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Vai aonde a leva o violoncelo

Adriana Ceia está nos EUA graças à Santa Casa. De passagem por Lisboa, tocou com Abrunhosa.
14 de Julho de 2013 às 15:00
Adriana Ceia, de 27 anos, com o seu violoncelo, junto à igreja de São Roque, em Lisboa
Adriana Ceia, de 27 anos, com o seu violoncelo, junto à igreja de São Roque, em Lisboa FOTO: João Miguel Rodrigues

O amor à primeira vista de Adriana Ceia foi também um amor ao primeiro som. Deixou-se arrebatar aos 16 anos, no dia em que acompanhou o pai, ligado à música enquanto cantor e compositor, a um concerto na cidade da Guarda. "Quando vi um violoncelo pela primeira vez foi paixão. Que instrumento é este? Que som é este?", recorda, 11 anos mais tarde, na véspera de regressar ao estado do Missouri, nos EUA, onde se encontra a meio dos dois anos de mestrado na Park University.

Para a natural de Lisboa, que passou grande parte da infância e a juventude com os pais, em Portalegre, e já estudou na Covilhã, em Castelo Branco e na capital (no Conservatório), partir para Parkville, onde é a única estudante portuguesa, é mais uma etapa numa vida guiada pelo instrumento que guarda numa irreverente caixa azul, ornamentada com um autocolante da Apple. Interessa-lhe agora aprender o mais que conseguir com Daniel Veis, premiado solista checo que é o seu professor.

"Enviei uma gravação para os EUA e ele anunciou que iria entrar e que me poderia atribuir 50 por cento da bolsa. Fiquei felicíssima e comecei à procura dos outros 50 por cento, pois não tinha possibilidade de pedir aos meus pais", admite Adriana, que bateu a todas as portas para reunir os 8140 euros necessários.

De entre as três centenas de e-mails enviados "para tudo o que era lado", obteve uma resposta positiva. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa aceitou conceder-lhe o apoio, "a título excecional", em troca do compromisso de que estará disponível para iniciativas destinadas aos jovens que se encontram nos lares da instituição.

Apesar dessa "responsabilidade positiva", Adriana vê o que lhe aconteceu sobretudo como uma dádiva: "É um verdadeiro milagre ter uma mão que nos ajuda. Digo sempre que o senhor provedor, Pedro Santana Lopes, e a Santa Casa são uma luz que me está a acontecer na vida." De qualquer forma, a universidade aumentou a percentagem da bolsa, diminuindo a verba proveniente de Portugal.

DE MANHÃ À NOITE

Nos EUA, a rotina da portuguesa é "estudar, estudar, estudar". "Chego a levantar-me às seis e meia ou sete da manhã e vou para a sala de estudo. Fico até à hora de almoço, caso não tenha aulas, e depois regresso. Às vezes até às dez ou onze da noite", afirma, esclarecendo que a maior parte do estudo é prático, embora também leia partituras no dormitório.


Mais complicado do que arrumar a caixa do violoncelo na bagageira de um autocarro é ficar um dia que seja sem tocar. "É muito difícil, embora às vezes faça falta um dia ou dois de descanso. Quando se trabalha muito, os músculos começam a ficar cansados", admite quem se habituou a transportar mais de dez quilos às costas. É esse o peso do instrumento que a fascina desde a adolescência, quer custe 200 euros, preço dos mais baratos do mercado, ou seja 100 vezes mais caro, como o do seu professor.

Apesar de ainda estar no primeiro ano de mestrado, teve a honra - normalmente reservada a finalistas - de fazer um recital, mas dias antes recebeu a notícia de que o avô morrera e tinha um ensaio com a pianista que não conseguiu reagendar. "Tive de sair do corpo, ensaiar, e só depois libertar tudo", recorda, habituada que está a deixar a emoção acumular-se ao longo dos concertos.

Tendo já integrado a Filarmónica Jovem Franco-Alemã, que lhe permitiu levar a sua música a locais como Paris, Berlim ou Bayreuth, a violoncelista alargou horizontes, acompanhando Pedro Abrunhosa num concerto organizado pela Santa Casa, a 3 de julho, no largo Trindade Coelho, em Lisboa. "Ele tem letras e músicas muito bonitas. E acho que a voz dele tem um timbre muito especial. Senti-me muito bem e adoraria voltar a tocar com ele", garante.

No entanto, para a ex-aluna do 10º ano na área de Científico-Naturais, a prioridade é encontrar um lugar numa orquestra ou prosseguir para o doutoramento. Dê por onde der, fica a certeza de que o violoncelo é um amor para toda a vida.

 

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