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Correio da Manhã

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Uma questão de exigência

Como já aqui contei, a Carolina entrou este ano para o Instituto Gregoriano, uma escola pública dedicada ao ensino da música, com admissão bastante apertada e que cultiva uma exigência e um profissionalismo a que não estamos habituados.
21 de Abril de 2013 às 15:00
João Miguel Tavares, os homens precisam de mimo
João Miguel Tavares, os homens precisam de mimo FOTO: Jocé Carlos Fernandes

O resultado é um grupo de alunos disciplinados e que anda sempre na linha. Quando há um par de meses cometi o terrível erro de chegar atrasado a um ensaio de coro, levei um raspanete da maestrina como se fosse um puto de 10 anos: "Você devia ter chegado há 30 minutos e eu só não mando a sua filha embora porque ela não tem culpa nenhuma. Mas isto não volta a acontecer!" Eu ainda tentei balbuciar qualquer coisa, procurando desculpar-me com o número de filhos (costuma ser um argumento imbatível), mas logo por sorte ou por azar a senhora tinha tantos filhos quanto eu (lá se foi o argumento imbatível). E olhem que os miúdos ainda estavam à porta da sala de concertos, todos alinhadinhos como na tropa. O ensaio propriamente dito nem sequer tinha começado. Acho que para aí desde os meus saudosos tempos da primária que não levava nas orelhas daquela maneira. Mas a verdade é que resultou: um raio me fulmine se algum dia volto a chegar atrasado.

Embora a sede do Instituto fique em Entrecampos, em termos de rigor educativo poderia ficar em Munique, Salzburgo ou Moscovo. O resultado disso vê-se imediatamente na velocidade de progressão dos miúdos. Entre aulas de piano, coro e formação musical, a Carolina tem cerca de três horas de Instituto por semana. Três pequeníssimas horas. Está certo que depois tem a obrigação de estudar em casa, mas não deixa de ser impressionante como tão pouco tempo consegue produzir resultados tão eficazes. E tudo isto por causa de uma única palavra: exigência.

Ora, é terrível comparar isso com a escola pública e as famosas atividades extracurriculares (AEC, para os amigos), onde os miúdos passam muito mais do que três horas por semana, boa parte em "atividades lúdico-expressivas" (ALE, para os amigos). Quais os resultados desse esforço educativo? Aproximadamente zero. E é por isso que a comparação com o Gregoriano é descorçoante: imaginem os milagres que poderiam acontecer nas tardes escolares se houvesse rigor, exigência, disciplina e meios. E, sobretudo, se houvesse uma filosofia de trabalho que apagasse aquele malfadado hífen que une o lúdico ao expressivo. lD

João Miguel Tavares os homens precisam de mimo
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