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Correio da Manhã

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Uma paixão surpreendente

Ela tem um segredo que não lhe conta. Porém, esse segredo impede-a de continuar com ele e, assim, contra toda a certeza do seu instinto, abandona-o miseravelmente com a alma num pranto.
13 de Outubro de 2013 às 15:00
Tiago Rebelo, crónica, Breves histórias
Tiago Rebelo, crónica, Breves histórias

Escorraça-o sem um pingo de piedade, sem um sinal de compaixão. Diz-lhe que não o ama, não o quer, que a deixe de uma vez. Ofende-o com a insensibilidade que desmente os seus verdadeiros sentimentos, contraria tudo o que o deixou pensar na última semana de arrebatamento, vira costas e afasta-se, entra no comboio que a levará a casa, senta-se à janela com uma primeira lágrima a escorrer-lhe pelo rosto. Ele fica no início do cais, incrédulo, a vê-la subir para a carruagem. Ela não se atreve a espreitar por cima do ombro, receando não se conter e saltar do comboio e correr para os seus braços. Ele espera pelos primeiros solavancos tímidos dos vagões, enfia as mãos resignadas nos bolsos do casaco e retira-
-se, enfim, indo em direcção à saída da estação.

Ela tem algumas horas de viagem para se recompor. Limpa os olhos marejados de uma mágoa surpreendente. Pergunta-se como foi possível apaixonar-se em cinco dias. Era só uma semana de trabalho bastante atarefada, reuniões e debates num agradável hotel à beira-mar. Sabe que foi irresponsável, que se deixou ir sem pensar. Sabe que não devia ter dado aquele passeio pela praia, que não devia ter ficado a conversar com ele à lareira, na sala, nem, finalmente, ter subido ao quarto na sua companhia.

Pensa no marido, na filha pequena, diz a si própria que tudo não passou de um desvario, de um deslize que vai calar fundo e jamais se repetirá. Sente-se aliviada por não lhe ter contado que era casada e por não lhe ter dado nenhum contacto pessoal. Procura convencer-se de que voltará à sua rotina normal e esquecer. No entanto, já vai no fim da viagem e continua a não encontrar uma explicação razoável para o sentimento tão forte que teve por ele, que tem, como nunca teve por ninguém. Não o verá mais, supõe, fora de questão, não pode, mas parece-lhe tremendamente injusto que seja assim.

Tiago Rebelo crónica Breves histórias
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