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Correio da Manhã

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Uma homenagem

Amy Winehouse deixa o registo de uma voz única e uma turbulenta biografia. Amy interpretava todos os heróis e heroínas da ‘Soul’
Francisco José Viegas 7 de Agosto de 2011 às 00:00
Contra o tempo
Contra o tempo

Eu ouvi Amy Winehouse tardiamente. Durante um ou dois meses, ouvi pronunciar o seu nome na rádio e depois por casa. Como um sopro. Por causa da minha teimosia, perdi essas canções do seu primeiro disco, mas eu estava condenado a essa pena; como céptico, desconfiei da novidade extrema, de alguma euforia, da decepção que havia de chegar.

Ouvi, portanto – oh, vergonha –, os seus discos às escondidas. Quando me perguntaram o que eu achava de Amy Winehouse, respondi com inquietação, minha e imperfeita: "Lembra-me Shirley Bassey." Não lembrava. Lembrava-me uma perdição sem nome.

O problema, com o tempo, avolumou-se: os nomes dos artistas ‘perdidos’, encostados a uma biografia de drogas e álcool, estavam inscritos na margem diabólica de todas as tábuas da lei. No cinema, na música, na literatura – os seus registos biográficos valiam apenas pelos seus registos biográficos.

Na maior parte, diz o bom senso de um conservador, a sua biografia é dada em espectáculo como uma espécie de sacrifício em nome da arte e das coisas que representaram: um estilo novo, uma perturbação, uma vontade de arrasar – mas, na sociedade do espectáculo, nada disso interessa, ou pouco interessa.

Colhe mais, muito mais, a perseguição do desastre, a quantidade de vezes que caíram em palco ou soçobraram diante do modelo de bom comportamento; quantas vezes recolheram a uma clínica de desintoxicação, ou quantas vezes as suas vidas ficaram sepultadas numa condenação antes do fim.

TODA A ‘SOUL’

Com Amy Winehouse passava-se isso, que era desagradável e triste. Mencionei, uma vez, o carácter trágico da sua biografia, quando os seus fãs encontravam maneira de perfilar os seus desastres como uma marca de arte. Não era. Não é bom interpretar a figura da tragédia anunciada, da dissolução; cai bem para quem assiste, na primeira fila, ao espectáculo mais ou menos sujo.

Mas, por detrás das excentricidades do ‘show business’, esconde-se, ou oculta-se, ou mascara-se apenas, o sofrimento de uma alma adolescente, a que poucos ligam – salvo os biógrafos, que, depois, vão recolhendo peças soltas de um registo de perdições. Na sociedade do espectáculo contam mais os efeitos de sentido e os feixes de luz do que o sentido propriamente dito; Amy colaborava nisso.

Mas, na verdade, ela não me lembrava Shirley Bassey. Também me lembrava Shirley Bassey porque eu gostava, sempre gostei de Shirley Bassey – Amy lembrava-me toda a ‘soul’. Ela interpretava todos os heróis e heroínas da ‘soul’. No dia da sua morte, repeti para mim que o talento nunca impediu que a ‘pop’ devorasse os seus filhos; por isso, a tragédia repetia-se até ao fim, verso a verso, não como a de Nina Simone, não como a de Jimmy Dean, não como a de Jim Morrison, mas como a de um som que podia ter atingido a perfeição da mesma forma que Sísifo podia ter chegado ao topo da montanha ou Ícaro sobrevoado a luz mais intensa. Neste Verão, homenageemo-la. É o que eu faço.

FESTIVAL: ÓPERA

"O cenário é sempre bom: Óbidos. Neste ano, já passou a ‘Flauta Mágica’,de Mozart, mas há tempo para ainda assistir à ‘Carmen’, de Bizet, com a Orquestra Filarmónica das Beiras, dirigida por António Vassalo Lourenço, como de costume,e o resto do elenco e equipa de produção está disponível on-line [ver endereço abaixo]."

Datas: 13 e 14

Local: Castelo e Vila de Óbidos ou Convento de São Miguel das Gueiras

+ info: www.festivaloperao-bidos.pt

LIVRO: ‘A AUSÊNCIA DA MÚSICA’

"São mais de quinhentas páginas sobre um dos enigmas portugueses: a ideia de que a música portuguesa é irrelevante. António Pinho Vargas estuda os mecanismos que levaram ao isolamento da música erudita – mas a minha dúvida permanece: como é possível que tão poucos intelectuais, entre nós, reflictam e escrevam sobre música?"

Título: ‘Música e Poder: Para uma Sociologia da Ausência da Música Portuguesa no contexto europeu’

Editora: Almedina

MÚSICA: O CÃO DA MORTE

"Canções para ouvir sem preconceitos como num Verão que se há--de despedir da praia e das histórias que não levantaram voo entre a poeira ou os últimos grãos de sal. Se me perguntarem que som é este, driblo: trata-se de uma espécie de viagem entre géneros, tocando aqui e ali, mas mantendo-se a flutuar. Não entrará nas ‘playlists’ do pop, mais sôfregas, mas há-de recolher entusiasmos."

Disco: ‘Ainda sem nome’

Net: http://ocaodamorte.bandcamp.com

FUGIR DE...

ESCOLHAM

"Queria, sinceramente, escolher um disco, um filme, um livro, um programa de televisão de que valesse a pena fugir a sete pés. Podia até perguntar a alguém, porque, nesta semana, não tenho sugestões para tanto (às vezes, a televisão é o alfobre ideal para essa colheita – mas tenho passado ao lado). Deixo a escolha aos leitores, decerto há-de haver espaço para o nosso pequeno horror. Portanto, nada mais democrático do que deixar o espaço em branco."

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