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Vamos falar sobre o amor e outras coisas

Ex-jornalista Luís Osório levou o seu livro ‘amor’ a um lar de acolhimento de raparigas em situação de risco e perda
Marta Martins Silva 19 de Setembro de 2016 às 08:00

Jéssica, de 17 anos e um carrapito loiro empoleirado no alto da cabeça, chegou há uma semana ao Lar Maria Droste, em Lisboa, que acolhe raparigas órfãs, vítimas de abuso sexual, abandono escolar ou condutas desviantes. Luís Osório tem 44 anos, já dirigiu um jornal, uma estação de rádio e tem cinco livros publicados.

Escolheu levar o último, ‘Amor’ (Ed. Oficina do Livro), à instituição onde vive Jéssica, que a meio da sessão levantou a mão e disse: "Sinto que vai buscar a sua inspiração a algo que é triste e tenta transformar essa tristeza em algo de bom". Luís Osório engoliu em seco antes de responder: "No lançamento oficial deste livro, na Biblioteca Nacional, estiveram quase 700 pessoas. Nenhuma delas me disse o que tu me disseste, tu deste exatamente a definição daquilo que eu faço e ainda nem leste o livro." "Senti- -me muito próxima dele, acho que ele vive mesmo dentro do mundo da tristeza e eu também sei o que isso é. E achei muito estranho quando ele disse que eu fui a única que o consegui perceber porque há tanta gente com mais capacidade do que eu, com uma mentalidade tão acima da minha e ninguém chegou a essa conclusão sobre ele", contou à ‘Domingo’ no final da sessão de duas horas. Responde que tem "o 6º ano feito" e que está ali, no lar que pertence à Congregação da Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, por "problemas familiares".

É o que respondem todas, uma resposta formatada que esconde passados inimagináveis, riscados pela perda e pela dor, pelo crime e por poços tantas vezes sem fundo. "Nós aqui temos tantos traumas… Foi bom saber que ele [Osório] também passou por várias coisas difíceis na vida, porque às vezes achamos que as pessoas importantes têm vidas perfeitas. E assim percebemos que talvez os impossíveis só sejam impossíveis até acontecer", revela Cristiana, 15 anos, que parecem tantos mais. Foi esta de facto a primeira mensagem que o ex-jornalista passou ao jovem público durante a apresentação. Uma apresentação em que começou por falar de si: "Quando tinha a vossa idade era muito solitário. Tinha um pai que era homossexual e morreu de SIDA apesar de ter sobrevivido 27 anos com a doença. Cresci com a ideia de que era um erro porque na única vez que o meu pai dormiu com uma mulher nasci eu". "Às vezes estamos tão em baixo, tão em baixo que achamos que já não há caminho para cima, mas há". "O que distingue uma pessoa é a forma como se levanta quando cai". "Tenho dois casamentos e dois divórcios e continuo a acreditar no amor", disse Osório.

Nas sombras

Os risos ouvem-se quando diz que é virgem [de signo] e dão lugar ao espanto quando comenta que continua a amar as duas ex-mulheres. "Oh, a sério?!", ouve-se na plateia o burburinho. E faz-se silêncio quando lê um trecho do livro que fala sobre o facto "de neste momento haver alguém que é a pessoa da vossa vida à vossa espera". Jéssica volta a intervir quando Osório diz que durante muito tempo achou que era um inútil porque a única coisa que sabia fazer era escrever: "Não tenho carta de condução, não sei cozinhar, não sei fazer mais nada". "Mas o senhor disse aí que a gente podia fazer as coisas que ainda não fez", uma frase que soa a lição ‘não-sabes-mas-ainda-podes- -aprender’, pela boca da loira fininha que várias vezes surpreendeu o escritor ao longo da apresentação. "Você disse que se sentia inútil quando era mais novo, como se sentiria hoje esse rapaz se estivesse aqui e visse que conseguiu ter sucesso com a única coisa que sabia fazer?" – continua a desarmante Jéssica. Luís Osório nunca deixa de responder, nem às perguntas difíceis. Mas também lhas fazem mais fáceis: "Alguma vez pensou escrever poemas?", "Quando é que começou a escrever?", "Escreve livros desde pequeno?", algumas delas feitas pela benjamim do lar, uma menina de 7 anos que ora abria a boca de sono ora levantava o dedo para falar ao "Senhor Luís".

"Acho que os escritores muitas vezes – e eu ainda não me considero escritor – têm o peso do mundo às costas, falam muito sobre si próprios mas muito pouco comprometidos com o mundo e com as coisas, não se misturam com a realidade quando a realidade é mais sombria. Eu achei que escrever um livro de pensamentos e não os apresentar em lugares onde as sombras são muito pesadas era uma perda de oportunidade. Vou também estar numa prisão e em casa de famílias que não conheço. Neste caso é um lugar que não é muito conhecido, com raparigas menores que, na maior parte dos casos, já têm cadastro, muitas delas órfãs e eu, que sou um tipo com sombras, achei que devia vir aqui perceber se aquilo que fiz é uma porcaria ou se está a aproximar-se de um caminho verdadeiro", disse antes de conhecer a audiência que o esperava no primeiro piso.

Senhor Luís

"É sobre amor? Se calhar vou gostar", diz ‘Maria’, 17 anos de vida e nove na instituição. Ela que está ali porque "o meu pai bateu na minha mãe e a minha mãe não gostou e...". Não sabemos o desfecho – embora o possamos adivinhar – porque uma colega de lar lhe fez sinal para que não continuasse a história. Minutos antes da sessão começar, volta a aproximar-se da jornalista para lhe perguntar se tem de subir ao palco ou se pode ficar apenas "ali, sossegada". É mesmo ali que fica, num misto entre a curiosidade e a perplexidade perante algumas coisas que são ditas. Não faz perguntas, apenas ouve. Filipa, de 14 anos mas corpo de mulher feita, também pouco falou durante a sessão, mas no final contou à ‘Domingo’ "que o facto de a vida do senhor Luís não ter sido fácil também dá-nos mais motivação para seguir em frente apesar de tudo o que nos aconteceu. Estou aqui há um ano, tive muitos problemas em casa e no outro lar onde estive. No início fiquei revoltada, mas quando me habituei as coisas ficaram estáveis".

"Sofre-se como o caraças. Mas se nos levantarmos e sorrirmos a vida vale mesmo a pena", diz Osório a dada altura. Também conta que quando a mãe morreu o mundo pareceu desmoronar-se e que, aos 19 anos, o seu destino parecia condenado ao fracasso. "Não tinha dinheiro para ir para a universidade, mas a verdade é que oito anos depois já era diretor de um jornal. Mas não pensem que sou um vencedor, também tenho muitos fracassos. Ninguém está condenado à partida", diz. "Gostava que vocês se licenciassem mas isso não é determinante para sermos pessoas inteiras. Nós somos o lugar onde nos colocamos", acrescenta.

Pelo meio lê passagens do livro que ali o trouxe: "A juventude não é juventude se não vivermos como se fossemos morrer amanhã. Não é juventude se não encontrarmos o nosso próprio destino, se não afrontarmos os que acham ser donos do caminho". Elas sabem bem do que ele está a falar. E não têm medo de lhe perguntar, quase à beira do final: "Senhor Luís, é feliz?"

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