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Valter Hugo Mãe: "Procuro tirar o tapete debaixo dos pés"

O escritor apresenta uma "rapariga esquisita" dos confins da Islândia, num romance em que se come tubarão podre.
22 de Setembro de 2013 às 15:00
O escritor, que nasceu em Angola, em 1971, vive atualmente em Vila do Conde
O escritor, que nasceu em Angola, em 1971, vive atualmente em Vila do Conde FOTO: Vítor Mota

É no gelo da Islândia que decorre 'A Desumanização', romance que Valter Hugo Mãe descreve como "violentamente poético ou poeticamente violento".

Está preparado para que toda a gente lhe pergunte o que o levou a escrever um livro sobre uma menina que vive numa parte inóspita da Islândia?

Depois de editar, fico ansiosamente à espera de saber tudo o que haja a saber sobre o livro. A minha percepção é sempre demasiado pessoal e substancialmente intransmissível. Mas havia a vontade de correr o risco - em todos os romances procuro retirar o tapete debaixo dos meus pés - e já me tinha passado pela cabeça há muito tempo criar um narrador feminino e, para piorar as coisas, que fosse uma miúda, quase uma criança. Tem a ver com esse desafio.

Compreende que a Islândia vá criar curiosidade entre os jornalistas e entre os leitores?

Compreendo que queiram saber o que me interessa afinal: a cabeça das crianças-meninas aos 11 e 12 anos. Interessa-me uma cabeça que difira muito da minha ou que possa completar aquilo que a minha, por natureza, não conseguiria. As mulheres, desde logo, e as crianças, ainda que meninas, encontram coisas que nós, homens, não encontraríamos, não pensaríamos, não sentiríamos. Gostei muito de conhecer esta rapariga esquisita, meio atrapalhada, entre a espiritualidade e o bicho do corpo. Mas ao mesmo tempo muito honesta.

E quando ela lhe apareceu na cabeça já era islandesa?

A Islândia aparece antes da miúda, mas quase imediatamente tive essa percepção - talvez pelo feminino da ilha. Seria o livro que faria com a voz de uma criança feminina.

‘A Desumanização' apresenta a própria Islândia como personagem. Ficou a conhecer assim tão bem aquela ilha e a sua gente?

Interessa-me mais escrever intuindo do que fazendo reportagem. Mas é claro que estive lá quatro vezes, olhei para as pessoas e fiz por percebê-las. Tentei ler e ver alguns filmes para entrar naquela realidade e perceber os traços mais gerais. Estou convencido de que a Islândia é um reduto de mistério e grandemente inexplicável para todas as almas do Mundo. Talvez até para os islandeses a matéria não seja muito fácil.

Lembra-se da primeira vez que teve noção da existência da Islândia?

A Islândia deixou de ser só um ponto no mapa - lembro-me de ser miúdo e ter cadernetas de cromos com bandeiras e com países -, e ganhou personalidade a partir dos anos 80, ainda era adolescente, quando ouvi falar de uma banda nova-iorquina chamada Psychic TV, em que o Hilmar Örn Hilmarsson, indivíduo a quem dedico o livro, fez umas participações. Creio que foi num fanzine que li acerca do Hilmar, que vinha da recôndita Islândia, toda feita de seres transcendentes e paralelos, a viverem nas pedras e nas águas. Uns devoradores, outros imaturos e outros benignos.  Nunca mais consegui deixar de imaginar a Islândia e de esperar um dia vê-la mais perto.

Mas só lá foi bastante mais tarde.

Só fui agora, tardíssimo, há dois anos.

Começou a escrever ‘A Desumanização' antes de ir à Islândia?

O livro começou na primeira vez que lá fui, mas quando viajei já tinha a percepção de que iria escrever sobre uma rapariga. Comecei por achar que iria situar o livro em Mosfeldbaer, que é uma pequena localidade ao lado de Reiquiavique. Nessa primeira viagem, a capital foi muito impactante. É uma cidade muito bonita, que tem uma catedral com uma vista muito dominante. Mudei tudo quando percebi que havia uma coisa como Bildudalur, que tem 140 habitantes e fica encravada entre as montanhas, com o mar a entrar. Passam o Inverno isolados, pois não é possível viajar para lá, e se acontecer algo muito aterrador, como uma urgência médica, há um helicóptero de guerra que tenta lá chegar para resgatar as pessoas... À medida que lá ia, comecei a mudar coisas e a afinar o livro. Mas é verdade que há muito tempo pensava escrever um livro fora de Portugal, cujas referências não fossem as nossas. Os meus cinco primeiros romances são muitos portugueses. Queria poder situar-se mentalmente de outra forma.



Sente necessidade de se tornar um escritor mais universal?

Queria perceber até que ponto me era possível fazer uma coisa dessas. Na altura em que ganhei o Prémio Saramago, com ‘O Remorso de Baltazar Serapião', muita gente pensava que tinha encontrado uma linguagem e faria toda uma série de livros sobre a Idade Média. Não tenho paciência para sequelas e séries de livros muito parecidos. A minha necessidade enquanto escritor passa muito por fazer o que não fiz e tentar aquilo que não tentei. A Islândia já estava na cabeça há muito tempo e viajei para lá numa altura em que estava disponível para começar o livro. Talvez pudesse ter ido mais cedo, mas suspeitei que o impacto fosse tão grande que, se fosse no tempo de escrita de outro livro, provavelmente iria atropelá-lo, para começar histericamente outra coisa qualquer.

É muito mais um desafio criativo do que uma estratégia comercial.

Sim.

Caso  contrário, escreveria sobre uma dona-de-casa em Londres ou em Nova Iorque.

Ou voltava a fazer aquilo que as pessoas leram e gostaram. Os meus livros disparam em vários sentidos. ‘O Apocalipse dos Trabalhadores', que foi muito bem recebido e é mais cómico, fala de duas domésticas. Muita gente fica à espera de que volte a escrever de forma humorística, com aquela ironia... Depois foi ‘A Máquina de Fazer Espanhóis', que é um dos meus livros mais duros e mais tristes. De seguida, ‘O Filho de Mil Homens', que é mais feliz, e agora este, que é seco e não propriamente triste. É um livro que me incomoda, pois é um bocado como a beleza da Islândia, que é esmagadora e feita de violência. É um lugar violento, em que a Natureza ainda se manifesta de forma imatura, pueril, infantil. Por isso, tudo é feito com aparato de alguma crueldade. Quis muito que essa beleza fosse mostrada assim.

Já algum islandês leu ‘A Desumanização'?

Foi agora enviado à cônsul da Islândia, que fala perfeitamente português. Ficou encantadíssima com a ideia de um português ter escrito sobre a Islândia e está entusiasmadíssima. Quer muito conhecer-me e também quero muito conhecê-la, mas estou cheio de medo, obviamente.

Faz ideia de quando este romance será traduzido e editado na Islândia?

Não sei... Teria muito interesse nisso. Dar-me-ia um gozo enorme voltar lá e, inclusive, entregar cópias a meia-dúzia de pessoas com quem conversei e que me receberam. A Islândia é um país pequeno, de 320 mil habitantes, mas praticamente toda a gente lê e cada livro tem uma tiragem que talvez ultrapasse a portuguesa. Isso tem que ver com a preparação escolar e didáctica daquela gente.

De qualquer forma, é quase inevitável que um romance sobre a Islândia acabe por atrair a atenção de um editor desse país...

Estou a acreditar que o livro poderá sair lá. Ainda não tenho podido pensar muito nisso, mas se calhar a minha primeira tentativa será enviar o livro à tradutora de Saramago. Pode ser que a senhora goste e queira mostrá-lo a alguém.



O romance tem muitas palavras islandesas que designam costumes e gastronomia, sem que haja notas de rodapé a explicá-las. É um desafio aos leitores?

É uma tentativa de fazer com que o livro seja normal. Se num dos meus romances anteriores referisse arroz de cabidela, não colocaria uma nota de rodapé - e a verdade é que os meus livros saem em variadíssimos países, sem que haja essas notas. Em ‘A Máquina de Fazer Espanhóis' não explico o que é ‘A Bola', o jornal desportivo que as personagens atacam. O leitor estrangeiro perceberá que é uma publicação, mas não terá a mesma amplitude daquilo que é dito. Quando digo que estamos a comer hákari, que é tubarão podre, ou a beber brennivín, quem não souber que aquilo é uma água-ardente islandesa horrível, uma coisa para matar, não sabe. Mas ficará a saber que eles bebem aquilo festivamente. O brennivín é uma coisa horrorosa, feita de arroz ou qualquer coisa assim, bebida para acompanhar o tubarão podre. É uma combinação simplesmente bombástica.

Deve funcionar bem...

Deve... (risos). A minha intenção era que o livro não fosse turístico em momento algum. Se caísse na tentação de explicar demasiado, ou de pôr nomes em português cada vez que refiro os termos...

Tal como aconteceu a tantos milhares de portugueses, a sua imaginação decidiu emigrar?

Fui de viagem, não emigrei. Escrever sobre a Islândia foi estar em viagem durante muito tempo. Mais do que o tempo de lá estar fisicamente, pois os dois anos e meio de maturação do livro resultaram como uma forma de não estar exactamente aqui.

Mesmo fisicamente, pois acabou de escrever o livro na Croácia.

Em Zagreb. Precisei de sair daqui um bocadinho, de encontrar um espaço quieto, onde não me conhecessem e não me assediassem para sair, para apresentar livros, para prefaciar e cumprimentar gente que casa e gente que faz anos. As solicitações são muitas e é mais fácil entenderem que não é possível se estivermos fora daqui.

Já sente essa falta de espaço?

Um bocado. Chega a um ponto em que preciso mesmo de desaparecer e de estar no meu quotidiano mais descomplicado. Sei que há gente que consegue viver constantemente no rebuliço dos eventos, das imprensas e das solicitações, correspondendo a todos os convites, mas eu não consigo. Preciso mesmo de ir ao meu café de sempre, de estar com a minha família e de brincar com o meu cão. É a partir dessas pequenas coisas que maturo aquilo que penso e que percebo exactamente aquilo em que acredito. Quando estamos na voragem dos acontecimentos, tudo é gesto e pouco é meditação.

No início de ‘A Desumanização' descobrimos uma menina, que perdeu a irmã gémea, está a minguar e já é tratada por "a menos morta". É um livro dominado pela morte?

É um livro em que procuro entender uma certa dimensão espiritual. Ainda que mencione Deus e a força criadora, este livro atira sempre as culpas e as razões, as justificações e os objetivos, à Natureza, enquanto elemento pensante e decisor. Como se fosse a própria Islândia a decidir quem nasce e quem morre.

E que tem coisas como "a boca de Deus", onde tudo pode ser lançado.

Trata-se de um espaço físico da Islândia e o estômago de Deus será as entranhas da ilha. A questão da morte aparece no sentido de procurar que as coisas importem verdadeiramente num sentido absoluto e existencial do termo, que não sejam meros instrumentos para uma passagem vulnerável e breve. Tenho muita dificuldade em acreditar na vida eterna, ou na vida para lá da morte, pelo que procuro uma justificação na própria metodologia cíclica da Natureza.



Também acredita, como se pode ler no romance, que Deus "certamente bocejaria se assistisse ao espectáculo pequenino das nossas vidas"?

Se Deus existir, vai pensar em nós como um bicharoco ridículo, convencido de muitos talentos, mas absolutamente tosco. A verdade é que não conseguimos criar a complexidade das montanhas ou dos fiordes. A única coisa que podemos fazer é destruir. Essa capacidade poderosa, que nos confere a ilusão de sermos mais fortes.

Podemos esburacar montanhas, fazer viadutos...

E, subitamente, desrespeitar toda aquela pureza. A Islândia é o início do Mundo, é o lugar que ainda está muito lá atrás e, por isso, não está estragado. Tenho a percepção que daqui a meia-dúzia de séculos aquilo esteja - ainda que frio, ou talvez mais quente, devido ao aquecimento global - tão massacrado quanto o Rio de Janeiro, que antes era uma selva.

Pensa que ‘A Desumanização' irá chocar quem tiver lido ‘O Filho de Mil Homens'?

Espero que não, mas o doce de ‘O Filho de Mil Homens' não entra aqui. Espero que as pessoas possam ler este livro aproveitando também a beleza que ele inspira, as passagens muito poéticas, muito oníricas, em que parecemos estar sempre na iminência do sonho. Há uma qualquer esperança difícil que vai aparecendo, aqui e acolá, nem sempre atendida. O livro tem muita beleza e as frases procuram essa perfeição ou depuração estética.

Algumas pessoas dirão que é muito poético, enquanto outras dirão que é muito violento. Podem estar todas certas?

Podem. É violentamente poético ou poeticamente violento.

Partilha com os leitores que teve um irmão, Casimiro, que já havia falecido quando nasceu, mas que habitou a sua imaginação na infância. Essa perda e essa ausência é a seiva que fez nascer ‘A Desumanização'?

O livro não veio daí, mas foi ao encontro de. A percepção que tive dos sentimentos da Halla, ou aquilo a que pude recorrer para pensar acerca da validade da personagem, teve a ver com a minha infância. Sempre tive consciência da morte. A maior parte das crianças estão convencidas de uma certa eternidade e de um certo infinito, pois os pais vão durar para sempre e a idade adulta é tão distante que é uma abstracção. A única coisa que contaminava a minha infância de algum terror era o facto de o meu irmão ter morrido com um ano de idade, antes de eu nascer. Quando me apercebi disso tinha uns quatro ou cinco anos e pensei que, se o meu irmão tinha morrido mais novo do que eu, também poderia morrer. Quando me diziam "Não brinques aí, porque é perigoso. Podes cair, partir a cabeça, e morres", eu pensava: "Será que o meu irmão morreu assim?" Quando alguma coisa me parecia perigosa ao ponto de poder levar à morte, tomava-a a sério. Pensava: "Posso morrer. Não sou nada eterno. Quando a minha mãe diz para não me preocupar, está a fazer o possível. Mas se não conseguiu impedir que o meu irmão morresse, também não é capaz de impedir que eu morra se fizer uma grande asneira." Este livro acabou por ir ao encontro dessa lembrança estranha do que é ser criança e não se viver a plenitude da infância. É o que acontece a essa miúda, que está sempre a ser obrigada a envelhecer.

Engravida antes de ter seios de mulher...

A criança grávida, como as pessoas dizem no livro, que era quase só um ovo com umas pernas ridículas. Tem a ver com a ultrapassagem dos tempos naturais, daquilo que faz sentido em cada etapa. É impelida a ocupar um espaço que não lhe corresponderia.



A Halla não acredita que haja mortos burros. Concorda com a ideia da protagonista do seu romance?

Se alguma coisa estiver para lá da morte, não pode ser uma burrice qualquer. Tem de ser uma coisa inteligente. Se isto estiver inventado com transcendência incluída, o para lá da vida terrestre tem de ser absolutamente incrível. Não faria sentido que aqui fosse melhor e que o lado de lá não tenha recolhido informação bastante do lado de cá e não a distribua de um modo mais justo.

Ao ponto de os mortos serem omniscientes?

Ainda não estou convencido se acredito ou não. Se acreditar, vou acreditar que morremos e constituímos uma espécie de massa pensante, incorpórea, que é uma espécie de energia, e participamos todos dessa energia. Seremos todos acumulados e ao mesmo tempo seremos o cúmulo de todos. Cada coisa que cada um de nós souber, ou tiver aprendido, vai ser ciência e conhecimento dessa energia. Vai ser absoluta, mas não infalível. Só tão sábia quanto o cúmulo de nós todos.

Passar a barreira dos 40 anos mudou alguma coisa nas suas crenças e na sua escrita?

A nível das crenças, muito. Aos sete anos, era uma criança muito atazanada com os cravos, que às vezes me impediam de brincar, e andava com muitos curativos, passando dias com as mãos estendidas. Uma tia convenceu a minha mãe a levar-me a uma pequena capela consagrada a São Bento, perto da casa dela, nos arredores de Guimarães. Fui lá, rezei, depois voltei a rezar à noite, e de manhã acordei curado. Nunca mais tive cravos. E nunca mais pensei naquilo. Houve alguns episódios de estupefacção, porque eu andava em tratamentos, e a vizinhança sabia, tal como a professora e os meninos na escola, e de repente apareci lavadinho, limpinho, com rigorosamente nada nas mãos. Durante algum tempo pensei que iria para padre, pois tinha todas as razões para acreditar em alguma coisa. Depois tive um fim de adolescência muito herético e rejeitei liminarmente a existência de Deus. Agora, aos 40 anos, deu-me para regressar à capela, onde nunca mais tinha voltado. A dada altura assumi a minha ingratidão.

Acha que suportaríamos um Mundo em que tivéssemos provas diárias da existência de Deus?

Pelos vistos suportaríamos, porque pode acontecer um milagre e vivermos com isso como se não fosse absolutamente nada. Podemos ser nabos o suficiente para sermos curados dos cravos numa noite, enquanto dormimos, e depois continuarmos com a vida como se nada fosse. Talvez exista gente por aí a quem aconteceram coisas esplendorosas, mas continuam a dizer mal da vida e sentem que são injustiçados, pois não valoram suficientemente o que lhes aconteceu. Aos 40 anos fui agradecer, e como não sei se Deus existe e se São Bento é consciente, fui ao lugar, pois talvez seja a capela que pensa. Talvez a natureza daquelas pedras, tão incrível quanto a Islândia, me tenha ajudado. Não sei, mas pelo menos cheguei a um ponto da minha vida em que resolvi ser um pouco mais grato com as coisas inexplicáveis. Já fiz uma coisa: voltei da capela, que tinha uma daquelas pagelas com a imagem de São Bento, e preguei uma dessas imagens na porta de casa. E pedi a uma senhora que me fizesse um registo, daqueles puramente religiosos e beatos, que as pessoas crentes costumam ter em casa, com uma pagela de São Bento do Cardido, daquela pequena capela em São Cristóvão.

Vai entrar num filme de Miguel Gonçalves Mendes, que se chama ‘O Sentido da Vida'. O que se pode esperar?

O Miguel fez com o Saramago e com a Pilar um monumento cinematográfico [o documentário ‘José e Pilar']. Quando ele me convidou, medi-me dos pés à cabeça, assustei-me, porque pensei como é que ele poderia encontrar um monumento em redor da minha vida... Pacificou-me saber que o filme será feito em torno de sete figuras, pelo que sou apenas a sétima parte do monumento que ele há-de criar. A minha maior dificuldade tem que ver com a sensação de que possa estar a ficcionar a verdade da minha vida. Estou em casa, a fazer as coisas que estaria a fazer em minha casa, mas como tenho uma câmara apontada senti-me menos verdadeiro. Isso é o que mais me confunde e angustia. A cada momento tento não dar muita importância e não mudar rigorosamente nada daquilo que faria e diria. É muito importante que o retrato que daí resulte seja, para o bem e para o mal, aquilo que eu sou. Ainda não percebi muito bem como é que ele vai aglomerar as coisas, mas isso compete-lhe a ele.

É a arte dele...

E acredito que fará um bom trabalho. Mas sinto que, se ele quiser passar de mim uma visão terrível - que faça, inclusive, as pessoas gostarem menos de mim -, isso é possível, porque há sempre um momento, num qualquer dia, em que digo: "Estou farto de estar aqui! Quero-me ir embora, não quero falar com mais ninguém e quero ir comer um hambúrguer. Preciso de mais toxinas, porque isto é saudável demais para a minha cabeça." Se ele recortar estas partes...

O que sente quando alguém o aponta como o melhor escritor português da atualidade?

Fico muito grato, tento entender porquê e abro logo excepções. Tento pertencer a uma geração de autores bons, e não me sentir pior ou muito pior do que os restantes. Leio coisas de outros autores de que gosto muito e que gostaria de ter sido eu a escrever - mas nunca escreveria, pois o estilo de cada um é retumbante. Não sei se a motivação do Prémio Saramago e o Nobel que ele recebeu levou a que a literatura portuguesa fosse levada mais a sério. E, por isso, os escritores acabaram por exigir mais de si próprios. É muito diferente escrever num país em que a literatura não tem espaço, e num país em que, de repente, é possível vivermos da escrita. Não todos, mas alguns, chegarmos ao ponto de estruturar a vida em torno da escrita. Isso, além de gratificante, é muito responsabilizador. E puxa por cada um de nós. E pelos outros, que ainda não vivem da escrita, mas que pensam que se chegarem ao lugar onde está o Valter Hugo Mãe ou o Gonçalo M. Tavares, vão cumprir um sonho, que é viver de inventar livros. A minha vida não é tão fácil assim, e vivo rodeado de problemas, como vivemos todos, porque se alguém diz que é profundamente feliz é por estar a atravessar uma fase de algum deslumbramento. Isso passa e a vida de toda a gente é dotada de terror bastante. Mas ter a possibilidade de escrever livros, e os livros pagarem as contas da casa, é o cumprimento absoluto de um sonho.

 

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