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Uma vida nova

Os passos para a integração dos primeiros sírios em Portugal.
Vanessa Fidalgo 8 de Novembro de 2015 às 13:00
Nada, Ali, Dima, Inas e Rhymas
Nada, Ali, Dima, Inas e Rhymas
"Não fossem os erres guturais com que Inas, Dima e Rhymas cantam o clássico infantil ‘Atirei o Pau ao Gato’ e quase nos convenciam que já sabem falar português. Ainda não. Mas riem e correm ao sabor da liberdade que só um país livre da guerra oferece. Elas e os pais, Ali e Nada, chegaram a São Martinho do Porto por terem confiado num português que lhes ofereceu abrigo e apoio em Portugal, quando estavam no caos da estação de comboio de Viena à espera de uma oportunidade para chegar à Alemanha. São os primeiros refugiados sírios a pisar solo luso.

A família já tinha saído há várias semanas de Racca, uma pequena cidade do norte da Síria, rumo à fronteira com a Turquia. Ali levou uma das filhas às cavalitas e Nada empurrou um carrinho de bebé. Cinco horas de caminhada impiedosa através de montanhas e vales, com um pequeno grupo que posteriormente se juntou a mais 200 pessoas que, como eles, queriam chegar à Grécia. Depois foi a travessia do mar Egeu, que demorou duas horas e meia. Da Grécia seguiram para a Macedónia, depois para a Sérvia, de seguida atravessaram a Croácia, a Hungria e finalmente chegaram à Áustria. A ideia era chegar à Alemanha.

No caminho, o único objetivo era não se perderem. E não perder ninguém. Estavam exaustos e desesperançados quando se cruzaram com Nuno Félix, organizador de uma caravana solidária que levou ajuda humanitária à Cruz Vermelha da Croácia (e entretanto fundador da associação Famílias como as Nossas) e que já levava na manga a intenção de trazer alguns refugiados consigo para "dar o exemplo".

Primeiro, aos próprios filhos, três rapazes e uma rapariga com idades entre um e nove anos, cada vez mais incomodados com as cenas da tragédia humana que lhes entravam pela casa dentro através da televisão. Os filhos que lhe perguntaram vezes sem conta "porque é que ninguém fazia nada" e os quais Nuno não queria deixar sem resposta. Por isso, Nuno mostrou a Ali, o patriarca sírio, no telemóvel, os rostos dos seus. Ali olhou-o profundamente, como que auscultando-lhe as intenções, conferenciou com a família e aceitou.

VIDA NOVA

Na Síria, Ali, o pai, trabalhava como alfaiate, profissão que gostava de exercer também em Portugal. Todos os dias, dá mais um passo nesse sentido: num caderno vai apontando a fonética de todas as palavras portuguesas que lhe parecem ser as essenciais para retomar a sua vida o mais depressa possível.
Por cá, o dia a dia tem sido vivido a par e passo com a família que os acolheu, até porque sem a autorização de residência (obtida na semana passada) não podiam sequer trabalhar. "Saem com a minha mulher e os meus filhos. Vão até à praia, descansam também da sua perigosa jornada de várias semanas", conta Nuno Félix, 38 anos, que começou pela comunicação social e hoje representa o Colónia, um clube de futebol da Alemanha Ocidental, nos mercados ibéricos. Agora que já têm uma autorização provisória de residência, Ali vai começar a ir a entrevistas de emprego. "Até porque já recebeu várias propostas de trabalho e, em princípio, na próxima semana as meninas já entrarão para a escola", acrescenta Nuno. O ‘scout’ está habituado a negociar ao mais alto nível, mas naquele dia em Viena teve de improvisar: pegou numa espécie de megafone ligado ao sistema de som de um artista que entretinha as crianças do campo de refugiados improvisado no coração da Europa e com a ajuda de um intérprete falou e disse ao que ia. Depois de Ali e Nada terem aceitado, iniciou a viagem mais rápida da sua vida: três mil quilómetros em dia e meio.

Na Síria, a mãe, Nada, como a grande maioria das muçulmanas, cuidava da casa e da família, conceito que vai muito para além das três filhas do casal, pois vive-se em núcleos familiares alargados. Essa é, aliás, uma das angústias do casal. Em Racca deixou muitos familiares. Quando os bombardeamentos são mais intensos é impossível comunicarem pelo telemóvel de Ali.

TENSÃO NO AR

"Sente-se então muita tensão, apesar de eles não o expressarem por causa da barreira da língua. Quando duas ou três horas depois conseguem falar para a Síria ficam logo mais aliviados. São pessoas que fizeram uma viagem muito longa e dura, com três crianças pequenas, e obviamente trazem muitos traumas. Mesmo que não o exprimam por palavras, sente-se", conta Vera Félix, jurista, 35 anos, mulher de Nuno, que durante a aventura do marido ficou em Portugal a aguentar o barco e a fazer de tudo um pouco: ‘helpdesk’, telefonista, solicitadora. O casal ainda tem o carro, que se avariou na Hungria, algures por lá e, em abono da verdade, nem tem muito bem a certeza se o monovolume irá alguma vez regressar.

A maior dificuldade, conta, é a língua, pois a família também não fala inglês. Vera tem-se socorrido de intérpretes, na sua maioria estudantes, e da boa vontade do coração, que geralmente não conhece idioma. "As pessoas recebem-nos bem. Nós, os portugueses, temos uma curiosidade genuína pelos estrangeiros. E eles estão a adorar os portugueses: acham que somos carinhosos, que rimos muito e que olhamos no fundo dos olhos", revela.

As três meninas sírias adoram-na. Estão constantemente a solicitar-lhe beijinhos e abraços apertados.
Nuno garante que nada mudou desde que há cerca de um mês e meio decidiu "dar o exemplo".
"Um exemplo que ainda não vi por parte das instituições que deviam tomar uma atitude. Choca isto ser tratado como se fossem as quotas de pesca da sardinha. Não ouço urgência no discurso. Quando decidi ir, em meados de agosto, já me parecia demasiado tarde. Agora então… Mas dentro de mim não descobri algo que eu não soubesse já que existia. Fiz muito voluntariado, estive ligado a vários movimentos associativos e juvenis. Sempre soube o que era passar noites sem dormir sem ser para meu próprio proveito", confessa.

ACOLHIMENTO

Para ontem estava prevista a chegada de 45 refugiados que estão no Egito no âmbito da quota anual entre Portugal e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), não fazendo parte dos 4500 definidos pela Comissão Europeia.

Segundo o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, este grupo de refugiados devia ter chegado a Portugal em setembro, mas "uma situação burocrática no Egito" impediu a saída do grupo do campo de refugiados do Cairo. Os 45 refugiados são maioritariamente famílias com crianças pequenas e vão ficar instalados em Penela e na área de Lisboa, refere aquele serviço de segurança, sublinhando que a reinstalação está a ser preparada com a cooperação das Organizações Não Governamentais (ONG), como o Conselho Português para os Refugiados, Serviço Jesuíta aos Refugiados e a Fundação Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional.

Em Penela vão ficar a morar em apartamentos autónomos cinco famílias, num total de 21 pessoas.
O SEF refere ainda que a viagem e acolhimento destes refugiados foram preparados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e pela Organização Internacional de Migrações (OIM), no âmbito de um protocolo assinado em abril.

Sobre os 4500 refugiados definidos pela Comissão Europeia, o SEF refere que a calendarização da chegada do primeiro grupo está dependente das entidades que "organizam e processam os pedidos de proteção internacional, em Itália e na Grécia, de modo a serem posteriormente recolocados pelos estados-membros, incluindo em Portugal".

Teresa Tito de Morais, presidente do Conselho Português para os Refugiados, revela que desde o início do ano deram entrada no SEF 750 pedidos de proteção internacional. Sobre os 4500 refugiados que estarão a caminho de campos da Grécia e Itália ainda não há luz ao fundo do túnel: "Estamos preocupados com a lentidão deste procedimento e cientes de que não pode haver soluções humanitárias se não houver decisões políticas". A quota que coube a Portugal será "tratada com boa vontade e numa perspetiva de descentralização, até porque há várias câmaras que já se disponibilizaram para colaborar neste desafio".
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