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VELA: A AMÉRICA EM CASCAIS

A Taça América está na posse de uma equipa da Suíça. Um país sem mar, que procura o porto ‘ideal’ para servir de sede à prova-rainha da vela. Cascais pode ser a solução
23 de Março de 2003 às 16:26
No dia 2 de Março, no mar da Nova Zelândia, foram batidos dois recordes.: foi a primeira vez que uma equipa venceu a Taça América logo na primeira tentativa, e o ‘skipper’ Russel Coutts celebrou a 14ª vitória da prova. O recorde era detido pelo norte-americano Dennis Conner.

Tudo isto se deve ao sonho de um homem – Ernesto Bertarelli. O multimilionário suíço da indústria farmaceûtica montou uma equipa de raiz para competir na prova rainha da vela. É a terceira competição mais importante no mundo desportivo, sendo apenas ultrapassada pelos Jogos Olímpicos e pelo Mundial de Futebol. Ernesto conseguiu o apoio de duas grandes empresas: a UBS e a Infonet, patrocinadores oficiais da equipa. Mas também o aval da Société Nautique de Genève, clube que a Alinghi representa. Com um orçamento de 55 milhões de euros contratou 95 homens do mar, todos eles considerados os melhores nas suas especialidades. Entre eles está João Cabeçadas.

Este velejador português – e o único elemento luso na equipa Alinghi – é o responsável pelo departamento de cabos e mastros da Alinghi. Uma área que se mostrou fundamental na conquista da prova pois a equipa adversária, a New Zealand Team, perdeu duas regatas devido a problemas no seu mastro.

Agora que a equipa Alinghi venceu a Taça América muito trabalho a espera. Como manda a tradição, a prova tem que ser realizada em água salgada e como o país de origem da equipa é a Suíça – país sem mar – há que escolher um local para realizar a próxima competição.

Das várias propostas apresentadas, Portugal parece ser a mais viável. “Por mim, a escolha já estava feita, mas não sou eu que mando. Depois de quatro anos fora de casa, era bom ficar por cá”, afirma o velejador português.

A tradição diz também que a prova só se realiza caso uma outra equipa desafie os vencedores. E este desafio já foi feito. A Oracle BMW Racing, que representa o Golden Gate Yacht Clube de San Francisco – a equipa que a Alinghi derrotou na taça Louis Vuitton (prova que só existe caso haja mais que um desafiador) – declarou-se disposta a ‘lutar’ num mar à escolha da Alinghi.

MAIS DE UM MILHÃO DE EUROS

Nada é decidido numa só corrida. São agendadas novas regatas e quem reunir cinco vitórias vence a taça. O ponto alto das regatas é o contornar das bóias. É aí que se vê a perícia da equipa. Um espectáculo que pode muito bem vir a acontecer ao largo de Cascais em 2007.

Os outros candidatos são a Espanha (Cadiz ou Barcelona), Itália (Nápoles) e França (Saint-Tropez), todos no mar Mediterrâneo. E é neste ponto que Portugal e, mais precisamente a Baía de Cascais, fica em vantagem. “O mar do Atlântico tem ventos mais fortes e mais constantes, é um mar com excelentes condições para a prática do desporto”, explica João Cabeçadas. Cascais tornou-se escolha não por iniciativa dos portugueses, mas do próprio ‘skipper’ da equipa Alinghi, Russel Coutts. Como a equipa sabia que, caso vencessem a Taça em 2003, tinha que escolher um porto europeu para realizar a prova, deslocou-se a Cascais e entrou em contacto com Pedro Garcia, administrador da Marina de Cascais.

Mas o grande impulsionador desta candidatura tem sido Patrick Monteiro de Barros, empresário do ramo petrolífero. Patrick começou a reunir apoios financeiros e já tem o aval do Estado português.

A candidatura de Portugal foi oficializada no dia seguinte à Alinghi vencer a Taça América e foi Patrick Monteiro de Barros quem entregou a proposta pessoalmente a Ernesto. Tendo em conta que se está a falar de um lucro de 1,2 mil milhões de euros, este é, no mínimo, um assunto a ter em conta.

É a 15 de Dezembro que tudo se decide. A equipa suíça Alinghi vai anunciar qual a escolha para a nova sede da Taça América. Até à decisão final os peritos da equipa vão estudar todas as candidaturas em pormenor. “Existem pessoas destacadas para fazer a análise dos locais, que já estão a trabalhar nisso há algum tempo, não é só desde que ganhámos a taça. As primeiras visitas a Portugal foram há cerca de dois anos”, explica João Cabeçadas.

O SONHO DE UM MILIONÁRIO

A Alinghi é um sonho concretizado do multimilionário suíço Ernesto Bertarelli. Bertarelli não poupou esforços para ver a Suíça, pela primeira vez, nesta competição. Contratou Russell Coutts, antigo ‘skipper’ da New Zealand Team – a equipa derrotada da Taça América – e todos os peritos mais cotados do mercado. A fórmula resultou em pleno. A Alinghi venceu a Taça Louis Vuitton por 5-1, contra os americanos do Oracle BMW Racing, e só precisou de cinco corridas para levar a Taça América para a Société Nautique de Genève, na Suíça. O ‘team’ conseguiu ainda devolver a Taça América à Europa ao fim de 152 anos. O mesmo será dizer que desde a primeira regata, em 1851, nenhuma equipa europeia tinha alcançado a taça de prata.

A próxima edição decorre em 2007. Se o calendário fosse seguido à risca, a competição teria início em 2006, mas como nesse ano vão realizar-se os Jogos Olímpicos de Inverno, em Turim, e o Campeonato do Mundo de Futebol, na Alemanha, os suíços da Alinghi optaram por adiar a prova por um ano.
Agora, resta a Portugal fazer figas.
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