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"Uma mina matou o meu melhor camarada"

Dor. Ela pediu-me mas nunca contei à namorada do Chico a forma horrível como ele morreu, no dia seguinte a termo-nos visto pela última vez.
25 de Outubro de 2009 às 00:00
Numa missa ao ar livre em frente ao rio Cacheu
Numa missa ao ar livre em frente ao rio Cacheu FOTO: Direitos reservados

A maior mágoa que trouxe da guerra no Ultramar foi a morte do meu melhor amigo, o Chico – de nome completo Francisco Pepino Tomás do Coito. Conhecemo-nos na recruta e, sendo ribatejanos, eu de Amiais de Baixo e ele de Alcanhões, criámos uma grande amizade, como se fôssemos irmãos. Quando embarcámos para a Guiné éramos radiotelegrafistas e pertencíamos ao mesmo batalhão mas fomos colocados em companhias diferentes, a 30 quilómetros de distância. Eu fiquei em Farim, no Norte, e ele em Quntina, na fronteira com o Senegal, onde estavam todos os atiradores. Como pertencíamos às Comunicações, falávamos muito durante a noite, quando estávamos no mesmo turno, ao longo dos oito meses de comissão.

A última vez que o vi foi na véspera da sua morte, quando veio ao meu quartel. O Chico escreveu quatro aerogramas para a família e a namorada, e pediu-me que os metesse no correio, uma vez que o avião chegava no dia seguinte. Dormiu na minha cama enquanto estive de serviço e partiu muito cedo, sem se despedir, pedindo apenas ao estafeta que me desse um abraço por ele.

De manhã, soube pelo rádio que morrera numa emboscada a caminho de Quntina. Pisaram uma mina antipessoal e o Chico morreu numa explosão horrível que lhe deixou o corpo todo desfeito. A sua morte deixou-me devastado e foi muito sentida por todos os que o conheciam. Mesmo assim, deixei os seus aerogramas no correio.

Passadas três semanas, recebi uma carta da namorada do Chico, a Madalena, da Tapada de Almeirim, que nunca conheci mas julgo ser (ou ter sido) juíza no Tribunal de Almada. Pedia-me por favor que lhe contasse a morte do namorado: como foi, se foi rápida ou lenta, se sofreu, se levou um tiro ou se foi atingido de outra maneira. Nunca lhe respondi, porque achei que dizer a verdade seria demasiado cruel. Aliás, nem à minha mãe contei, nas cartas que mandei para casa, que o Chico tinha morrido.

De resto, a guerra foi uma experiência horrível, e eu até costumo dizer que a Guiné é onde o sol é mais quente e o luar é mais turvo. A minha primeira sensação do que era uma guerra, e que me marcou profundamente, vivi-a a 22 de Abril de 1968, quando os turras atacaram o quartel com morteiros. Estava com o estafeta no posto de rádio – sempre o primeiro alvo a abater - e ouvimos um barulho horrível a grande distância. Ele disse-me: 'Amiais, isto é um ataque.' Mas acabámos por ficar, com ele a dizer-me que eu não tivesse medo.

Os rebeldes atacavam o quartel quase sempre ao dia 22 de cada mês. Num desses dias, ao ouvir os primeiros barulhos, corri para a enfermaria e escondi-me junto a uma parede. Ao olhar para cima, qual não foi o meu espanto quando vi o nome do meu pai gravado numa telha: 'Manuel Lourenço Frade'. Não faço a mínima ideia de como é que as telhas feitas na cerâmica dele, em Amiais de Baixo, foram parar à Guiné. E se calhar até tinham passado pelas minhas mãos quando lá trabalhava. Tive o pressentimento de que não ia morrer ali, como se o meu pai me estivesse a proteger.

Fui umas 20 vezes para o mato, o pior que nos podia acontecer. Numa ocasião, em Outubro de 1968, era o único branco no meio de 60 ou 70 ‘roncos’, guerrilheiros negros que estavam na sua terra mas ao serviço de Portugal. Como eles não tinham transmissões, tive de caminhar com um rádio de 16 quilos às costas durante dois dias e duas noites. Urinei para uma queimada para me poder mascarrar de preto e não ser um alvo fácil no meio deles. A missão era chefiada pelo comandante Chern, que me colocou um binóculo Bricama na cara para que eu visse um quartel de terroristas que tinha a fama de ser quase tão forte como o nosso. Eu disse-lhe para ter cuidado para ver para onde me levava, porque eu tinha mulher e dois filhos para criar na Metrópole. Era mentira, porque eu era solteiro e bom rapaz, mas funcionou e voltámos para trás. A guerra e a matança eram a coisa mais normal do Mundo para eles. Mas para mim não.

O dia mais feliz da minha vida foi quando regressei à Metrópole. Vivi situações muito complicadas mas sei que muitos portugueses sofreram bem mais do que eu, que só não fui mais sacrificado por ser radiotelegrafista. Nos momentos de acalmia, fugia à realidade escrevendo cartas à minha mãe. Aliás, quero deixar aqui um grande bem-hajam a todas as mães que tiveram filhos no Ultramar, mesmo às que já partiram, como a minha.

ENTRE NAMORADAS E NETOS

Depois de regressar em 1969 da Guiné, onde esteve na Companhia de Comando e Serviços do Batalhão de Caçadores 1932, Dinis Frade trabalhou como motorista de pesados durante 29 anos. Neste momento está em situação de pré-reforma, depois de ter ficado viúvo há seis meses. Tem dois filhos e uma filha, todos casados. O ex-combatente não perde um encontro do seu batalhão, porque ficou 'marcado pela união e amizade que se criou'. 'Na tropa falávamos de namoradas. Agora falamos dos netos', diz Dinis Frade, comparando as voltas que a vida dá. 

PERFIL

Nome: Dinis Frade

Comissão: Guiné (1967/69)

Força: Batalhão de Caçadores 1932

Actualidade: Hoje, aos 61 anos, em Amiais de Baixo

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