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Uma ave rara no paraíso

António Variações está de volta. Vai ser lançado um CD com raridades, livro de poemas, biografia sobre os seus múltiplos mundos, filme certamente controverso. A Domingo desvenda mistérios e revela confissões.
16 de Abril de 2006 às 00:00
Maria de Lurdes, a irmã mais velha de Variações
Maria de Lurdes, a irmã mais velha de Variações FOTO: Hugo Delgado
António Variações está abraçado a Deolinda de Jesus e, a avaliar pela intensidade do olhar, o amor do filho é tão grande que não se consegue explicar. Na mesma parede da casa de Carolino Ribeiro, irmão mais novo do “verdadeiro artista”, um disco de platina por vendas superiores a 40 mil unidades de ‘O melhor de António Variações’ destaca-se das fotos de família.
A vida do iconográfico cantor, genuíno e inimitável, ao mesmo tempo universal e fiel às suas profundas raízes minhotas, tem tanto de fascinante como de doloroso. O talento é óbvio mas a incompreensão de que foi vítima também deixou as suas marcas. No início do Verão de 1982, na Feira Popular de Lisboa, quando fazia a primeira parte de um concerto dos UHF, foi constantemente vaiado por mais de cinco mil pessoas. Num concerto na Queima das Fitas de Coimbra, no ano seguinte, uma multidão de estudantes embriagados passou o espectáculo a fazer gestos obscenos. E ele, corajoso, como que indiferente, qual ‘Ave-do-Paraíso’ – como lhe chama Manuela Gonzaga, a autora da biografia que vai ser editada no início de Maio, limitava-se a cantar, em ‘play-back’, naquele dia com indisfarçável cansaço. No final, disse, apaziguador: “Mesmo assim valeu a pena ter estado aqui.” Se fosse vivo já teria dobrado a casa dos 60. Como seria hoje?
Carolino Ribeiro não tem dúvidas: “Seria uma pessoa polémica e controversa.” Continuaria ousado, provavelmente cometeria heresias como a de cantar ‘Povo Que Lavas no Rio’, “primeiro grito da modernidade portuguesa dos anos 80”, dedicado à sua musa Amália Rodrigues, de forma absolutamente atrevida. Seria corajoso e irreverente, porque isso fazia parte da sua personalidade.
O seu rosto, inconfundível, retratado em Roma por um pintor de rua no Verão de 1973, completa os quadros expostos na sala, ao lado de uma janela que dá para as ruínas da casa onde Deolinda de Jesus deu à luz dez filhos. Guardada na gaveta, uma foto de António enviada de Sá da Bandeira, Angola, a 13 de Dezembro de 1967, aos 23 anos, onde está escrito a tinta permanente: “Para os meus adorados paizinhos com todo o amor e saudades do Mundo do vosso filho que vos ama.”
Carolino não sabe grande coisa de António. Têm 13 anos de diferença, só se viam na Páscoa, no Verão e no Natal. “Quando vinha, para não ferir susceptibilidades, vestia-se em condições, mas lembro-me de uma vez que a nossa mãe lhe disse que ele parecia um cigano, com cabelos e barbas grandes, as calças por dentro das botas até ao joelho.” Carolino, carpinteiro de profissão, não nega que se sentia mal ao ver o irmão “vestido daquela maneira. Não é uma questão de vergonha, mas saber que toda a gente o criticava, deixava-me incomodado.”
A irmã mais velha, Maria de Lurdes, recorda-se de, certo Natal, ele ter batido à porta de casa vestido com um capote do Alentejo, e a mãe ter apanhado “um susto de morte. Ela não o queria deixar entrar.” Manuela Gonzaga acredita que estas situações se deviam ao facto de Variações ter nascido muito à frente da sua época. “Era preciso ter uma coragem e uma convicção muito acima da média para ser tão diferente. Em Portugal, em 1976, quando abriu o primeiro salão de cabeleireiro unissexo, da Isabel Queiroz do Vale, onde trabalhava, não havia mais ninguém que ousasse vestir assim. Era um espectáculo público, gratuito e fascinante.”
Nos dois anos em que cantou começou a falhar nas visitas, mas até aí ninguém imaginava que ele poderia ser famoso. Que tinha jeito para cantar, lá isso tinha. A gente ouvia pouca música mas quando o José Afonso ou a Amália passavam na rádio ele cantava sempre a par com eles”, conta Carolino que diz que o irmão era muito tímido e nervoso. “Se as coisas não fossem como ele queria estávamos lixados.” Todavia, “com a mãe era uma jóia de pessoa.”
Quando visitava os pais fazia questão de trabalhar na lavoura e obrigava os mais novos a fazerem o mesmo. “Se alguém aparecia escondia-se, ou então subia o monte para apanhar Sol.” Memórias do irmão mais famoso não guarda muitas porque “já passaram vinte e tal anos desde que ele morreu e, já se sabe, a gente esquece-se. Recordo-me que tinha um sarcasmo acerca das coisas que ouvia na rádio. Ria-se das piadas dos Parodiantes de Lisboa e do Herman José.”
Jaime Ribeiro, advogado e também ele irmão de António, considera que o que distingue o irmão da maioria dos artistas é a sua vincada preocupação com a diferença. “Lutava arduamente para ser original. A maneira como escrevia, como compunha, como falava ou vestia, denotava isso mesmo. Possuía um carácter irreverente e sarcástico, apreciava a crítica social e tinha muita graça.”
Carolino recorda-se da primeira vez que o viu cantar. “Ele ligou a avisar que ia passar na televisão. Fui ver mas achei que aquela canção, a do ‘Comprimido’, não era grande coisa.” O programa era o ‘Passeio dos Alegres’, de Júlio Isidro que se mostrou espantado com os excêntricos trajes usados “por aquele ser fantástico” – nas suas palavras – a maneira como ondulava o corpo, as inusitadas coreografias. “Para mim o Carnaval é todo o ano, não tenho preocupações com a moda”, referiu então.
Mais tarde, António mandou por correio o seu primeiro disco, ‘Anjo da Guarda’. “Um festeiro de Carrazedo pediu-me para o convencer a vir cá cantar de graça”, conta Carolino. António Variações mostrou-se de imediato disponível para actuar na aldeia vizinha à que nasceu, desde que pagassem as viagens. “Mesmo as pessoas que não ligam nada à música ficaram encantadas. Havia também aqueles críticos que o mandaram cantar para outro lado, que aquilo não eram maneiras.”
Francisco Silva, colega de carteira de António Joaquim Rodrigues Ribeiro durante os quatro anos de escola primária, recorda-o como sendo alguém invulgarmente fechado. “Pouco brincava, era muito introvertido. Aprendia bem e não fazia malandrices. O professor Oliveira, que ainda é vivo, metia-nos sempre na primeira carteira porque éramos os que aprendíamos melhor.” Francisco diz que tem muitos episódios engraçados dessa altura, “poucos no entanto com o Tonito que era mais responsável do que os outros, não se metia muito com a gente nem apanhava réguadas.”
Deolinda de Jesus costumava dizer que o filho “ajudava no campo mas sempre que podia escapulia-se para onde houvesse uma feira, romaria ou festa.” O bichinho da música herdara-o do pai, que tocava acordeão e cavaquinho, sendo frequente a mãe encontrá-lo a cantar em frente ao espelho. “Era a sua paixão. Eu e ele cantávamos à desgarrada”, conta a animada Maria de Lurdes.
Com 12 anos, “deixou-nos para ir trabalhar para Lisboa, foi marçano, ajudou num escritório, mandaram-no para a guerra em Angola. Depois foi para Londres encontrar-se com o irmão José, “o favorito de nossa mãe” – confessa Maria de Lurdes – arranjando emprego a servir à mesa e a lavar pratos num colégio.
Mais tarde partiu para Amesterdão, onde aprendeu o ofício de cabeleireiro.
Quando chegou lá de fora, vinha “excêntrico, extravagante e ridículo”, conta um vizinho de Fiscal, terra onde nasceu. “Quando saiu daqui até parecia que tinha medo do diabo. Depois de se formar pensava que era alguém, cheio de manias.” Carolino, Lininho, como lhe chamava o Tonito, fica revoltado com quem diz isso. “É inveja e malvadez.”
De regresso a Lisboa montou um salão de cabeleireiro. Encontrámos um cartão de apresentação, escrito à mão pelo punho do António, com os dizeres: “Pró menino e prá menina, barbearia mista, rua de S. José, 70.” “De dia aturava os clientes no salão; à noite virava-se para as cantigas. Mas, acima de tudo, a grande paixão do meu filho era eu”, afirmou certa vez Deolinda de Jesus. “A prova disso está na canção onde ele diz que a minha mãe era a mais linda. Por isso eu sentia orgulho nele. Agora ele precisa é de estar sossegado junto de Deus.” As cartas que mandava para casa começavam invariavelmente: “Minha querida mãe”, fazendo várias menções a Deus. Talvez a mais surpreendente foi uma enviada em 1965, dias antes de partir para o Ultramar: “Paizinho percebe. Não sou um boneco mas também não sou mau de todo.”
Com dois ou três anos, o Tonito teve um problema de saúde muito grave. Caiu-lhe o cabelo e as sobrancelhas. Era eu que o levava à senhora que lhe dava injecções de penicilina. Pelo caminho mordia-me toda”, conta Maria de Lurdes. Depois da mãe, “eu era tudo para ele”, prossegue, revoltada e saudosa: “Às vezes tinha mau feitio. Ralhava comigo, fazia-me chorar. Mas depois arrependia-se e pedia desculpa. Porque eu era a única pessoa que o entendia. A família tinha vergonha dele. Informaram-nos que ele era homossexual e todos se afastaram. Por causa de uma tosse descobri que estava doente. Vi logo que não tinha irmão por muito tempo.” Maria de Lurdes revela-se extremamente magoada: “Quero ir à televisão dizer que o meu irmão não morreu de sida. As pessoas estão 100% mal informadas. Faleceu de uma broncopneumonia bilateral provocada por manter a roupa suada no corpo depois dos concertos e agravada porque os médicos o mandaram ir para a praia. O erro foi esse. Quando deu entrada no Hospital Pulido Valente já estava em fase terminal. Decidi então levá-lo para a Cruz Vermelha. Não tinha dores mas não escondia uma grande angústia e tristeza. E eu ali ao lado, a sofrer.”
Carolino Ribeiro soube que o irmão estava internado porque, “por casualidade”, leu num jornal. “A minha mãe ia para o ver ao hospital e ouviu a notícia no rádio do autocarro a anunciar que ele tinha falecido. Quando chegou a Lisboa dirigiu-se de imediato à morgue. Custa--me a acreditar que ele morreu de sida. Ele era uma pessoa muito limpa para ter morrido disso. A homossexualidade está a alastrar. Irrita-me, sou contra, não vou andar a persegui-los nem a bater-lhes.” Maria de Lurdes não confirma nem desmente a homossexualidade do irmão mas informa que lhe conheceu namoradas. “A Lena d’Água andou com ele. Foi amante dele. Foi ela própria que me disse.”
Variações apareceu pela última vez na televisão no programa ‘A Festa Continua’ de Júlio Isidro. Semanas depois foi internado com complicações que se agravaram vertiginosamente. Em poucos dias perdeu 20 quilogramas. Faleceu quando tinha 39 anos. À Basílica da Estrela, em Lisboa, compareceram inúmeros fãs, gente anónima, os Heróis do Mar, Lena d’Água, Maria da Fé e Amália Rodrigues com quem actuou em 1983 na Aula Magna da Universidade de Lisboa. O seu corpo foi trasladado para Fiscal, Amares, sua terra natal, onde está sepultado ao lado da mãe. Perto, corre o rio Homem, e no cruzamento que dá para a estrada principal está colocado o seu busto, olhos virados ao céu, da autoria de Arlindo Fagundes. “Ele não descansa em paz enquanto eu não levar o caixão para Lisboa, para o cemitério dos Prazeres, onde ele me disse, antes de morrer, que queria ficar”, conta Maria de Lurdes. Depois do falecimento do seu filho, dona Deolinda, que se emocionava com facilidade ao falar do seu Tonito, revelou-se uma mulher resignada: “Deus é quem manda na vida. Mas tinha sido preferível eu ter morrido na vez dele, que era novo e merecia viver.”
FILME ENCALHADO
O argumento do filme sobre António Variações tem enfoque no período que vai entre 1979 e 1984, ou seja desde o ano em que começou a cantar até ao ano em que morreu. Tudo indica que o actor Nuno Lopes venha a ser o eleito do realizador João Maia para representar o papel principal. Carolino Ribeiro afirma que “no Verão do ano passado o padre de Fiscal recebeu uma carta a informar que a Câmara Municipal de Lisboa não tinha verba disponível para avançar com o filme.” Jaime Ribeiro diz mesmo que “há mais de um ano que nem a Catarina Portas nem o João Maia, que obtiveram um subsídio para escreverem o argumento, me dão notícias, pelo que suponho que o filme está numa fase embrionária, encalhado mas não morto.” A ver vamos.
HOMENAGEM EM DUPLO CD
Amanhã estará nos escaparates um duplo CD que, entre outros, contém os temas com que, há 25 anos, António Variações se estreou na televisão num directo. O CD, tal como a biografia, intitula-se ‘A História de António Variações - Entre Braga e Nova Iorque’ e conta com algumas pérolas, sendo uma espécie de banda-sonora de filme misturada com álbum conceptual. Musicalmente ainda hoje é difícil de qualificar: mistura de folclore, com pop e novo rock inglês, moldado por uma voz exótica e adocicada.
O registo possui grande parte da obra do artista, entre inéditos, maquetas e temas anteriormente editados, vários e curtos intros e algumas canções, como ‘Maria Albertina’, dados a conhecer pelos Humanos. O irmão Jaime Ribeiro confessa que “ainda tenho em mãos muito material inédito, nomeadamente maquetas originais.”
BIOGRAFIA COM MÚLTIPLOS MUNDOS
A biografia de António Variações, editada pela Âncora, tem lançamento previsto para o início do próximo mês de Maio. Nela, a autora, Manuela Gonzaga, – que descreve o cantor como “um homem lindo, baixo, corpo musculado, olhos verdes, barba exótica” – procurou descobrir o ser humano para lá da sua imagem pública, entender as suas motivações, a sua coerência, a sua força.
Na obra, que conta com 70 fotografias, “tentei perceber os seus mundos múltiplos e estanques. A sua vertente cultural e cosmopolita, a sua sede de aprender, a sua enorme inteligência. Entender a sua ousadia e a sua reserva. A sua coragem e a sua timidez. E, à luz disto, ouvir a sua música de forma nova, e as suas letras com outra atenção. Foi um trabalho que, contas feitas, me deu um prazer muito grande levar a cabo”, conta à Domingo, concluindo que “só há uma forma de entendermos um personagem com este carisma. Aceitando-o tal como ele é.”
Ainda este mês a editora Relógio de Água vai editar um livro com as letras-poemas das célebres canções de António Variações.
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