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Na senda do fascínio dos americanos (e de Hollywood) pelos assassinos – de Lincoln a Bob Kennedy –, surgiu ‘Morte de um Presidente’ (Gabriel Range, 2006). Trata-se de um falso documentário televisivo sobre o assassinato de Bush, feito de acordo com as convenções do género, como a utilização de prismas complementares/antagónicos, o que aumenta a sua credibilidade.
Joana Amaral Dias 5 de Outubro de 2008 às 00:00
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Embora o filme estreie em Portugal dois anos depois do seu lançamento, quando Bush já está ‘morto’, politicamente morto (como revela a sua incapacidade de mobilizar os ‘seus’ republicanos para as suas actuais medidas económicas), ‘Morte de um Presidente’ podia facilmente resvalar para um panfleto político. Mas não. O filme consiste numa especulação sobre as consequências desse hipotético acontecimento e, sobretudo, numa crítica aos ‘media’, à sua manipulação e falta de imparcialidade. Aliás, ‘Morte de um Presidente’ também é um exercício de manipulação. Sobretudo na primeira parte, onde se misturam imagens de arquivo (até se assiste ao discurso de Cheney no funeral de Bush, através da montagem de filmagens do funeral de Reagan) com filmagens e depoimentos interpretados por actores. O que dificulta a distinção entre elementos reais e ficcionados. Como se vê nos telejornais?

Mas a polémica que este filme gerou nos EUA centrou-se em torno da possibilidade de estimular potenciais homicidas. A CNN e a NPR recusaram-se a passar anúncios ao filme e várias das maiores salas de cinema rejeitaram a sua exibição, no país da liberdade de expressão. Ridículo. ‘Morte de um Presidente’ nunca advoga o assassinato de Bush. Aliás, na sua abertura vê-se uma mulher árabe a perguntar: 'Porque é que ele não pensou nas consequências das suas acções?'

A segunda parte dedica-se a encontrar o culpado. E a busca do bode expiatório assemelha- -se aos acontecimentos de 11 de Março, quando o governo de Madrid fez crer que se tratava da ETA, impondo a imolação imediata dos suspeitos do costume, como é suposto o público querer. Mas mais interessante do que o mistério do assassino seria que o filme continuasse a sua ficção especulativa. O que aconteceria depois? Quem se candidataria a presidente? Como se desenrolariam os conflitos no Médio Oriente?

A única especulação interessante remanescente é que a morte do Presidente levaria ao fortalecimento do Estado policial. Como Bush, afinal, gostaria. E poderia haver maior dissuasor do seu assassinato?

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