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VENDAS NOVAS: DEIXEI TUDO POR ELA

Era uma pacata cidade alentejana. Era, até ao dia em que o Presidente da Câmara fugiu para Moçambique com uma secretária e deixou toda a gente em estado de choque. Dez meses depois, o casal de amantes regressou e a terra voltou a tremer. O ‘Domingo Magazine’ desvenda toda a história de amor, no início de um ‘dossier’ sobre o Dia dos Namorados.
7 de Fevereiro de 2003 às 18:36
Quando Maria Carvalho avisou os colegas de que naquela tarde iria ao cabeleireiro, ninguém estranhou.

Eram habituais as idas e vindas aos salões de beleza da secretária da Câmara Municipal de Vendas Novas, secção de Taxas e Licenças. Mas a mulher dos cabelos loiros, de 44 anos, sabia que, a partir do momento em que saísse a porta da rua da Câmara, nada viria a ser como dantes. Naquela sexta-feira primaveril, Maria Carvalho diria adeus ao seu marido, Edmundo Carvalho, aos seus dois filhos e ao seu emprego. Dali a algumas horas fugiria para África com o homem que trabalhava a poucos metros do seu ‘guichet’ e tinha na mão os destinos da autarquia.

As malas já estavam aviadas e os bilhetes de avião, com destino a Moçambique, comprados há muito. A fuga havia sido planeada semanas antes, no segredo dos deuses. Só a mãe de Maria, Delfina, e a sua irmã, Paula, estariam a par do seu recente caso amoroso com o carismático edil, João Teresa Ribeiro, um homem de 56 anos, com cabelo e barbas brancas. As duas sabiam que Maria Carvalho não era feliz.

Há muitos Invernos que o casamento dela não era um mar de rosas. Edmundo Carvalho, seu marido e chefe da secção de pessoal da Câmara, não respeitava os votos do matrimónio. Os casos extraconjugais eram motivo de desagrado geral e bisbilhotice nos cafés. Em público, o clã Carvalho ainda tentava aparentar ser mais um pacato casal numa solarenga cidade alentejana.

Mas, em privado, a relação era mais fria e suja do que a água do Sado, rio que passa a poucos quilómetros daquele município governado há décadas pelo PCP.

ASSUNTO TABU

Hoje, em Vendas Novas, o ‘affaire’ entre João Teresa Ribeiro e Maria Carvalho ainda é assunto tabu. As portas fecham-se, as pessoas mudam bruscamente de conversa e os intervenientes fogem a sete pés. O caso, ainda muito fresco na memória colectiva, não é apenas mais uma história de amor. Esta paixão mudou não só os destinos de duas famílias, mas também os de toda a cidade.

Os quase dez mil habitantes ainda se questionam sobre o que terá levado o Presidente da Câmara a fugir com a secretária da autarquia, a 22 de Março de 2002, deixando para trás um casamento sólido, três filhos amados e um cargo que ocupava há mais de vinte anos. E o que o fez regressar à cidade em Janeiro, no mais duro dos Invernos dos últimos tempos.

DRAMA NO AEROPORTO

É difícil reconstituir as horas que se seguiram à partida dos dois amantes naquele dia de Março. É muito provável que João Ribeiro e Maria Carvalho tenham apanhado um táxi à pressa rumo ao aeroporto de Lisboa ou uma boleia de uma das poucas pessoas que conheciam o romance. No entanto, a brusca saída da funcionária terá alertado o marido, que ainda foi no seu encalço.

As versões diferem em relação ao que se terá passado no aeroporto. Há quem afiance que Edmundo terá confrontado os dois amantes com a sua atitude precipitada. Outras pessoas garantem, no entanto, que o homem – loiro, de média estatura a rondar os 40 anos – não chegou a tempo ao terminal da Portela. E o avião da TAP partiu para Maputo com dois adultos tão apaixonados como adolescentes.

No dia seguinte, a notícia rebentava como uma bomba nos arredores da praça do município de Vendas Novas. A população era apanhada desprevenida. O Partido Comunista local estava em estado de choque. As famílias Carvalho e Ribeiro à beira de um ataque de nervos.

O ‘João’, como era conhecido entre os familiares e amigos mais próximos, o ‘Teresa Ribeiro’, epíteto usado pelos colegas, ou simplesmente o ‘senhor Presidente’, nome lançado pelos munícipes quando o cumprimentavam nas ruas, era uma das figuras mais queridas na região. “Ele falava com toda a gente, estivessem bem ou mal vestidos. Tinha sempre uma palavra de apreço”, garante Antónia Santos, 51 anos, doméstica.

João e Lurdes Ribeiro viviam numa vivenda, numa das zonas mais calmas da cidade, e ninguém lhes conhecia discussões irascíveis. Públicas virtudes e vícios privados? “Não posso garantir se o casamento entre o João Ribeiro e a Lurdes ia bem ou mal. Mas, nas festas de Verão, os dois dançavam sempre bem agarradinhos”, recorda-se Antónia, garantindo ainda que o Presidente era um pai exemplar.

A popularidade da esposa, Lurdes Ribeiro, enfermeira no Centro de Saúde e mãe de três filhos, rivalizava com a do marido. Uma colega de trabalho no hospital, que não se quis identificar, garante que ela sempre foi uma pessoa “muito prestável, alegre e extrovertida”, ideia corroborada entre a população. “A Lurdes é uma enfermeira espectacular”, declaram, em uníssono, João Carlos Bento e António Isabel, anbos com 41 anos.

A LUTA CONTINUA

João Teresa Ribeiro era uma das coqueluches do PCP entre os bastiões comunistas do Alentejo. Desde 1980 que vencia confortavelmente todos os actos eleitorais com a camisola vermelha. Porém, antes das últimas autárquicas, a 2 de Dezembro de 2001, o dinossauro expressou ao partido a vontade de não se recandidatar, com o pretexto de que tinha em mente “outros projectos de vida”. O Partido Comunista, confrontado com a hipótese de perder uma câmara histórica sem um dos seus ‘pontas-de-lança’ de elite, fez circular um abaixo-assinado de apoio ao autarca, pressionando-o a continuar à frente dos destinos da câmara. Em troca, a força partidária de Carlos Carvalhas, garantiu que João Ribeiro poderia sair da edilidade no segundo ano do novo mandato. O Presidente acedeu e acabou por vencer, sem surpresas, as eleições.

No entanto, três meses depois – mais precisamente a 21 de Março de 2002 – o Presidente avisou o seu vice e braço-direito, José Filipe Barradas, de que iria tirar cinco semanas de férias. Um período pouco usual de descanso, uma vez que é nesta altura que se discutem os orçamentos camarários. Mas ninguém desconfiara que as férias do autarca, que presidia a edilidade há 22 anos, acabassem em desesperada fuga de amor.
Um mês mais tarde, Barradas, vereador com o mesmo tempo de Câmara Municipal de Vendas Novas, pela CDU, acabou por assumir a presidência, depois de se confirmar a renúncia de joão Ribeiro. Uma carta de despedida do ex-número um invocava “motivos de ordem pessoal e amorosa” para a sua saída repentina e pedia “desculpas” à família e à população.

“A saída de João Teresa Ribeiro foi uma surpresa para todos. Mas hoje, dez meses depois, já me esqueci do episódio”, assegura José Filipe Barradas. Ele terá sido um dos primeiros a saber da paixão do amigo e colega de partido pela secretária da autarquia. “Entretanto, já falei com o João por telefone por duas ocasiões, durante a sua estadia em Moçambique”. O actual Presidente não nos quer informar do conteúdo da conversa mas garante: “A vida continua e não perco tempo a pensar nessas coisas,” declara Barradas.

NO DIVÃ DO PSIQUIATRA

O escândalo daria origem a inúmeras especulações. Na comunicação social aventava-se a hipótese de João Ribeiro ir trabalhar como gestor de uma empresa de cerveja e assessor de uma autarquia da ex-colónia portuguesa, graças ao contacto de um moçambicano que estagiou em Vendas Novas no início de 2002. O povo desconfiava que o autarca fugia, não por amor, mas devido a negócios obscuros.

Mas os meses foram correndo e nenhum daqueles rumores seria provado. Em Vendas Novas, a vida continuava para a maioria: os camiões TIR iam e vinham na Estrada Nacional n.º 4. Os cafés “Boavista” e “Silva”, continuavam apinhados de gente que acorria às “melhores bifanas de Portugal”.

Para outros, no entanto, os dias que se seguiram eram os mais negros das suas vidas. A enfermeira Lurdes, doze anos mais nova que o marido, teve de recorrer a tratamento psiquiátrico para superar o trauma. “Está a ser muito difícil aguentar o barco. Temo que este sururu acabe por prejudicar o meu trabalho como enfermeira”, confidencia num tom melancólico esta mulher de baixa estatura, óculos e cabelo curto. O sofrimento dos seus três filhos, um rapaz de 20 anos e duas raparigas de 23 e 16 anos, não tem sido menor. E ainda hoje nenhum deles perdoa o comportamento do pai. “Não é verdade que o João Ribeiro lhes tenha deixado dinheiro”, diz a enfermeira, depois de notícias que garantiam que o progenitor havia deixado a sua pensão de edil aos rebentos.

A VIDA CONTINUA?

Mas como é que Lurdes Ribeiro está a aguentar a pressão da população e dos ‘media’? “Sou do signo Capricórnio. Tenho muita força interior. Na rua, ninguém me vê de cabeça baixa. E até já fui criticada pela minha aparente serenidade. Mas, dentro das quatro paredes, é que deixo o meu sofrimento vir ao de cima”, declara corajosamente. Apesar dos reveses, Lurdes Ribeiro diz que um dia “gostava de ficar amiga do marido” e conversar com ele.

Em relação ao marido de Maria Carvalho, sabe-se que os últimos meses também não têm sido fáceis. Apesar da sua presumível infidelidade, Edmundo Carvalho terá ficado bastante abalado com a partida da esposa. Os vizinhos afiançam que está a tirar um curso de Direito em Lisboa, para arejar, e que também não tem largado as consultas psiquiátricas.

Durante o dia, Edmundo só é visto quando sai do seu trabalho, na Câmara Municipal, para almoçar na casa dos pais, junto à ‘Farmácia Nova’. Há, no entanto, quem aproveite para lançar achas para a fogueira. “Ele não perdeu tempo e já tem outra moça”, garante Antónia Santos.

O REGRESSO DOS POMBINHOS

No início deste ano, em Janeiro, Vendas Novas voltava a ser atingida por um novo tufão. João Ribeiro e Maria Carvalho regressavam de Moçambique quase tão inesperadamente como haviam partido. “Doze quilos mais magro, bronzeado e com mais cabelos brancos”, como o próprio nos confidencia, João deixou-se encontrar pelo “Domingo Magazine” de botins, camisa desfraldada sobre as sujas calças de trabalho e cabelo desgrenhado. Estava na sua quinta, a arranjar as laranjeiras e a arrancar as ervas daninhas, que muito cresceram nos dez meses em que esteve fora.
Com um sorriso pronto nos lábios, o ex-político comunista irradia uma felicidade que apenas desaparece quando fala sobre a família. Afinal, porque levou a cabo um acto tão passional? “Não queria estar agora a falar sobre o assunto e só tenho pena que os meus filhos estejam a sofrer com esta história”, confessa, com a voz momentaneamente embargada.
João Ribeiro garante que a estadia em Moçambique serviu apenas “para vadiar” e foi simplesmente uma doce “lua-de-mel”, desmentindo os boatos postos a circular. Negócios escuros? “O meu regresso só prova que não tenho nada a esconder”, responde prontamente. Apesar de estar saudoso da estadia em Moçambique, diz que a partir de certa altura só queria voltar para a sua terra. “Foi preciso ter coragem para regressar e enfrentar as pessoas. Mas é em Vendas Novas que quero ficar.”

PARA FICAR

O ex-autarca vive provisoriamente em casa da família de Maria Carvalho, no modesto Bairro 1.º de Maio, junto à passagem-de-nível. “Eles saem de casa quase só para beber café”, conta Jerónimo Marques, um dos vizinhos. “Na rua não se fala de outra coisa, até porque a Maria era uma rapariga muito certinha”, remata. A irmã de Maria, Paula, recebe-nos à porta de casa, mas não permite que entremos em contacto com ela, reclusa no seu quarto. “A Imprensa já falou de mais deste caso. Deixem-na em paz!”

Uma ex-colega de Maria na secção de Caixas e Licenças, que não quis identificar-se, diz, entre sorrisos nervosos, que ainda não a viu. “Nunca suspeitámos de nada”, assegura. Ao contrário de muitas histórias de amor e traição, neste caso os cônjuges não parecem ter sido os últimos a saber. “Não havia trocas de olhares nem sequer telefonemas suspeitos. E o que mais surpreende é que nenhum tinha um passado de infidelidade.”

O retorno do filho pródigo de Vendas Novas deixou a população dividida. Porém, a maioria recebeu-o de braços abertos. “O caso, ao princípio, foi uma escandaleira. Mas as pessoas acabaram por compreender”, discorre Virgínio, um dos barbeiros da terra. “Ele é um homem como a gente e tem as suas necessidades”, acrescenta.

Há mesmo alguns munícipes que sonham que João Ribeiro “concorra de novo às eleições”, garantindo que ele “voltava a vencê-las, mesmo filiado noutro partido”. É o caso do ex-emigrante João Carlos Bento. Opinião que, porém, não é corroborada por Joaquim da Silva, 52 anos e grande amigo de João Ribeiro. O proprietário do Café ‘Silva’ conhece o ex-presidente desde o 25 de Abril, altura em que o autarca foi morar com a família para Vendas Novas e era ainda um desconhecido escriturário numa cooperativa agrícola. “Tão cedo, ele não vai ligar-se a partidos. O João quer descansar a cabeça.”

A princípio Joaquim da Silva mostrou-se algo renitente em falar sobre o amigo, mas lá foi revelando um pouco mais: “Poucos dias depois da sua chegada, fizemos um jantar de boas-vindas, com uns camaradas.” No repasto, o devaneio amoroso do “senhor Presidente” não veio à baila. “Apenas se falou de copos e petiscos”. No dia seguinte à refeição, Joaquim acabou por emprestar-lhe o seu ‘Renault 5’ prateado, uma vez que João Ribeiro ficou sem o Mercedes que utilizava enquanto Presidente do município, situado entre Montemor-o-Novo e o Montijo.

DESCONFIANÇAS

Uma minoria dos habitantes de Vendas Novas continua, no entanto, desconfiada das atitudes do seu ex-
-presidente e não perdoa o capricho amoroso. Os funcionários da Câmara ficaram surpreendidos, e alguns até vagamente incomodados, com a sua visita-surpresa, em Janeiro, ao edifício onde trabalhava desde 1980. As más-línguas dizem que o ex-presidente já se movimenta e prepara o seu futuro como assessor de uma outra Câmara Municipal vizinha.

João Ribeiro desmente todos os rumores, mas avança: “Estou reformado mas não quero ficar para o resto da minha vida a tomar conta da horta.” Adivinha-se um regresso à vida política? “Sim. Mas não neste concelho e não por outro partido político”, conclui evasivamente, enquanto puxa distraído a extensa mangueira que sai de uma das divisões da sua casa, em construção há dez anos.

Durante a conversa, o seu olhar paira no vazio. Será aquele mesmo semblante que falam os poetas sobre os homens apaixonados? Talvez Camões tivesse razão quando escreveu que “amor é fogo que arde sem se ver”.

PERFIL

João Teresa Ribeiro nasceu há 56 anos na localidade de Gafete, concelho do Crato, distrito de Portalegre. Depois de ter concluído o ensino primário, começou a trabalhar quando tinha apenas 12 anos. Um ano depois, o ex-autarca foi para Évora, onde trabalhou até aos 21 anos e aprendeu a profissão de cantoneiro. Durante o período em que viveu nesta cidade alentejana, decidiu retomar os estudos. Com 18 anos começou a frequentar a Escola Industrial de Évora. Como trabalhava de dia, as aulas eram no horário nocturno. No entanto, o segundo ano da altura só ficou completo aos 25 anos, depois do regresso do ex-presidente da Guerra Colonial. João Teresa Ribeiro decidiu, posteriormente, tirar um curso superior e, aos 27 anos, já andava no segundo ano de Economia. Ao longo da sua vida os estudos foram pagos com o seu trabalho, sobretudo nas férias. Para conseguir o dinheiro para os livros, o ex-autarca trabalhou um pouco por todo o País e também na Suíça, como cantoneiro. Mais tarde, João Ribeiro foi professor de Matemática e Geografia na Guiné-Bissau, entre 1975 e 1976, aliás foi neste último ano que o antigo edil, militante do Partido Comunista, foi trabalhar para Vendas Novas. Até ser autarca, trabalhou na Cooperativa Agrícola local. De 1980 a Março de 2002, foi presidente da Câmara Municipal eleito pela CDU. Hoje está reformado e passa grande parte do tempo a cuidar da sua quinta em Vendas Novas. Amante de desporto, de vez em quando pratica atletismo.
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