeiras, e terá sido o primeiro batalhão ali constituído.

Embarcámos em Lisboa, a 21 de agosto de 1965, no ‘ Vera Cruz’, e chegámos a Luanda a 30 de agosto. Levados para o campo militar do Grafanil, recebemos alguma instrução militar, muito ocasional, e aguardámos o nosso destino.

A 7 de setembro, seguimos em camiões para a região do Zaire, com paragens em Ambrizete e em São Salvador do Congo (atual M’Banza Congo). Em dois dias chegámos aos aquartelamentos, junto à linha de fronteira com a República do Zaire (hoje República Democrática do Congo). Era uma zona conhecida pela grande infiltração do inimigo, sendo a nossa missão evitá-la a todo o custo, através do regular patrulhamento de toda a área, por trilhos e picadas em que tínhamos de vencer os mais diversos obstáculos, sem contar as operações em que foi preciso enfrentar o inimigo.

A Companhia de Comando e Serviços ficou na Mamarrosa, a 58 quilómetros de São Salvador. A Companhia 1404 na Canga, a 1406 no posto fronteiriço de Luvo, e a 1405, que eu integrava e que era comandada pelo capitão Moniz, ficou na Magina, aquartelamento numa clareira da Mata do Luvo, onde até o campo de futebol era inclinado, ao cimo de uma ravina com dois quilómetros, após passar pela ponte sobre o rio de igual nome, onde nos abastecíamos de água.

BAIXA EM EMBOSCADA

Foram cerca de 17 meses em locais que obrigavam a constantes operações militares, algumas durante dias consecutivos. As companhias que estavam na Canga e na Magina eram as mais isoladas e expostas ao inimigo. Há a lamentar uma baixa, a 6 de janeiro de 1967, em emboscada a uma coluna da Companhia 1404, quando regressava do reabastecimento em São Salvador, e vários feridos, alguns com gravidade, obrigando à evacuação, devido a outras ocorrências, como o acionamento de uma mina anticarro, em maio de 1966.

O aquartelamento da Magina, além da localização isolada ­– um pelotão percorria todos os dias os morros em seu redor, a fazer a chamada ‘volta dos tristes’, para evitar que o inimigo flagelasse –, debatia-se com grandes problemas nas movimentações, face à degradação das vias rodoviárias. Diversas vezes ficámos retidos na Mamarrosa, pois as chuvas noturnas impossibilitavam o regresso, dado o perigo de atravessar a floresta do Binda, nas margens do rio Luvo, e encostas adjacentes a este rio.

Muitas vezes, devido às intempéries e ao estado das estradas, as idas a São Salvador tinham de ser feitas por Pangala e Calambata, e, na volta, por Calambata, Cuimba e Buela, o que obrigava a fazer cerca de 150 quilómetros, quase o dobro do normal.

Finalmente, a 15 de fevereiro de 1967, fomos rendidos por unidades do Batalhão de Caçadores 1900. A deslocação do nosso batalhão para a zona de Benguela demorou quatro dias, com paragens noturnas em Ambrizete, Luanda e Novo Redondo. A Companhia de Comando e Serviços ficou no Lobito, a 1404 na Gabela, a 1405 em Benguela e a 1406 em Quibala.

Embarcámos, a 16 de agosto de 1967, em Luanda, novamente no ‘Vera Cruz’, chegando a Lisboa no dia 24.

Horácio Tavares Marcelino

Comissão: Angola, de 1965 a 1967

Força: Companhia de Artilharia 1405 do Batalhão de Artilharia 1852

Atualidade: Aos 71 anos, natural de Arrifana (Azambuja), está reformado e vive no Seixal. Tem dois filhos e duas netas

A Minha Guerra Horácio Tavares Marcelino
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