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Uma vida dentro da morte

Perante o corpo morto, Cristina Mendonça, médica de Medicina Legal, cumpre o exame que vai ajudá-la a ajudar a Justiça e os que cá ficam para fazer o luto.
22 de Outubro de 2006 às 00:00
A vida terminou em cima de uma moto, contra uma parede de cimento. O corpo de 24 anos deita-se numa bancada de inox no Gabinete Médico Legal da Figueira da Foz. Cristina Mendonça faz-lhe a autópsia. Como os pilotos, a médica cumpre uma ‘check-list’: primeiro o exame do hábito externo para identificação antropológica da pessoa, as suas características e a roupa que vestia; depois, o exame do hábito interno com abertura das cavidades craniana, torácica e abdominal, exame dos órgãos e sua bissecação, após o que voltam a ser colocados no interior do corpo. É a Medicina ao serviço da Justiça e dos que cá ficam para fazer o luto e contar a história. O médico intervém no fim da linha. A sala de tanatologia é um filme de argumento duro que não pode ser visto em séries de TV, mesmo que sejam CSI ou Sete Palmos de Terra.
Cristina Mendonça atravessa todos os dias a ponte sobre o Mondego. Por vezes deixa o pé calcar o acelerador, peso incauto que atira o carro mais adiante e a põe em meia hora no sítio onde trabalha, junto à Praia do Hospital. Nome pouco veraneante para a extensão de areia mas que tem justificação na unidade hospitalar sobre a duna. É o hospital com melhor vista. Ao lado, o Gabinete de Medicina Legal da Figueira da Foz que a médica chefia. O seu quotidiano é violento. Lida com o lado obscuro do ser humano, ao abrigo do Direito Penal, nos exames de avaliação de dano que faz em vítimas de agressões, maus tratos ou abusos sexuais. Lida com as partidas da estrada, no âmbito do Direito Civil, em acidentes de viação. E com o azar do trabalhador a pedido dos Tribunais de Trabalho.
Lida com a vida quando esta é uma recordação, nas autópsias feitas sempre a pedido do Ministério Público nos mortos por causas indeterminadas ou cujo falecimento carece de investigação. “Tudo é efémero. Quando temos pena dos que morrem, não é deles que temos pena, é de nós. É a nossa morte que nos assusta. Trabalhar com a morte dá uma maneira diferente de encarar a vida.”
Na bancada de inox, o corpo de 24 anos antes aberto, retorna à forma composta do cadáver – inútil, triste. É cosido. Cristina Mendonça larga a prancha dos apontamentos, onde rabiscou no croqui da figura humana as peculiaridades deste morto, uma informação para o Ministério Público. Tira as luvas de látex.
A médica já viu as valas comuns do ódio da guerra dos Balcãs e a impotência humana ante a fúria do tsunami no Sudeste Asiático. Ante aquele corpo jovem, que em vida nenhuma doença tão cedo mataria, desalenta-se. Não há morte mais vazia que aquela: “É uma pessoa que não devia ter morrido.”
Um gabinete de medicina legal é a babilónia humana. Os acidentes estúpidos como o do jovem na bancada de inox, as fraquezas e as mais terríveis peculiaridades do Homem convivem ali. “Qualquer especialidade médica trata com pessoas em perspectivas muito variadas mas esta trata com uma parte muito humana: a violência que condiciona comportamentos. Não com uma atitude médica mas pericial, por forma a transmitir informação aos juristas para que estes possam fazer justiça.”
Na sala de tanatologia, o objectivo das autópsias é apurar a causa da morte. Nem sempre. Num indivíduo baleado, por exemplo, sabe-se como morreu mas não se sabe se o disparo foi ou não acidental, nem se foi perpetrado pelo próprio ou por outrem. A distância do disparo, a trajectória, a arma utilizada são incógnitas cuja solução através da perícia médico-legal permite saber se foi suicídio ou homicídio.
Nas outras salas, as de clínica médico-legal, esta característica de investigação em que o médico é um Perry Mason do corpo morto já não se verifica. Ali contacta-se com a vida que foi desviada do seu curso. Como um rio que estanca perante o dique da violência e depois segue. “As pessoas chegam-nos com as suas lesões mas o médico não está aqui para tratar mas sim para fazer a avaliação do dano e fornecer dados para que a justiça decida como tratar a vítima e o agressor.”
Na avaliação do dano, no âmbito do Direito Civil, nem sempre o que a pessoa diz é a verdade sobre aquilo que sofreu. “Não somos infalíveis mas há maneiras de detectar. Em quem apresenta uma cronologia de lesões, temos maneira de apurar através de exame se esta corresponde à verdade. Podemos também pedir exame psiquiátrico.”
Às vezes, nada disso é preciso. Ali como na vida cá fora basta o silêncio do bom senso perante um ‘Chico esperto’ falador. Cristina Mendonça lembra o sujeito que para obter uma indemnização alegava que um traumatismo craniano lhe tirara o sentido do olfacto. “Eu gosto muito de café e entretanto, chegou um dos muitos que tomo por dia. O sujeito disse: ‘ai que cheirinho a café’ e não precisou de dizer mais nada...”
Homens com dúvidas sobre a paternidade de menores, mulheres violadas, crianças maltratadas entram por aquela como noutra porta da rede de gabinetes de medicina legal do País. Nos maus tratos a menores, as queixas vêm de professores, de parentes e progenitores. A criança, objecto frágil de investigação, chega a ir mais do que uma vez ao gabinete de Medicina Legal quando a urgência do exame não tem de fazer abdicar da sensibilidade. Ou seja, a entrevista pode ser adiada mas a recolha de material biológico como sangue ou saliva não.
Muitos dos exames a menores são requeridos por pais em batalha legal de divórcio. Tentam juntar ao processo elementos que indiquem que o joguete de baixa estatura que é o filho, é mais de um que doutro. “Tivemos aqui uma criança quatro vezes seguidas. Quando passa o fim-de-semana com o pai, é a mãe que desencadeia em tribunal o exame por supostos maus tratos. Quando passa aqueles dois dias com ela, é o pai que o faz.”
Cristina Mendonça está sentada na sua secretária da Figueira da Foz. Parece ainda mais pequena do que na realidade é. Tem os óculos a descer pelo nariz e mantê-los-á assim durante a autópsia. Parece um político ante o discurso escrito, uma costureira que segue o percurso da máquina na costura.
Tem 49 anos. A caminhada para médica começou na formação na Universidade Complutense de Madrid, numa altura em que o Processo Revolucionário em Curso (PREC) não se compadecia com perfeições lectivas em Portugal. Nunca se interrogou porque escolheu Medicina Legal. Nunca ligou aos poucos que a questionaram porque é que uma mulher jovem escolhe lidar com os mortos, em vez de curar os vivos.
A melhor explicação que encontra reside no contacto com outra mulher, espanhola, quando era aluna de nota “sobressaliente” no curso de medicina madrileno. Foi ‘aquela’ professora que lhe deu “uma visão despreconceituosa” da medicina legal. E agora também ela é professora. Primeiro na universidade do Porto, agora em Coimbra. “A medicina legal é uma disciplina de Medicina e de Direito, obviamente explicada num e noutro curso de forma diferente. No Direito, quando a parte prática é obrigatória, costuma ser para muitos um frete e já tive alunos que entraram e saíram de costas. Também já ouvi muita pergunta disparatada. Como quando se abre o tórax e se mostram os pulmões e a dúvida é se o morto fumava ou não. Ora não se vê tal coisa!”
No regresso a Portugal, Cristina Mendonça ainda manteve um consultório de “medicina normal”, a que cura. Hoje detesta que digam que a especialidade que escolheu a faz uma médica diferente dos outros, os cardiologistas, os ginecologistas, os de clínica geral. Diferente só no sentido em que se “entende o corpo humano como um todo”.
E, no entanto, tantos anos depois de se ter formado, ainda se efabula acerca da sua profissão, ainda se pensa que a sala de tanatologia é pouco menos que um circo de monstruosidades. “Para muitos, a Medicina Legal é coisa de carniceiro. Acha-se que quando se faz a bissecação não tornamos a pôr os órgãos no interior do corpo e coisas tolas do género.”
Este preconceito tinha a forma de boato quando a médica trabalhou no Instituto de Medicina Legal do Porto, instalado num quarteirão onde está também o quartel da GNR e as cavalariças. Durante anos, um camião estacionava no largo comum às duas instituições para descarregar palha. “Corria que era para encher os corpos autopsiados. É claro que era para dar de comer aos cavalos.”
A médica sorri com a memória da história. É o mesmo sentido de humor que a faz largar ditos jocosos quando trabalha, mesmo que saiba que os alunos que assistem às autópsias nem sempre compreendem como se pode gracejar perante a morte. “Não podemos trabalhar com cara de funeral. É um trabalho diário, temos de acautelar a nossa saúde mental.”
Competência e cabeça fria. Mais estômago valente: “Quem é profissional chora depois. Quando se está a trabalhar, está--se a trabalhar. Uma vez tive uma situação de desastre numa zona fechada, muito envolvida na ocorrência. Precisei de contactar com a delegada do Ministério Público e a senhora estava histérica. Era muito amiga de uma das vítimas. Disse-lhe que precisava dela como profissional, que ela tinha de se recompor e muito rápido.”
À aspereza, que contrasta com o humor com que enfrenta a bancada de inox em tanatologia, junta ainda uma espécie de coração mole ao ralantim. “Não estou empedernida e é bom sinal. Ainda me impressiono e não só com os mortos que por mim passam, com os vivos também. O lado afectivo continuo a tê-lo mas quando estou sozinha.”
Por isso, em casa não fala de trabalho. E estão todos, o marido e o filho, a isso habituados. Só certa vez, uma vítima de um acidente de trabalho – “um caso perfeitamente indescritível” – a fez soltar da soleira da porta para dentro uma exclamação em desuso: caramba!
Depois do horror que lhe provoca essa memória de que prefere não falar, só dois temas de conversa podem animar a fisionomia por detrás dos óculos que lhe marcam o nariz. As suas missões internacionais que a puseram ao serviço da Medicina Legal em sítios como o Kosovo para formar gente. A levaram a São Tomé e Príncipe para autopsiar um detido morto na prisão, rodeada por homens com kalashnikovs. A enviaram ao México e a Timor por causa de homicídios ou à Tailândia quando o tsunami por lá passou.
O outro tema que a anima é o filho. Tem 24 anos e nunca quis ser médico. Fez bioquímica. “Ele começou a acompanhar-me ao instituto com quatro anos. Tinha-o num ATL que o ia lá buscar e levar. Não gostava que visse quando tiravam os cadáveres mas não o podia evitar. Às vezes, um deles ficava com o pé de fora. Uma vez fugiu-me e enfiou-se no instituto, depois veio dizer--me: Mamã, vi os dois pés, não custa nada.” Depois, mais tarde, a professora chamou-a à escola para lhe comunicar que o seu menino, então com oito anos, não queria ser médico como a mãe porque “ela via muitos mortos”. “Disse: não se preocupe com isso, ele sabe o que eu faço e o que vejo.” Cristina Mendonça, mãe, nunca precisou de responder a essa terrível pergunta infantil sobre o significado da morte, em tudo muito mais difícil que aquela outra sobre como se fazem os bebés.
“Vamos senhor António?!” O perito que a vai ajudar na autópsia, espreita impaciente pela porta do escritório entreaberta (a médica não gosta de portas fechadas). Naquele dia há duas autópsias, a do corpo de um velho morto por afogamento e a do rapaz de corpo impoluto, protegido pela juventude que um acidente estúpido roubou.
“Tenho a perfeita noção que hei-de morrer um dia.” A frase de Cristina Mendonça, muito mais terrível do que o filme que se vai seguir, ainda baila quando eles iniciam a autópsia na sala de tanatologia, onde ecoam palavras e o ‘tzzzzz’ esganiçado da serra eléctrica que abre o crânio. “Eu saio daqui e não sei se fico na estrada, já vi coisas tão terríveis!... É por isso que acho que a simplicidade é a melhor forma de encarar a vida. É certo que há situações complicadas mas existe sempre ao longe um farol. O pior é o irremediável. E o irremediável é a morte”, tinha dito antes de começar.
AJUDAR A FAZER O LUTO
DE CASTELO DE PAIVA, À TAILÂNDIA E AO MÉXICO
No rescaldo da tragédia de Castelo de Paiva foi criada uma equipa de intervenção em desastres de massa coordenada por Cristina Mendonça. “Infelizmente, as autópsias foram muito poucas. Numa morte quando há corpo, a perda é assumida: morreu, está ali. No desaparecimento, instala-se uma dúvida que dificulta o luto.” Esta equipa e a sua coordenadora estiveram depois no rescaldo do tsunami no sudeste asiático em 2004. No terreno, além das funções de médica, Cristina Mendonça fazia o atendimento das autoridades locais, das missões diplomáticas e da comunicação social. “Tivemos de fazer uma janela de atendimento aos jornalistas. O assédio era muito grande.”
Nos palcos internacionais, sozinha, Cristina Mendonça esteve pela primeira vez no México, integrada numa ONG argentina. Lá colaborou na redacção do manual de pesquisa de investigação forense para vítimas de violação de direitos humanos. “Entretanto, já lá estive várias vezes a pedido de outras organizações não governamentais, nomeadamente em situações de crimes em Ciudad Juarez.” Na fronteira com os EUA, muitas mulheres desaparecem sem deixar rasto. A maioria emigrou em busca de trabalho nas fábricas norte-americanas que ali abriram à conta da mão-de-obra barata. Os corpos das desaparecidas acabam por ser encontrados no deserto. “As famílias já nem querem saber quem as matou, querem apenas ter a certeza de que os restos mortais são os da filha ou os da mulher.” Tem colaborado no levantamento dos processos, na notificação das famílias e nas exumações.
MISSÃO EM TIMOR
O CORPO DE MAGGIOLO
Cerca de trinta anos depois de ter sido fuzilado pela Fretilin, a 7 de Dezembro de 1975, Maggiolo Gouveia foi a enterrar em Mação. Na guerra civil, o tenente-coronel e comandante da PSP em Timor juntou-se à UDT. Foi morto e enterrado numa vala comum. Cristina Mendonça, um outro médico legista e o filho de Maggiolo, também médico, foram em 2003 a Timor para trazer os seus restos mortais. “Remexer naquilo foi muito complicado. A história é ainda sensível”, conta a médica. A equipa analisou vários corpos até identificar o português. Depois voltaram a enterrá-los. “Nem sequer àqueles que tínhamos analisado aceitaram que se fizesse algo. E eram todos mortos da mesma noite.”
DEPOIS DA GUERRA TRATAR DA MORTE
FORMAR GENTE NO KOSOVO
Quando o Kosovo ficou sob administração das Nações Unidas, não havia ninguém para fazer o trabalho forense. Para a ONU, que sai do território no próximo ano, era urgente formar para tratar dos mortos. “Ali, a tanatologia para a morte violenta é muito importante. Há muitos homicídios com armamento que ficou da guerra e que agora circula entre a população”. Cristina Mendonça adaptou a pós-graduação portuguesa àquela realidade e assim formam-se peritos legistas.
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