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Correio da Manhã

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Uma vida suspensa

José Luís d’Orey vestiu o fato, despediu-se da mulher, em Azeitão, e levou as filhas à escola, antes de ir trabalhar. Foi há duas semanas. Um sinal do telemóvel no Montijo é a única pista.
22 de Outubro de 2006 às 00:00
O rio de lama corre por entre as pedras do largo e desce pelos trilhos de terra até à zona rural da aldeia. Adelina segue o ciclo da água rente às silvas e aponta a triste casa branca à sua direita, coberta pelas folhas das árvores e talvez a maior na pacata Piedade, com a Serra da Arrábida em pano de fundo. As chuvas de Outono “estão para ficar” e espelham o clima no Monte dos Barris – uma ilustre família ensombrada pelo misterioso sumir de José Luís d’Orey, fechada em copas às ordens da Polícia Judiciária. Foi ali que alguns vizinhos viram nascer “a menina Marina”, 45 anos, mas estão confusos com “tudo o que se tem dito” do marido. “Boa pessoa” e “sempre dedicado” aos cinco filhos, ainda acreditam que, quase 15 dias depois de ter sido visto a deixar Azeitão, “só algo de muito grave lhe pode ter acontecido”. O único sinal de vida chegou pelo GPS do seu telemóvel e apontava para a zona do Montijo.
As reuniões de família sucedem-se à porta fechada e, como “em todos os casos de desaparecidos”, há indicações para que nada seja dito fora de casa, adianta à Domingo fonte ligada à investigação. O núcleo é restrito e só está aberto a amigos de excepção. Os inspectores da PJ deixam tudo em aberto e mantêm vários telefones sob escuta, para o caso de algum contacto ser estabelecido. Escasseiam as pistas e a hipótese de rapto começa a ser afastada – ao fim de duas semanas não há pedido de resgate à família d’Orey. Apenas informações contraditórias e “sem sentido”, nos muitos telefonemas anónimos que chegam à PJ de Setúbal, desde que foi lançado um pedido de colaboração na Internet.
Resta a convicção de que, sem corpo nem carro, José Luís d’Orey, 48 anos, estará vivo e rumou a Sul – “as imagens das portagens” nas pontes 25 de Abril e Vasco da Gama foram passadas a pente fino. E o GPS do seu telemóvel que, segundo fonte próxima da família, “ainda emitiu um sinal” no primeiro dia, tendo sido possível “localizá-lo na zona do Montijo”. José Luís tinha como principal ‘hobbie’ a caça e activava muitas vezes o dispositivo “com medo de se sentir mal”. Segunda-feira, dia 9, o aparelho foi desligado ao final da manhã e todas as comunicações fechadas sem deixar rasto.
O desaparecido é há três anos gestor de unidade na ITAU, empresa de restauração do grupo Trivalor, com sede em Alfragide, Amadora, e responsável pela administração financeira de vários refeitórios. Tinha consigo “não mais do que dois mil euros” da empresa, garante o irmão Rui, e era esperado às 09h00 para uma reunião nos escritórios da Avenida da República, Lisboa. Nunca apareceu. Acordou cedo e, impecavelmente vestido de fato e gravata, como era seu hábito, despediu-se da mulher, Marina, para ir trabalhar. Saiu ao volante da sua carrinha de serviço, Renault Scénic cinzenta (matrícula 15-BG-35), e levou as duas filhas às aulas. Teresa, 12 anos, ficou na Escola de Azeitão e, por último, o pai deixou a pequena Pureza, cinco anos, no Colégio da Arrábida, dentro da Quinta do Chão Duro. E foi ali que, às 08h00, a três quilómetros de casa, na Aldeia de Irmãos, arredores de Azeitão, o gestor terá sido visto pela última vez.
O alerta partiu a meio da manhã pelos responsáveis da empresa e, passadas horas e várias tentativas de contacto para o telemóvel, a família comunicou o caso à GNR de Azeitão. As investigações foram entregues à Judiciária de Setúbal, que desde então procura todas as pistas, inclusive na vasta carteira de clientes de José Luís d’Orey. Foram ouvidas várias pessoas e vasculhados todos os papéis, contas de telefone ou movimentos bancários. A Via Verde, Visa e Multibanco mantêm-se intactos, além do passaporte caducado que deixou em casa. Saiu sem mala nem saco de roupa e as armas de caça continuam fechadas. “O meu irmão tem uma vida estável com os problemas financeiros de toda a gente”, garante Rui d’Orey, procurando afastar a hipótese de fuga planeada.
Os O’Neill de Mello, família de Marina, “têm grandes tradições” na zona de Azeitão e mais concretamente na pequena Piedade, aldeia onde se ergue a Quinta de Santo Amaro. É propriedade de família há várias gerações e, nos últimos anos, também vergada ao proveitoso turismo de habitação. Adelina Ferreira, 69 anos, vive ali desde sempre e lembra--se bem “da menina Marina em pequena”. O marido, Manuel, “foi muitos anos caseiro na quinta”, que na altura “era dos avós da menina”, D. João José de Mello e Maria Ana do Carmo O’Neill. Hoje é a mãe quem lá vive, D. Pureza O’Neill de Mello, senhora de 73 anos, que mantém a filha e os cinco netos por perto. E cem metros à direita, Adelina aponta finalmente o Monte dos Barris, construído em terrenos da família, onde José Luís d’Orey vive “desde que se casaram, há 20 anos” – e onde há 15 dias deixou a mulher e os filhos.
José Luís d’Orey é membro dedicado da Associação de Famílias Numerosas (AFN), a partir de Setúbal, e “tem como missão angariar sócios no seu círculo de amigos”, adianta o presidente Fernando Castro, que tem “óptima impressão dele”. O irmão Rui define-o como “extremamente católico”, o que os vizinhos confirmam. A maioria não dá a cara, mas recordam um José Luís “muito simpático” e presença assídua nas missas ao domingo, quando a família Mello abria as portas da capela às gentes da aldeia. E ao balcão do café Azul, o único no largo da aldeia, paredes meias com a mercearia, Carlos e Maria Monteiro lembram-se “de o ver passar de carro”. “Os filhos é que vêm cá muito. Juntam-se com os amigos na esplanada, sobretudo à noite, mas há uns dias deixaram de vir”. E o casal recorda Marina d’Orey, que atravessa a aldeia “de ar abatido” a caminho da mercearia.
Marina e os cinco filhos, o mais velho com 19 anos, são acompanhados por um psicólogo desde a primeira hora. Os três rapazes e duas raparigas regressaram há poucos dias às aulas, depois de terem faltado toda a primeira semana. Um amigo de José Luís, que pede para não ser identificado, recorda as “conversas entre homens” e garante que “ele não tinha ninguém. Nunca se mostrou agitado ou ansioso, nem transparecia quaisquer problemas financeiros”. Mas a Polícia Judiciária não descarta a hipótese de fuga. “Se for encontrado e disser que desapareceu de livre vontade só temos que aceitar. Não incorre em qualquer crime” e o seu paradeiro é uma informação que só diz respeito ao próprio.
DUAS FAMÍLIAS COM TRADIÇÃO
ALBUQUERQUE D'OREY E MELLO UNIDOS NUMA PEQUENA ALDEIA DA SERRA DA ARRÁBIDA
José Luís Albuquerque d’Orey e Marina de Mello Ferreira Pinto são oriundos de duas das mais tradicionais famílias portuguesas. Os d’Orey têm origem franco-alemã e são descendentes de Gillar d’Orey, barão de Bollandre e senhor de Neufville e de Puilly, na região de Liège. Uma descendente sua, Ulrike Louise Hedwige Uden, casou com Frederico Óscar Guilherme Achilles e o quinto filho deste casal emigrou para Portugal em meados do século XIX. Quanto ao nome Mello, deriva de uma alcunha e a família que o adoptou por apelido é da mais remota e nobre ascendência. Deriva de D. Soeiro Reimondes, o Merlo, contemporâneo dos reis D. Afonso III e D. Dinis.
OS CASOS MAIS DÍFÍCEIS
JOSÉ LUÍS ENTRE OS 65 DESAPARECIDOS DA PJ
O misterioso desaparecimento de José Luís d’Orey, na segunda-feira, 9 de Outubro, veio engrossar a lista de 65 casos de desaparecidos em investigação pela Judiciária. Os inspectores reconstituem “os últimos passos”, interrogam “amigos e conhecidos” e fazem “um levantamento exaustivo da vida da pessoa”, adianta fonte da PJ. Mas “os casos de desaparecimento são os mais difíceis de investigar porque, objectivamente, não há crime”. O rapto, sem resgate, é hipótese afastada. E “qualquer pessoa é livre de fazer da sua vida o que entender”.
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