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Uma luz ao fundo do túnel

Viviam de forma confortável antes da crise virar do avesso os seus dias, mas não baixaram os braços.
27 de Maio de 2012 às 15:00
Otília cumpriu um sonho ao abrir uma loja. A advogada aconselha a agora a insolvência
Otília cumpriu um sonho ao abrir uma loja. A advogada aconselha a agora a insolvência FOTO: Luís Guerreiro

Não há muito tempo, Otília concretizava o sonho antigo de abrir uma loja, depois de duas décadas a trabalhar por conta alheia, e António corria o mundo à procura de tecidos que haveriam de brilhar nas passerelles portuguesas. Também não há muito tempo, Maria aceitava uma proposta de rescisão da empresa onde trabalhava certa de conseguir encontrar emprego na mesma área com igual salário, Paula recebia convites para festas onde desfilava roupa nova e o sucesso de Susana rendia tantos euros na conta que todas as vontades pareciam possíveis de concretizar sem dano.

Não foi há muito tempo, mas foi noutro tempo. Um tempo em que tudo parecia possível a pessoas que, não tendo impérios ou fortunas, viviam de forma confortável o dia-a-dia, faziam planos para o futuro, programavam férias e jantares fora. Quando, a partir do terceiro trimestre de 2008 – que marcou o início das falências dos bancos e seguradoras norte-americanas –, a crise começou a dar à costa, estas e outras tantas pessoas, que viviam as mesmas vidas confortáveis, não a viram chegar. Ouviram falar dela ao longe, inquietaram-se com as notícias, mas não julgaram que fosse bater às portas que achavam tão seguras e trancadas a intempéries. Mas mesmo quando bateu, não se conformaram e souberam dar a volta à vida.

DÍVIDAS E CREDORES

A mesa de António, antes cheia de gente para jantar, só tem hoje um prato às refeições. A casa é outra, o homem que a habita também. Quem hoje vê o ex-empresário, que palmilhava longínquas paragens à procura de tecidos para vender a empresas e estilistas de renome, a pedalar junto ao Tejo, na bicicleta que agora usa como transporte, de t-shirt e calções, não imagina que não há muito tempo vestia fato, fechava negócios importantes à mesa dos melhores restaurantes, conduzia um carro topo de gama e vivia numa casa onde não faltavam assoalhadas e conforto.

Quem hoje vê Paula Santos, a tirar, envergonhada, da porta do prédio onde vive as ‘ameaças’ dos credores, não imagina que mudava a decoração da sala ao ritmo da sua vontade. Ou quem passa por Susana Silva, agora a ajudar na carpintaria do marido depois de vender peça por peça o que restou de uma empresa falida, não faz ideia que ganhava o suficiente para pagar a mais de duas dezenas de empregados.

António podia chamar-se Pedro ou Paulo, José ou Francisco, porque não está sozinho. Em 2010, a bonança que conhecera entrou em declínio. O divórcio destapou dívidas em créditos ao consumo contraídas pela mulher, que assinara de cruz durante o casamento, e que não seriam dramáticas se meses depois a quebra na procura do produto que vendia não o tivesse arrastado para o precipício.

"O banco foi-lhe buscar a casa, da qual só faltava pagar 30%, mas com a desvalorização que supostamente o imóvel havia de ter recebido apresentou--lhe uma factura muito maior, com juros vencidos. Em relação aos créditos, também deixou de ter hipótese de pagar e teve de se apresentar à insolvência", conta César Medalha Pratas, o advogado do empresário de 50 anos que hoje vive num pequeno apartamento arrendado.


"No início de Março foi considerado insolvente, fez-se a assembleia de credores e foi pedida a exoneração do passivo restante, uma figura que deriva do direito alemão e americano que é o ‘fresh start’ e que indica que, sob determinadas condições, o insolvente pode dizer assim: ‘Isto foi um azar que eu tive na minha vida mas quero começar de novo’. Depois de aceite, e durante cinco anos, é estabelecido um valor a partir do qual podem penhorar o dinheiro, que no caso do António é tudo o que fique acima dos 950 euros, até esse limite é o que fica para ele viver", acrescenta o causídico.

Sem hipótese de retomar a vida que tinha, o empresário conseguiu uma representação de acessórios náuticos que vende através da internet e ofereceu-se, por sugestão do advogado, para dar aulas de remo e canoagem, modalidades que tinha praticado como hobby na juventude. O desafogo financeiro ficou no passado, mas não a vontade de vencer.

"Sinto que ele se sente um homem mais livre e que encontrou no passado um caminho para o futuro". António não tem telemóvel nesta ‘nova vida’. "E só fez um contrato de internet e televisão por cabo por causa dos filhos. Disse-me: ‘Custa-me muito gastar este dinheiro, mas quero dar-lhes o mínimo de condições a que estão habituados quando vêm cá a casa para estar comigo’".

FILHA NA ILUSÃO

Otília Pedro também mantém com Joselene, de quatro anos, a ilusão de que nada mudou. "Não lhe dou hipótese de perceber o que se passa, não tenho o direito de lhe tirar a inocência, embora já me tenha perguntado porque tenho os olhos tristes."

O dinheiro não dá para mais do que a comida na mesa, mas mãe e filha agarram-se a programas que não tiram do bolso o dinheiro. "Levo-a à biblioteca, onde escolhemos histórias para ler à noite em casa e aproveitamos para ir à internet. É nesses dias que vou ao Facebook e consulto o meu e-mail", conta Otília, de 41 anos, residente em Almodôvar. "E como ficámos sem televisão, porque eu não posso pagar, vemos bonequinhos no DVD para ela não perceber o que estamos a passar: é como se tivéssemos televisão na mesma." Em 2009, Otília cumpria um sonho sem nunca imaginar o pesadelo em que este se iria tornar.

"Abri uma pequena loja, de 25 m2, com roupa para bebé e criança que nasceu de um projecto com o Centro de Emprego de Ourique. Foi aprovado e tudo apontava para que tivesse pernas para andar, até porque só existia aqui na vila uma loja desta natureza, mas não resultou." Otília é uma mulher de trabalho, sempre foi. Esteve emigrada na Alemanha, onde ganhou a vida a trabalhar em restaurantes; no regresso a Portugal trabalhou num hotel e num supermercado que foi depois comprado por uma grande cadeia até se atrever a sonhar com a loja própria.


"Mas em Outubro, dois anos e meio depois, tudo se começou a complicar. As vendas começaram a cair, a crise foi aparecendo, as pessoas começaram a perder o trabalho e no meio de todas estas coisas comecei a acumular dívidas. O País meteu-me nesta ruína. Há quem deva milhões e não os queira pagar, eu não devo milhões mas quero pagar, só não sei como."

O desespero anda de mão dada com a esperança de que tudo se resolva, mas não tem sido fácil sobreviver à espera da penhora, dia após dia.

"Não tenho familiares que me possam emprestar dinheiro, não tenho casa própria que possa vender, aquela lojinha acolhedora e colorida era o meu sonho e o meu meio de subsistência. Falta-me um ano para cumprir o prazo com o centro de emprego [a lei indica que é necessário manter o posto de trabalho durante quatro anos] e se fechar agora a porta tenho de devolver entre dois a três mil euros; e nem tenho direito a pedir o rendimento mínimo, porque se tiver dívidas ao Estado não tenho direito a nada. No dia em que sair da loja fico a dever 50 mil euros aos fornecedores. A advogada diz-me para pedir insolvência, mas até para fazer isso não tenho dinheiro."

EMPRESA RENDIA MILHARES

Depois de anos bem-sucedidos num negócio que construiu do zero, Susana Silva caiu a pique. "Sempre tive muita dificuldade em contar a minha situação à família, porque já estive num patamar de vida confortável", desabafa a ex-empresária, de 32 anos. Reviu-se em inúmeros casos, que procurou na internet, "de famílias destroçadas e sem alegria". Nas associações de apoio, nas redes sociais, nos fóruns da internet e nos sites sobre endividamento os apelos também se multiplicam.

‘Temos sentido alguma angústia. O maior erro foi, sobretudo, o excesso de endividamento. Além do crédito à habitação temos, neste momento, uma dívida de vinte mil euros de crédito ao consumo, que é a nossa maior fonte de preocupação’ escreveu um casal ao Gabinete de Apoio ao Sobreendividado da DECO.

Susana nunca pensou rever--se nestes casos mas foi neles que encontrou consolo. "Aos 25 anos criei uma empresa de informática, que vendia computadores ao domicílio com a parceria de algumas financeiras, o que facilitava a compra pelos cidadãos comuns." O volume de vendas chegou a atingir valores de oito mil euros por mês, a criar 23 postos de trabalho. Os melhores anos foram 2006 e 2007.


"Tinha um movimento bancário considerável que me levou a comprar o meu segundo apartamento e a transferir o primeiro sem o ter de vender e sem que fosse exigido fiador, mobilei as duas casas a pronto pagamento, comprei um carro a 0 km para a empresa e fui de férias para Tenerife e Lanzarote." Mas em 2009 a Banca começou a recusar propostas de crédito e os computadores ‘Magalhães’ trouxeram-lhe "uma quebra substancial. O que me levou a fazer um crédito de 17 mil euros para investir numa escola de informática. Mal arranquei com o projecto o Estado começou a oferecer formação gratuita e caí redondamente, com todos os pagamentos em dívida."

Sem saída, Susana começou por dispensar trabalhadores e acabou por vender, um por um, todos os equipamentos para fazer face às despesas até ter de cessar de vez a actividade. Viu--se "obrigada a lavar escadas", alugou uma das casas e deixou de conseguir pagar a outra. Não voltou ao cinema nem ao restaurante. Mas, no meio do desaire, apaixonou-se, casou e está à espera de um bebé. "Temos tentado combater as despesas. Ajudo o meu marido na gestão da carpintaria dele mas não sabemos até quando conseguiremos manter esta situação."

DE TRABALHO EM TRABALHO

Paula Santos tem 40 anos e saudades de ir ao cabeleireiro. "Durante anos não tive champô em casa porque ia todas as semanas arranjar o cabelo" recorda. "O meu ex-marido era uma pessoa que tinha um curso superior e eu tinha uma vida boa, e com o companheiro que tive depois do divórcio também. Como éramos dois era mais fácil custear as despesas que surgiam, mas agora sozinha tornou-se impossível." Paula é ajudante de laboratório, tem uma filha menor e muitos créditos contraídos, a maioria para decorar a casa e ter uma vida confortável numa altura em que o dinheiro começou a diminuir na conta.

"Quando me separei do meu companheiro foi o descalabro. Pedi a um banco um crédito para liquidar os outros todos, mas o dinheiro ficou na conta e acabei por gastá-lo. Comecei a receber telefonemas no local de trabalho dos credores e até na minha porta de casa chegaram a pôr um papel a dizer que eu devia". Mudou da casa de quatro assoalhadas para um T1. "A minha filha diz-me: ‘Mamã, a outra casa é que era boa’. E eu digo-lhe que esta situação é transitória, agarro-me a isso também."

Em Janeiro foi considerada insolvente e um terço do ordenado começou a ser penhorado, mas este mês chegou a boa notícia: também Paula conseguiu a exoneração do passivo de bens. Poderá ficar com dois ordenados mínimos, o resto será distribuído pela administradora de insolvência aos credores.

Maria G. está ainda à procura de uma solução. Foi "toda a vida secretária de administração. Ia de férias para a praia e para a neve, comprava roupa sem pensar muito na despesa. Quando a empresa onde trabalhava foi comprada pelos espanhóis fui convidada a sair mas não fiquei preocupada". Não mais conseguiu igual função ou salário. "Vou andando de trabalho em trabalho, de loja em loja, as pessoas vão fazendo o favor de me empregar. A minha filha montou um negócio e eu ajudei-a, mas também correu mal. Agora que, aos 62 anos, precisava da ajuda dos meus filhos, nem eles me podem valer, um está desempregado e o outro emigrou."


Os compromissos assumidos no passado, como a casa – cujo prazo de pagamento teve de estender até aos 75 anos – e os créditos que contraiu para se conseguir manter enquanto procurava emprego e para ajudar a prole podem-lhe tirar o sono, mas não a vaidade.

"Tenho três vestidos que têm mais de 30 anos e ainda hoje fazem um sucesso. E com um sorriso, cabelo lavado, um lenço aqui e um fio acolá, ficam bonitos e dão para variar, ninguém se apercebe das dificuldades. E, lá no fundo, sei que ao pé de muitos problemas a crise não é nada. Estamos vivos e isso é a maior bênção, tudo se irá arranjar."

PRIMEIRO UM CRÉDITO, DEPOIS OUTRO E OUTRO

Paula Santos (na foto) lembra o início do problema. "Primeiro foram os 500 euros que pedi para comprar roupa para ir a uma festa; depois veio o Natal, vieram as férias e os bancos sempre a mandarem mensagens a dizer que tinha ’x’ dinheiro disponível. Fui sempre aceitando, sem me aperceber de que os 20 euros por mês eram só de juros, sem contar com o capital", conta. Ficou insolvente por 30 mil euros, mas agarra-se ao trabalho – tem feito mais horas, sem descanso – e à filha para acreditar que tudo vai melhorar. Foi declarada insolvente.

NOTAS

AJUDA

Mais de 10 mil famílias pediram ajuda este ano à DECO. A Apoiare recebe 500 pedidos/mês.

CASAIS

Número de casais desempregados aumentou mais de 70% no último ano. São já 8 mil.

CAUSAS

Redução de vencimento ou desemprego e situações de divórcio são as situações mais frequentes, diz a Apoiare.

Desemprego Novas oportunidades
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