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Correio da Manhã

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São estes os novos rostos no Parlamento

Oito estreantes que defendem desde o antirracismo até à defesa da castração química
Fernando Madaíl 13 de Outubro de 2019 às 06:00
André Ventura
Cristina Rodrigues, PAN
André Ventura
Cristina Rodrigues, PAN
André Ventura
Cristina Rodrigues, PAN

A última festa da noite de domingo foi de danças e de risos na sede do Livre, quando se confirmou a eleição de Joacine Katar Moreira, nascida na Guiné-Bissau, há 37 anos, e que mesmo a gaguejar não deixará de pugnar, no novo Parlamento, contra o racismo e a discriminação de género – é sua uma das frases da campanha: "Gaguejo quando falo, não gaguejo quando penso."

A sua biografia é esclarecedora sobre aquela força de vontade: cresceu com os avós e tomou conta dos irmãos até vir para Portugal, aos oito anos, estudar num colégio de freiras em Mafra.

Para pagar a universidade, trabalhou em supermercados e em hotéis, enquanto preparava os exames da licenciatura em História Moderna e Contemporânea, do mestrado em Estudos do Desenvolvimento e do doutoramento em Estudos Africanos. Mas a investigadora do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE e presidente do Instituto da Mulher Negra em Portugal (INMUNE) é só um dos rostos que se irão revelar na próxima legislatura – e que talvez tragam novos temas para a agenda política.

O racismo português – que mal existe nos discursos oficiais e nas conversas de café – pode-se medir pela quase nula representatividade dos negros em diversos domínios, das figuras de televisão aos partidos políticos – nas últimas décadas, o único deputado era Helder Amaral (que não foi reeleito para a bancada do CDS, reduzida a cinco lugares).

Agora, além de Joacine e de Beatriz Gomes Dias (uma afrodescendente eleita pelo BE), também se vai sentar no Parlamento a socialista Romualda Fernandes, uma jurista que estudou nos liceus Honório Barreto (Bissau) e Maria Amália Vaz de Carvalho (Lisboa) e está sempre atenta às realidades portuguesa e guineense – a benfiquista que vê ‘Conversas ao Sul’ na RTP África tanto ouve a música de Manecas Costa como a dos The Gift.

A vogal do conselho diretivo do Alto Comissariado para as Migrações estudou Direito Internacional aplicado à Economia, às Nacionalidades, Condição de Estrangeiros e Direito Humanitário, na Universidade Paris VIII, e prepara o doutoramento em Políticas Públicas, no ISCTE.

Saída dos Passos Perdidos
Já a causa LGBTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexos) tem despertado maiores manifestações de antipatia – apesar de se terem aprovado diplomas polémicos.

Se a realidade nacional é adversa, a nova deputada do BE Fabíola Cardoso – uma professora, de 46 anos, eleita por Santarém –, como sublinha um seu parceiro de bancada, precisa de ter "muita coragem" para, num distrito com a fama de ainda ser um reduto do "marialvismo lusitano", defender os direitos destas minorias – "Iguais na lei, iguais na sociedade".

Licenciada em Biologia e Geologia pela Universidade de Aveiro, integrou a lista do Bloco nas recentes eleições para o Parlamento Europeu e, para além de desfraldar a bandeira do arco-íris, é ativista de várias outras causas. E conhece bem o País, pois tanto frequenta a Anjos 70 (Lisboa) como a Carmo’81 (Viseu), apoia uma associação naturista em Sacavém ou um projeto de hortas sociais em Castelo Branco.

Rosto conhecido nos Passos Perdidos de S. Bento, como chefe de gabinete do porta-voz do PAN, Cristina Rodrigues passa agora dos bastidores para uma cadeira no plenário da Assembleia da República – numa bancada em que há um homem e três mulheres (além de Cristina Rodrigues, também foram eleitas Inês de Sousa Real e Bebiana Cunha).

A jurista vegetariana, uma lisboeta de 32 anos, que tem três cães que "fazem parte da sua família" e é apreciadora de literatura, foi a responsável por muitos projetos de lei apresentados por André Silva. Mestre em Ciências Jurídico-Empresariais – com uma pós-graduação em Gestão do Território (e especialização em ambiente e recursos naturais) e outra em Direito dos Animais –, antes das atuais funções foi docente do curso de Direito Animal, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Voluntária em associações zoófilas e ambientalistas, como advogada defendeu ‘pro bono’ vítimas de violência doméstica.

Vozes jovens
Numa legislatura com dez partidos – só houve uma dezena de emblemas em 1980, mas nessas eleições, além da UDP, os restantes integravam três alianças: a AD (PSD, CDS e PPM), a FRS (PS, UEDS e ASDI) e a APU (PCP e MDP/CDE) – novas figuras poderão vir a destacar-se.

Uma delas é a jovem comunista Alma [Benedetti Croce] Rivera, cujo nome revela que os pais são de origem italiana, embora tenha nascido em Ponta Delgada. Após ter sido quase eleita nas anteriores Legislativas, quando ainda só tinha 23 anos, mas já era a sexta na lista por Lisboa (entraram cinco), desta vez ficou logo atrás de Jerónimo de Sousa. A cinéfila, que gosta de gatos e de artes marciais, viveu até aos 18 anos nos Açores, num ambiente familiar pouco politizado. Mas quando foi estudar Direito para Coimbra, a (então) miúda do ‘piercing’ no lábio envolveu-se nas manifestações contra os cortes e as reformas do executivo de Sócrates e aproximou-se dos colegas comunistas.

Aos 19 anos filiava-se na JCP e, aos 27, é membro do Comité Central do PCP. Candidata pela CDU nas últimas Europeias, já se tinha percebido, desde que se estreou como oradora na abertura da campanha eleitoral de 2015, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, que tem um discurso convicto e um timbre confiante.

Outro estreante é Hugo Carvalho, de 28 anos, um viseense que foi estudar para o Porto e aí foi cabeça de lista do PSD – atrás de si, numa tentativa de subverter o padrão tradicional, vinha Rui Rio.

Ex-presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e membro da direção da Federação Académica do Porto, com mestrado em Engenharia Eletrotécnica e dos Computadores, desempenha funções como diretor de operações e recursos humanos. Este apreciador de música heavy metal e de filmes de Tarantino, que tanto se informa lendo o ‘Jornal Económico’ como o ‘The Independent’, é o atual presidente do Conselho Nacional de Juventude.

Numa entrevista, assumiu-se como social-democrata (filiou-se em 2014), mas dispensa a "cartilha ideológica" e considera-se um progressista nas chamadas "causas fraturantes" (como aceitar a mudança de género a partir dos 16 anos).

Comentador televisivo
No conjunto dos 250 parlamentares há um vasto universo de profissões e de ocupações que retratam, de algum modo, a nossa sociedade: desde professores universitários a operários em fábricas, de empresários a desempregados, de jovens estudantes a alguns já aposentados, da gestora de recursos humanos à consultora fiscal, do engenheiro do ambiente à designer gráfica, da antropóloga ao fisioterapeuta.

Um exemplo de funções contemporâneas é o curriculum do líder do Iniciativa Liberal, João Cotrim de Figueiredo, de 58 anos, que foi eleito por Lisboa. Antigo aluno da Escola Alemã e licenciado pela London School of Economics (a que juntou um MBA na Universidade Nova), não só desempenhou funções de gestão em diversas empresas como foi diretor-geral da TVI e presidiu ao Turismo de Portugal durante o governo de Passos e Portas – sendo, depois, eleito vice-presidente da European Travel Commission.

Herdeiro de uma família que se especializou em cabides de roupa, serviu cocktails nas vernissages da londrina Serpentine Gallery, é considerado um diplomata no trato e um apreciador do debate de ideias.

Mais popular como comentador televisivo do Benfica ou em programas sobre casos de polícia do que como docente de Direito na Universidade Autónoma e na Universidade Nova de Lisboa, o fundador do Chega (partido formalizado apenas em abril), André Ventura, com 38 anos, é um dos deputados mais controversos.

O ex-vereador da Câmara de Loures pelo PSD – cargo que abandonou quando Rui Rio se tornou presidente dos sociais-democratas – proferiu algumas considerações que rotularam logo o seu partido: prisão perpétua, castração química de pedófilos, recenseamento da comunidade cigana.

Em plena noite eleitoral, pediu contenção aos comentadores que falavam da chegada ao Parlamento da extrema-direita. Mas, questionado sobre a entrada da ultradireita na Assembleia da República, o líder socialista, António Costa, foi tão breve quanto perentório: "Não contamos com o Chega para nada!"

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