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Correio da Manhã

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Uma vida a duas velocidades

Um dia descobrem que são capazes de tudo, que têm uma força, uma energia fora do comum. Sentem-se o Todo Poderoso e fazem as maiores loucuras. Mas estão à beira do poço, da depressão profunda. São doentes bipolares.
8 de Abril de 2007 às 00:00
Uma vida a duas velocidades
Uma vida a duas velocidades FOTO: João Miguel Rodrigues
Isola-se e estoira 25 mil euros em hotéis de luxo, na Bolsa, em roupa, em jantares fora. Com uma sexualidade intensa, sozinha em Lisboa. Sem ninguém. A 200 km/h na estrada. Compra e ouve música, devora livros “à velocidade da luz”, lê cinco em dois dias. Desliga do Mundo, revoltada, o telemóvel tem número novo. “Eles não me aceitam mas sou assim”, activa e genial. E “morrem de inveja”. Fugiu do hospital nem há duas semanas, perde-se no tempo mas “é quase uma vida”, para trás deixou o casamento em cinzas e toda a família enjeitada. “Porquê dormir sem sono? E para quê os médicos quando se está tão feliz? A criar e a produzir como nunca?” Marta ainda não acredita mas foi internada por ser bipolar, aos 25 anos, e o auge da euforia vai conduzi-la à mais profunda depressão. É uma viagem do céu ao inferno. Num mês. E a jornalista é só uma entre os 120 mil portugueses que, mais dia menos dia, se vão revelar maníaco-depressivos.
Os números são da Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares (ADEB) – e apontam para “cerca de dois por cento da população adulta”, alerta o presidente Delfim Oliveira, que no nosso país ronda os seis milhões. É uma doença que vive décadas camuflada entre gente “insuspeita e saudável”, traiçoeira e que não escolhe sexos ou idades para atacar. Maria sempre foi “uma miúda activa mas perfeitamente normal”, tendo concluído o 4.º ano de Sociologia e já como estagiária num jornal. E os primeiros sintomas são “a diminuição da necessidade de dormir”, adianta o psiquiatra interno no Hospital de São Francisco Xavier, Amílcar dos Santos, seguidos de “mais energia, aceleração do raciocínio e aumento da capacidade de trabalho”. Tudo isto sem recurso a drogas.
Sem noção da doença, Marta sente--se por estes dias “melhor do que nunca”, com grande actividade física e cerebral, “Deus Todo Poderoso, tocada por uma varinha mágica ou pelo dedo do ET”. A garra e criatividade não têm limites na redacção, elogiada por chefes e obstinada pelo sucesso no projecto on-line do jornal. Retoma o final do curso, chega a assistente de um professor em Sociedade da Informação – e sobra-lhe tempo para uma generosidade excessiva, capaz de ajudar todos à sua volta. É omnipresente. “A mania é um período de quinze dias em euforia, com a pessoa sempre satisfeita, mas a concepção do tempo e do espaço está completamente alterada”, descreve a jornalista.
COMO LIDAR COM A REALIDADE?
Três a quatro horas de sono por noite chegam “até se atingir o pico”, um ‘boom’ que a leva ao exagero. A vida fora do jornal entra em espiral e acaba internada. Sem antecedentes. Marta só entra pelas Urgências à força e o diagnóstico não falha. Os médicos são “incompetentes” e a família só lhe quer “anular a personalidade”. Não está maluca. Foge passados três dias e o jornal é o único refúgio, mas também aí já só encontra conflitos. E acaba de entrar em hipomania – o grau máximo da euforia.
Está orgulhosamente só, de costas voltadas para o Mundo. Mas não deixa de ser feliz e genial. Quer agora demonstrá-lo entre as melhores lojas, hotéis e restaurantes da capital, uma vida na alta-roda por conta das jogadas na Bolsa que cada vez a afundam mais. Sozinha. Não sabe mas passam 15 dias até que o dinheiro acaba e sente-se a quebrar. Começa a ouvir vozes e volta para casa. Já está separada. E agora deprimida. Fecha-se sobre si própria mas nem assim aceita a doença. São agora dois meses sem noção do tempo, do espaço, sem conseguir andar na rua. Ouve vozes. Por isso, refugia-se no carro, ali sabe que não está ninguém. “Só com a música corto o som das crianças que riem e fazem comentários depreciativos”.
Por fim, aceita e já precisa de ajuda – os cinco anos seguintes foram de internamentos e oscilações. “Sempre achei que sozinha conseguia equilibrar-me. Sem medicamentos. E as pessoas são cruéis e ignorantes, acham que tudo se trata com força de vontade. A sociedade é muito...” Quando estava em alta “queria era brilhar”, que a deixassem. E só aceitava a doença na fase depressiva, em queda. “Agora sinto que estou numa estrada, entre duas faixas. Tomo dois medicamentos diários para controlar a euforia e a depressão”. Os medicamentos “são estabilizadores do humor”, à base de lítio ou valproato de sódio, químicos que “actuam ao nível dos neurónios, permitindo a sua estabilização”, explica o médico. SEM CONTROLO
Em Janeiro último diz ter ganho plena consciência da doença. Perdeu mais um bom emprego, porque, até então, “estava em fase mista, com oscilações muito rápidas. Ria e chorava quase ao mesmo tempo: a uma piada ria, a seguir chorava”, sem controlo das emoções. Agora está em fase de adaptação, a reconstruir a vida com o apoio da família. “Mas a sociedade não sabe lidar connosco”, lamenta, “não está sensibilizada para as doenças mentais”. Os quatro medicamentos diários são estabilizadores de humor – Marta quer ainda fazer psicoterapia. No último internamento recebeu “uma brochura da ADEB”, onde se deverá apoiar nos próximos tempos. E vai manter as “consultas regulares”. Marta, hoje com 32 anos, sofre de bipolaridade tipo 1, “de maiores oscilações”, segundo o médico. Só aceitou uma consulta médica já na fase descendente, que a leva aos anti-depressivos e volta à mania.
AOS 23
Luís Martins subiu a um sétimo andar em Coimbra e, movido pela fé, gritou a plenos pulmões que era Deus. Não passou desse dia e foi internado à primeira manifestação. Tinha 23 anos e, passada uma década, recorda “o forte cheiro a incenso” que sentiu naquele momento, “notava-se um certo misticismo no ar”. Acredita que a forte relação que mantém com Deus “foi decisiva, depois de ter sido atraído a uma falsa aparição de Nossa Senhora ao Escorial”, perto de Madrid. Ficou perturbado e diz ter associado o facto ao ‘Génesis’, “onde diz que a mulher esmigalhará a cabeça da serpente”. E a “derrota do Satanás” iria dar-se através de Luís.
A memória não ajuda, mas, já em pleno hospital, o ajoelhar aos pés da mãe a implorar que o tirasse dali é uma imagem que marca para o resto da vida. “Só pensava em Deus e não tive consciência da doença. Entreguei-me de corpo e alma à Igreja e passava os dias a rezar, a ler livros místicos”. Era lá que estava a salvação e tudo o resto era mundano, “sem interesse”. Pensou no sacerdócio mas matriculou--se em Engenharia Informática, “apesar de nunca ter conseguido lá ir”. Saiu de Coimbra e foi morar para Lisboa, é lá que a mãe lhe gere as injecções e comprimidos desde 1997. Ao todo já teve oito crises, a última em Maio do ano passado. Todas de euforia e sempre seguidas de depressão – sendo a primeira fase “mais dolorosa”, porque são “incompreendidos”. Sentem-se bem, apesar de a opinião dos outros lhes ser “indiferente”.
As crises são graduais, “com um pique de dois a três dias muito acelerados”. Daí Luís já se ter despido em pleno Centro Cultural de Belém, “completamente nu na esplanada”, e ultrapassado uma patrulha da Brigada de Trânsito pela direita “a dizer-lhes adeus”. São alturas em que “a líbido aumenta e o comportamento sexual se torna exagerado”. É mais forte do que ele. Por isso, provocou distúrbios em casas de strip e de alterne, levando-o a confessar-se nos dias seguintes. “É superior a mim, mas Deus nessas alturas deve fechar os olhos”. Sabe que as crises coincidem com o deixar de tomar os medicamentos – revoltado, já deitou os comprimidos diários para o lixo. Não gosta “desta obrigação” para a vida, mas agora “é para cumprir”. As manhãs são mais difíceis, custa-lhe acordar porque “o ritmo biológico é prejudicado pela medicação”, mas consegue produzir à tarde e de noite.
HÁ 35 ANOS
Leonor Craveiro, hoje com 50 anos, teve a primeira crise há 15, no ano em que nasceu a sua filha. “Não dizia coisa com coisa, tinha gastos excessivos, fora do orçamento familiar”, até que confessou a uma vizinha não se sentir bem. À primeira consulta ficou internada e garante nunca ter sentido depressão, “sempre euforia”. Dormia pouco e escrevia muito, “até frases com lógica – pensamentos. Sentia enorme inspiração”. Algo estava a mudar em si “mas era bom” e assim queria ficar.
É acompanhada desde então mas já falhou os medicamentos, “por relapso, e é sempre nessas alturas que aparecem as crises”, confessa.
Vai ao hospital, fica duas semanas internada e regressa a casa. E a última vez foi há um ano, saía de casa de madrugada, em Oeiras, e dava passeios de horas a pé, ao frio. “Só dizia disparates, comprava roupa desalmadamente aos ciganos, comia fora, contraía dívidas”. Mas quando saía do hospital “pagava sempre”, embora o ordenado na Santa Casa da Misericórdia “seja pequeno”. Ao todo foram quatro crises – e recorda a última em que foi agressiva para as enfermeiras. “Tinha a mania de que andavam umas raparigas loiras a vender droga aqui no bairro e, como também elas eram loiras, agredi-as”. Estava convencida de que eram do mesmo gang.
Marta, Luís e Leonor têm em comum duas estações do ano, a Primavera e Verão, épocas em que normalmente os bipolares entram em descompensação, embora a medicina ainda não explique porquê. Tal como não explica a doença em si, apesar de descartar “qualquer influência afectiva” e de já se saber que “há uma predisposição genética”, adianta o psiquiatra Amílcar Santos. Mas as causas exactas são até hoje desconhecidas.
MANUAL DE AJUDA
O QUE É A DOENÇA BIPOLAR?
A Doença Bipolar, ou Doença Maníaco-Depressiva, é caracterizada por variações acentuadas do estado de ânimo, com crises repetidas de depressão e mania, atingindo uma em cada cem pessoas, em qualquer altura das suas vidas. Atinge ambos os sexos, qualquer idade e classe social. No caso das mulheres pode começar após o parto e/ou durante a menopausa. Tendência genética, perturbações bioquímicas no cérebro e mudanças hormonais são factores a ter conta. Mas a doença é imprevisível, sendo vivida por diferentes pessoas de formas muito distintas.
SINTOMAS DA MANIA (EUFORIA):
O principal sintoma de mania é um estado de humor elevado e expansivo, eufórico ou irritável. Nas fases iniciais da crise a pessoa pode sentir-se mais alegre, sociável, activa, faladora, autoconfiante, inteligente e criativa. A mania provoca elevação do estado de ânimo; excitação/hiperactividade; pensamentos rápidos e desadequados; fazer compras excessivas ou desnecessárias; diminuição da necessidade de dormir; dificuldades de concentração, desinibição; delírios.
SINTOMAS DE DEPRESSÃO:
Baixa do estado de ânimo; cansaço e diminuição das actividades; padrões de sono alterados; excesso ou falta de apetite; ansiedade; lentificação do pensamento e dificuldade em tomar decisões; sentimentos de autodesvalorização, de desespero e de culpa. Tal como na mania, pode haver rupturas coma realidade e o aparecimento de ideias delirantes.
ASSOCIAÇÃO DE APOIO AOS BIPOLARES:
Nasceu em 1991 e tem 2900 associados. Recebe “centenas de pessoas por ano”, adianta o presidente Delfim Oliveira. “Fazemos reabilitação psicossocial, SOS telefónico e criamos grupos psico-educativos, de auto-ajuda”. O quadro de pessoal conta com seis psicólogos, entre as delegações do Norte, Centro, Sul e o núcleo do Alentejo. Tem página na internet e pode ser consultada em www.adeb.pt
OUTROS BIPOLARES
- DOENTES QUE FIZERAM (OU FAZEM) HISTÓRIA
ERNEST HEMINGWAY
Escritor americano (1899/1961) foi correspondente durante a Guerra Civil Espanhola, o que lhe marcou a obra literária. Exemplo: ‘Por quem os sinos dobram’.
PETER GABRIEL
O músico inglês nascido em 1950 começou na banda de rock progressivo Genesis. Em meados da década de 70, lançou-se numa carreira a solo. O sucesso virá com o álbum ‘So’.
JIM CAREY
Celebrizou-se no cinema com a personagem de
BD Ace Ventura, mas foi Trumam Show que lhe trouxe notoriedade. O actor e humorista Carey nasceu em 1962, no Canadá.
ABEL SALAZAR
Cientista, pedagogo, artista, prosador e profundamente democrata. Por isso, foi perseguido pelo regime. Abel Salazar (1889/1946) nasceu em Guimarães mas viveu em Matosinhos.
ANTERO DE QUENTAL
Nasce em Ponta Delgada (1842) e faz Direito, mas é na escrita que se distingue. Orienta as Conferências do Casino. Pertence ao grupo Vencidos da Vida. Suicida-se em 1891 com dois tiros.
FRANCIS FORD COPPOLA
Nasceu em Detroit em 1939 e é um realizador de culto norte-americano, autor de filmes como ‘O Padrinho’ (o inicial e mais duas sequelas) e de ‘Apocalypse Now’, com Marlon Brando).
EDGAR ALLAN POE
Filho de um casal de actores, Poe (1809/1849) celebrizou-se nas letras, sobretudo com os seus contos de terror psicológico. Foi encontrado na rua, à beira da morte.
FLORBELA ESPANCA
Nasceu em Vila Viçosa (1894). Publicou ‘Livro de Mágoas’ e ‘Livro de Soror Saudade’. Suicida-se em 1931, depois do desgosto pela morte do irmão. A maioria da obra saiu depois da sua morte.
MÁRIO DE SÁ CARNEIRO
asceu em Lisboa em 1890. E acabou os seus dias em Paris. Suicidou-se em 1912. Mário de Sá Carneiro foi poeta, contista, ficcionista e um dos maiores do Modernismo português.
STING
Gordon Mathew Sumner (1951) apareceu nos palcos com o nome Sting, como baixista e vocalista da extinta banda inglesa The Police. Estreou-se a solo em 1985, somando êxitos.
TED TURNER
O fundador da CNN, Ted Turner, transformou-se no magnata da comunicação por excelência. Nascido em 1938, no Ohio (EUA), o empresário foi notícia por ter casado com Jane Fonda.
TOLSTOY
Escreveu ‘Guerra e Paz’. Leo Tolstoy (1828/1910) distinguiu-se pelas suas histórias épicas que descreviam a vida na Rússia. Foi marcante na sociedade do seu tempo.
VICTOR HUGO
O autor de ‘Os Miseráveis’, nasceu em Besançon (1802) e morreu em Paris em 1885. Ao longo da vida, os seus interesses oscilaram entre a literatura, a filosofia, a política e a religião.
VIRGINA WOOLF
Nasceu em 1915, suicidou-se em 1941, depois de uma vida atormentada pela sua doença. Mas ainda teve tempo de escrever algumas das páginas mais belas da literatura contemporânea.
- Fonte: Associação de Apoio aos Bipolares
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