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Uma caixinha onde a vida é sempre rosa

Aquela a quem chamam ‘Severa do século XXI’, guarda com zelo outra diva numa caixinha de música. A francesa Piaf repousa no doce mecanismo que embala Raquel Tavares ao deitar. Quando a fadista dá à manivela, ‘voilá’, temos magia. A vida canta-se em tom de flor. Rosa. No bairro de Alfama, onde a levou a passear, ou em qualquer parte do Mundo.
11 de Janeiro de 2009 às 00:00
Uma caixinha onde a vida é sempre rosa
Uma caixinha onde a vida é sempre rosa FOTO: Manuel Moreira

O fado nem sempre é cor-de-rosa como a vida que Piaf canta a partir de um minúsculo palanque. É aqui que mora a magia. O tom melodioso de ‘La Vie en Rose’ abraça o Mundo inteiro a partir do mecanismo de uma caixinha de música que Raquel Tavares guarda com enorme estima desde há cinco anos. Na resposta ao desafio, a fadista não hesitou na escolha. 'Podia ter sido um livro ou o iPod, mas pensei logo nisto. Guardo-a religiosamente'. Foi presente de um amigo, músico, de passagem pela cidade de Bordéus. Desconhecia o gosto de Raquel, criterioso e distante de fanatismos, mas acertou na mouche na sugestão. 'Só compro se me deparar com alguma especial, também há algumas bem pirosas! Mas gosto muito do objecto em si'.

O mecanismo não está desamparado no seu quarto. Curiosamente, uma outra caixinha de música, em formato guarda-jóias, serve-lhe de leito. 'Está em cima da cómoda, sobre a caixa grande. Essa fui eu que comprei, é muito recente'. A companheira comunica por bailado, em vez de chanson. Até à data, o ‘Quebra-Nozes’ de Tchaikovsky tem cultivado boas relações com La Môme. 'Adoro Edith Piaf e a ‘La Vie en Rose’, só pela melodia, consegue ser muito mágica, muito doce. Tem tudo a ver com o contexto da caixinha de música. É deslumbrante.'

Obstinada na ligação às tradições, a fadista adora tudo o que palra som. Grafonolas, gira-discos. Cápsulas de tempo que rebobinam as eras e sincronizam os sonos. 'É engraçado como isto é tão pequenino e se torna tão grande quando amplificado.' Às vezes, antes de dormir, ponho um bocadinho a tocar. Embala, é muito mimoso, e transporta-me para a infância'.

No repertório do pequeno engenho, só uma lacuna a apontar. 'Não conheço nenhuma com um fado, mas é uma ideia! Ocorre-me um da Celeste Rodrigues, ‘A Lenda das Algas’'. A pequena assoalhada em ferro habitada pela voz da francesa não abandona a casa de Raquel. 'Está sempre guardadinha!'. Saiu esta semana à rua, excepcionalmente, para um passeio por Alfama.

EM MUITO SEMELHANTE A UMA VIOLA

Falar de música é sempre tarefa complexa, confessa a artista que faz do fado vida. Raquel Tavares arrisca uma descrição tão minuciosa quanto possível do pequeno objecto. 'É um mecanismo em ferro com um cilindro e pontinhos que criam um som. É composto com acordes, em muito semelhante a uma viola que também precisa de uma caixa para amplificar o som. Quanto maior a plataforma onde estiver posto, maior a amplificação. Se for madeira, melhor'. Com tamanhos mais avantajados, o mecanismo é presença assídua em muitas cidades europeias, usado em animação de rua. Dentro da etiqueta da oferta, o preço é uma incógnita. Mas o valor, para a presenteada, é incalculável.

AO SERVIÇO DE BJORK E POTTER

A primeira caixa de música terá saído das mãos de um relojoeiro suíço, Antoine Favre, em 1796. O seu ecletismo figura em formatos tão díspares como as composições de Björk, da francesa Coleen, que em 2006 fez um álbum exclusivamente a partir de caixinhas, ou do alemão Stockhausen. O objecto tem papel principal no filme ‘Music Box’ de Costa Gavras e foi convocado para a série ‘Lost’, ‘Harry Potter e a Ordem de Fénix, o musical ‘O Fantasma da Ópera’ e mesmo para o cenário agreste de ‘Mad Max II’. A Whitney Music Box, uma versão virtual, reproduz a receita em aplicação web. É precisamente na net que alguns sites se dedicam à venda e restauro dos modelos clássicos. É o caso do Music Box Attic. com

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