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Uma horta pela positiva

Uma turma de alunos desenamorada da escola encontrou ânimo numa horta circular que cultiva todas as quintas-feiras
20 de Maio de 2012 às 15:00
Horta Mandala. Em círculos concêntricos, obriga a circular
Horta Mandala. Em círculos concêntricos, obriga a circular FOTO: Pedro Catarino

No ar vêem-se borboletas, ouvem-se rolas, pintassilgos e verdilhões. Na terra, graças a mãos adolescentes até há pouco tempo de costas voltadas com a escola, crescem cebolas e batatas, brócolos e rabanetes, feijão-verde e beterrabas, couves e alfaces. Hão-de em breve despontar também girassóis, ali não muito longe da hortelã e dos coentros, dos poejos e da salsa. As favas já foram colhidas – nove quilos num só dia – e um dos pássaros deu uma dentada num morango.

Os ‘donos’ desta horta usam piercings e ténis, ganga desbotada pela moda ou pelo uso, calções que deixam mais perna fora do que dentro, dizem ‘bué’ e ‘ya’, mas miram com vaidade as sementeiras. Tal como os agricultores espalhados pelo País, também eles se preocuparam com a falta de chuva no primeiro e seco trimestre do ano, embora morem em apartamentos citadinos e até ao início da Primavera só tenham visto legumes nas prateleiras do supermercado.

São alunos da Escola EB 2,3 Aristides de Sousa Mendes, na Póvoa de Santa Iria – em frente aos bombeiros, entre as estradas e os prédios –, mas todas as quintas-feiras arrumam o telemóvel 3G no bolso das calças e calções para que as mãos segurem a enxada na horta Mandala, diferente por ter as culturas dispostas em círculos concêntricos, ‘obrigando’ os hortelões a circular e interagir, geometria comum no Brasil.

"As raparigas não têm unhas para a horta, mas quando estão com disposição lá nos ajudam", diz João Abreu, 16 anos, a apontar para as mãos pintadas das colegas. "Eu cá só tenho é medo dos bichos que voam e nos atacam", responde-lhe Diana Silva, de 18. Todos os quinze alunos do curso de educação e formação (CEF) de Assistente Familiar e de Apoio à Comunidade, que dá equivalência ao 9º ano e certificação profissional, acumularam histórias de desamor com a escola e os professores, com currículos marcados por chumbos e repetências sucessivas, participações e faltas, algumas por violência.

Luís Vid Nunes, professor de inglês desta turma, percebeu em 2011, o primeiro ano deste curso, "que estes miúdos precisavam de mais alguma coisa onde descarregar as energias. Como eram problemáticos, tinham de canalizar a atenção em qualquer coisa prática" pelo que a horta pareceu-lhe uma boa solução. A necessidade aguçou o engenho e, preparado e limpo o terreno – no interior da escola – professor e alunos empreitaram a missão que já deu frutos.


VIOLÊNCIA NO PASSADO

Mafalda Antunes, 17 anos, quer trabalhar com "idosos ou deficientes", mas também se ajeita na horta. Veio da Madeira há quatro anos para morar com o pai "e mudar de vida. Desde que cheguei aqui ainda não mandei nenhuma cadeira à cabeça de nenhum stôr". "Nem despejou baldes do lixo na cabeça de nenhum colega, como fazia lá", acrescenta Mónica. "Estou a mudar o meu comportamento, mas não consigo tudo de uma vez. A horta tem-me ajudado", volta Mafalda.

Rita Ribeiro, 17 anos, era "muito rebelde" também. "Tinha muitas faltas disciplinares porque só fazia porcaria. Veja lá que eu tinha quatro cadernetas cheias de participações, porque estava sempre a ir para a rua, a responder mal aos professores e quando ia era para desestabilizar a aula. Comecei a acalmar neste curso, porque aprendi a ter regras, e agora até quero tirar o 12º ano", diz com os olhos azuis muito abertos. "Eles são mais difíceis do que elas em termos de comportamento, por isso, para os rapazes, a horta tem funcionado mais como escape para não estarem sempre dentro da sala de aula", comenta Manuela Bento, directora da turma e ‘compradora’ de rabanetes da horta.

Eles e elas têm entre 16 e 18 anos e pertencem à geração que nasceu a carregar no botão para ver as coisas a funcionar e se habituou a ver tudo acontecer à distância de um clique. A prática na horta mostrou-lhes que para colher é preciso semear e, acima de tudo, esperar. Semeado no Inverno, começou tudo a crescer na Primavera, cada cultura a seu ritmo.

As alfaces já estão na segunda ‘leva’ e a rúcula esgotou. O professor Luís trouxe um morangueiro, a mãe de um aluno mandou batatas, o marido de uma funcionária arranjou tomates amarelos. A terra, que não leva adubos, também vive da contribuição escolar. "Temos uma central de compostagem em que usamos restos de folhas podres, trazemos as cascas de casa quando fazemos sopa e o bar da escola arranja-nos borras de café. Tudo isto serve para fertilizar a terra", diz o professor.

LEGUMES NASCEM NA FÁBRICA

Fábio Cabral, de 17 anos, é dos mais aplicados na horta. E agora também nos estudos. "Viemos para este curso desanimados, fartos da escola e dos professores, e só queríamos fazer o 9º ano, mas agora temos objectivos", explica. Gabriel Pereira, 16 anos e um passado escolar difícil, intervém. "Estudar continua a ser uma obrigação, mas já não é tão chato."

"E os nossos pais já não são tantas vezes chamados à escola, nem se zangam tantas vezes connosco", diz Rita Ribeiro. "Este ano só fui uma vez para a rua, porque perdi o controlo e a tensão e a raiva subiram-me à cabeça", conta Diana Silva. "Exaltei-me, mandei bocas à stôra mas depois consegui pedir desculpa, antes não conseguia."


Quanto à horta, a aluna de 18 anos, que já fez "trabalhos como modelo", prefere "a parte do alpendre. Adoro estar sentada a apanhar sol, porque sou um bocado preguiçosa para trabalhar", acrescenta. Ao lado dela, Sheila Magalhães puxa a brasa à sardinha das raparigas da turma. "Eles podem fazer mais coisas pesadas, mas nós somos mais orientadas no nome dos legumes." "Sim, eu pensava que os legumes vinham da fábrica", diz meio a brincar meio a sério João Abreu, boné para trás. "Não me lembro de metade das coisas que plantámos, mas já sei distinguir umas das outras na terra", assume José Lobo.

Ainda assim, "foram os alunos que pediram para plantarmos abóboras, eles também sugerem culturas que conhecem", garante o professor que descobriu na horta Mandala uma forma de aproximar estes alunos da escola e também da natureza. "Uma das filosofias deste género de horta, que respeita a agricultura biológica, é deixar as culturas crescerem livremente, porque quanto mais espécies houver menos pragas a vão atacar."

Foi isso que explicou à turma no início do projecto. Isso e o facto de Mandala ser uma palavra sânscrita que "significa círculo mágico e sagrado, que representa geometricamente a dinâmica entre o homem e o cosmos e remete para antigas civilizações. De qualquer lado é possível alcançar o que está do outro sem pisar o que está plantado, usando o mínimo de energia".

A turma também implementou um sistema de aproveitamento de águas pluviais. Do lado de fora do portão um conselheiro habitual, homem da terra, grita para dentro da escola: ‘Oh professor, então e as favas?’.

"Toda a comunidade se sente envolvida", diz Luís. Mas as colheitas ainda não passaram os muros da escola. "Mal chega à sala dos professores desaparece logo. Fazemos metade do preço do supermercado e o sabor é muito melhor", dizem os miúdos. Em dois meses, desde que os ‘frutos’ começaram a brotar, já ganharam 60 euros. Para mais ferramentas e um churrasco.

NOTAS

50 EUROS

Custo total ficou em 50 euros. Autarquia cedeu tractor para trabalhar terreno numa fase inicial.

POUPANÇA

Maior vantagem da horta Mandala em relação aos canteiros tradicionais é a economia de água.

INÍCIO

Horta nasceu a 5 de Janeiro com 16 metros de diâmetro e 15 variedades. Terreno começou a ser preparado no final de 2011.

LEMA

‘Nada se perde, tudo se aproveita’ é um dos lemas das hortas Mandala. Todas as ervas, depois de cortadas, voltam à terra. 

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