Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
9

Vertigem em Lisboa

Faltam poucas horas para a banda irlandesa apresentar no Alvalade XXI a sua ‘Vertigo Tour’. Até lá, conheça todas as ligações de Bono e C.ª ao nosso País.
14 de Agosto de 2005 às 00:00
É hoje. Oito anos depois da ‘PopMart’ ter passado pelo velhinho e entretanto derrubado Estádio José de Alvalade, um ano e alguns meses após uma histórica sessão de fotografias e filmagens na Praia Grande, na Praia das Maçãs, no Lavradio, no Parque Expo, na discoteca Lux e nas Azenhas do Mar, os U2 regressam ao local do crime: Portugal.
Desta vez Bono Vox, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. chegam com pompa e circunstância, recebendo das mãos de Jorge Sampaio uma condecoração que normalmente escapa às estrelas do rock.
Mas os U2 são os U2, não há volta a dar. São aqueles quatro rapazes de Dublin que estiveram no festival de Vilar de Mouros em 1982, quando quase ninguém os conhecia, numa actuação a augurar um destino do qual não escaparam: tornarem-se grandes. São os criadores de álbuns incontornáveis na história da música, como ‘War’, ‘The Joshua Tree’ ou ‘Achtung Baby’. São os homens simples e humildes de sempre, que um dia, já adultos e famosos, se apaixonaram pelo que viram de uma pequena nação habituada a idolatrá-los.
“Gostei muito de estar em Portugal. Se pudesse ficava mais uns dias”, revelou Bono ao Correio da Manhã, em Abril do ano passado. O contentamento era visível à distância, nascido do contacto com pessoas sem a mínima noção de estarem perante personagens tão famosas e, por isso, mais verdadeiro, puro. Teresa e Francisco Bernardino, proprietários do restaurante Pôr-do-Sol, nas Azenhas do Mar, onde o colectivo de deliciou com peixe grelhado, camarão-tigre e outras iguarias, recordavam então que todos os 21 elementos da comitiva coordenada pelo fotógrafo holandês Anton Corbijn “foram extremamente educados e muito simpáticos”, acrescentando: “nenhum se foi embora sem uma palavra de consideração pela comida, que ‘adoraram’, e pela vista panorâmica sobre o local.”
Descontraídos, bem dispostos, profissionais. Foi também assim que o fotógrafo ‘freelancer’ António Madeira registou quase por acaso a vinda dos U2 a Portugal, quando pegou na máquina e disparou para captar uma situação insólita: um grupo de pessoas dentro da piscina vazia do complexo turístico da Praia Grande.
SEIS HORAS NA PORTELA
Tânia Almeida não viu os U2 assim, dentro de uma piscina sem água a posarem para as câmaras, mas com algum sofrimento também, ela acabou por cumprir o sonho de encontrar os heróis irlandeses. Só que os rapazes de Dublin não apareceram de mão beijada à sua frente. Antes, a jovem de 22 anos teve de aguentar os nervos durante seis longas horas no Aeroporto da Portela. Nervosa, a olhar vezes sem conta para os ponteiros do relógio, num sofrimento que parecia não ter fim. “Valeu a pena”, desabafa hoje, “foi especial, diferente de tudo aquilo que podia imaginar. Fiquei especada a olhar para eles, sem saber muito bem como reagir”.
Discreta, Tânia venceu o medo e a timidez, aproximou-se a tempo de trocar umas palavras com Larry Mullen Jr. e The Edge, que responderam de forma simpática, para em seguida se virar para Bono: “Com ele é que estive mais tempo. Deu para estar à conversa sobre o álbum, ‘All That You Can’t Leave Behind’, e o ‘single’. Tal como os outros, também o vocalista se mostrou “muito simples e humilde”, confidencia orgulhosa, antes de esboçar um sorriso de orelha a orelha, como que a visualizar aqueles minutos que nunca mais serão apagados da memória.
ELES GOSTAM MESMO DE NÓS
“Ontem encontrei-me com Mr. Barroso e ele mostrou ser um sujeito sensível.” A 10 de Junho, o líder dos U2 referia-se assim ao ex-primeiro-ministro português. A afirmação de Bono até podia ter sido proferida numa roda de amigos, mas não. Saiu-lhe da boca perante as 60 mil pessoas que lotaram o estádio do Rei Balduíno, servindo de lançamento para ‘One’, um dos temas mais emblemáticos de ‘Achtung Baby’. Bush, Blair e Chirac tiveram mais azar e não foram poupados aos apelos para que se empenhem na construção de um mundo melhor.
Hoje à noite é altura de Bono soltar mais alguns elogios ao povo português, que por três ocasiões – 1982, 1993 e 1997 – o viu e ouviu embevecido. Pelo menos aos mais de 60 mil sortudos que esgotam o Alvalade XXI. Aqueles que resistiram durante horas ao frio para comprar um bilhete, aqueles que sabem de cor todas as canções da banda, aqueles que não tiveram oportunidade de fazer idêntica recepção na sua última digressão. Já falta muito pouco.
CINCO MINUTOS COM BONO
A pista chegou-nos por via de um telefonema: algures na Margem Sul, os U2 estavam a realizar fotos de promoção, antes de regressarem a casa nessa mesma tarde. Deixo o CM à pressa com o Jorge Godinho, repórter fotográfico, no encalço. A Sul do Tejo, porém, nem sombra dos U2! Na Portela, espiámos os movimentos da polícia e funcionários, tentando reconhecer um sinal que anunciasse a sua chegada. Duas horas depois, o Jorge, que entretanto ficou de atalaia noutro ponto do edifício, grita-me pelo telemóvel as palavras mágicas: “Chegaram. Estou a dois metros da carrinha deles!”’
Corro com a rapidez que as pernas me permitem e um grupo de hospedeiras segue atrás de mim. Transponho a porta automática em derrapagem e, por um triz, não aterro em cima de Bono que, à minha frente, de braços abertos, parecia pronto para amortecer o golpe. Por segundos fita-nos divertido, e chama-nos para uma foto de ‘família’ e um abraço. Quando o efeito ‘choque’ abranda, peço-lhe um autógrafo e faço-lhe duas ou três perguntas. “Adorei Portugal. Se pudesse, ficava mais tempo”, confessou. Sem ‘gorilas’ a protegê-lo, entra no aeroporto num passo bamboleante, secundado pela banda.
Foi o delírio! Gente incrédula e de olhos brilhantes larga as bagagens para sacar o telemóvel e fazer fotos. Bono acena em todas as direcções e distribui autógrafos nos suportes mais inusitados: um maço de tabaco, uma agenda, uma t-shirt. Quando disse adeus, na porta de embarque, os seus olhos brilhavam igualmente, talvez pelo ‘bichinho’ que move os artistas: o barulho das palmas e o carinho do público.
THE EDGE E A MÃE
Conheci The Edge pessoalmente em Maio de 1993, dias antes da passagem por Lisboa da ‘Zoo TV’. O CM havia sido escolhido para a única entrevista, para Portugal, com o guitarrista, numa altura em que os U2 gravavam, em Dublin, o sucessor de ‘Achtung Baby’, ‘Zooropa’. The Edge fora sempre o meu elemento preferido da banda.
O primeiro encontro na capital irlandesa foi com Paula, membro do ‘staff’ do grupo, e com Adam Clayton (o baixista), de passagem para comer qualquer coisa antes de começar a conversa com João Gobern, meu companheiro de viagem, à data ao serviço do semanário ‘Sete’. Era hora de almoço, e nos estúdios The Factory – a cuja porta ‘acampava’ um grupo de fãs dos U2 e onde um ramo de rosas esperava a chegada de Bono –, The Edge tinha 20 minutos para o CM.
Do encontro, recordo a sua simpatia e amabilidade, a voz calma e pausada, a timidez, e uns curiosos olhos verdes. Bom conversador, ajudou a que a entrevista ultrapassasse o tempo imposto e se prolongasse por quase uma hora. Exactamente até sermos interrompidos pela senhora Evans, mãe de Dave ‘The Edge’ Evans, que vinha buscar o filho para almoçar e foi saudada com um carinhoso ‘Hi mom!’.
A última cena que guardo do momento é The Edge a agarrar a mãe pelo braço, a conduzi-la ao espaço ocupado pela bateria de Larry Mullen Jr. e a dizer-lhe: “Aqui, é o lugar do Larry!”. Fátima Vilas-Bôas
A URGÊNCIA DO ROCK N'ROLL
Os U2 pisaram solo português pela primeira vez em 1982, ano em que por teimosia do espírito visionário do dr. António Barge, Vilar de Mouros voltou a receber um festival internacional. Uma semana inteira de música (31 de Julho a 8 de Agosto), desde a sinfonia (des)concertante do maestro Vitorino d’ Almeida ao rock “estridente”… dos U2. Era assim mesmo que eram tratados os rapazes de Dublin antes do concerto. “Estridentes!”
A 3 de Agosto, numa noite muito fria, os U2 irrompem pelo palco. Nada de estranhar, já que Vilar de Mouros ‘82 foi, de facto, um pouco… anarca. Havia bandas que se perdiam, outras que cancelavam, outras que se atrasavam. Foi o que aconteceu a Johnny Copeland e à sua Chicago Blues Band, o que acabou precipitando a entrada dos U2. Já que lá estavam, evita-se a espera.
E assim chegam os U2 ao palco, depois da abertura estrondosa da Orquestra de Mike Theodorakis, do fado de Carlos do Carmo e do ‘rock português’ (então em alta) dos Jáfumega. ‘Gloria’ foi o tema de abertura e o de despedida. Pelo meio, um dos melhores concertos alguma vez realizados em solo luso. Duas horas de intenso rock n’ roll feitas com apenas dois álbuns: ‘Boy’ e ‘October’. Era ‘estridente’, de facto, mas arrepiante também o rock dos U2, ali debitado com uma inquietante urgência. Como que empenhados em mexer com aquelas almas e não deixar pedra sobre pedra. Bono em especial, completamente alheio ao ‘briol’ que se fazia sentir. Verdadeiro ‘frontman’, ele foi ‘animal de palco’, orador inflamado, trepou ao cimo do P.A., passeou junto do público… encheu o palco. No final foi o último a sair de cena, gritando alto e bom som o seu n.º de telefone em Dublin: “quando lá forem telefonem. Nós somos os U2”. Não o sabia, mas estava ali a última grande banda que o rock n’ roll viu nascer. Luís F. Silva
A TV NO ESTÁDIO
15 de Maio de 1993. Onze anos após a mítica actuação em Vilar de Mouros, os U2 chegavam finalmente a Lisboa, agora ricos, experientes, famosos. Quando as luzes se apagaram e no recinto do velhinho Estádio José de Alvalade começou a ecoar ‘Television, the Drug of the Nation’, dos Disposable Heroes of Hiphoprisy, mais de 50 mil almas despertaram para a emissão portuguesa da ‘ZooTV’, canal de televisão transformado em concerto, alegoria cínica e inebriante à sociedade do espectáculo onde a guerra, a morte e o sofrimento são transmitidos em directo.
Bono Vox, o apresentador de serviço, coordenou a programação, assente em grande parte nos hinos de ‘Achtung Baby’, álbum que marcou em definitivo um novo ciclo na carreira dos U2. Mordaz, desfilou em mais de duas horas de concerto toda a sua classe, todo o seu à-vontade como líder do quarteto de Dublin que escreveu uma página de ouro na história do rock, cantando de forma intensa e emotiva clássicos como ‘Running to Stand Still’, ‘Bad’ e ‘With or Without You’, entre muitos outros.
Entre a parafernália tecnológica de som e luz, a dança dos velhinhos Trabants suspensos no ar e a ida de alguns fãs ao confessionário televisivo – as filmagens decorreram durante essa mesma tarde –, o grupo mostrou uma nova forma de encantar as massas, apoiado num sistema multimédia da última geração.
Nunca antes alguém tinha ousado tamanha proeza, nunca como ali um concerto foi tão diferente. No fim, depois de Bono ter tentado sem sucesso chamar um táxi que o levasse a casa, ficou um estádio inteiro a trautear ‘Can’t Help Falling in Love’. Elvis não estava lá, os U2 também já tinham saído sem que ninguém desse por nada. A transmissão portuguesa da ‘Zooropa Tour’ chegava ao fim, com milhares de (tel)espectadores pregados ao ecrã. Pedro Garcia Neves
NUM MUNDO SEMPRE POP
Quatro anos depois da revolucionária ‘Zooropa’, os U2 voltaram a Alvalade a 11 de Setembro de 1997, com um conceito igualmente inovador e ainda maior arrojo visual. A ‘PopMart Tour’, iniciada nos EUA, nem por isso deslumbrou os norte-americanos, mas a Europa (onde a digressão arrancou a 18 de Julho, em Roterdão) recebeu-os apoteoticamente e compreendeu perfeitamente a ironia do fenómeno ‘Pop’.
Num estádio ‘à cunha’, cerca de 60 mil almas ficaram cilindradas pelo maior ecrã alguma vez visto e um ousado cenário, no qual se destacava um gigantesco arco amarelo (alusão a uma certa cadeia de fast-food), uma azeitona e um limão que serviam de meio de transporte à banda entre os dois palcos.
Ao luxo visual, os U2 juntaram uma mensagem ‘light’ (ou talvez não!). Num misto de ironia e elogio, satirizaram o universo do consumo, apresentando nos ecrãs uma nova teoria da evolução (do homem das cavernas ao homo sapiens de carrinho de supermercado como prolongamento físico), entre outros cliches dos tempos modernos.
Afável e comunicativo, Bono puxou duas meninas da plateia para um pé de dança. No que toca à música, ‘Discotheque’ fez de Alvalade uma gigantesca pista de dança e ‘Staring At The Sun’ soou a épico. Em ‘Karaoke’, The Edge interpretou ‘Sugar Sugar’, dos Archie, acompanhado por uma multidão em delírio. Os velhos temas, como ‘Mysterious Ways’, ‘One’, ou ‘With or Without You’ fizeram, claro, o resto da festa. Vanessa Fidalgo
SABIA QUE...
...BONO É FÃ DE DURÃO BARROSO?
“Ontem encontrei-me com Mr. Barroso e ele mostrou ser um sujeito sensível.” O líder dos U2 comentava assim o seu frente a frente com o ex-primeiroministro português, que no papel de presidente da Comissão Europeia o recebeu de braços abertos em Bruxelas. Ao que tudo indica, e como a foto documenta, foi uma espécie de amor à primeira vista. Bono não passou por Portugal quando Durão estava no Governo.
...A PAISAGEM DAS AZENHAS DO MAR DEIXOU O VOCALISTA MARAVILHADO?
Bono Vox ficou encantado com as Azenhas do Mar. Fonte próxima da banda chegou a adiantar na altura ao ‘Correio da Manhã’ que o carismático vocalista “adorou a aldeia por estar muito bem conservada, e lamentou que na Irlanda as aldeias típicas estivessem a ser destruídas pelo urbanismo.” Afinal, ao contrário do que se diz nem tudo é mau em Portugal.
...A BANDA NÃO RESISTE E QUEIJADAS DE SINTRA?
Habituais nas corridas de toiros, festas de aldeia e outras manifestações populares, as típicas e inigualáveis queijadas de Sintra fizeram as delícias de alguns dos elementos dos U2 aquando da sua última passagem pelo nosso país. Ao que conseguimos apurar, os travesseiros também não são ignorados pelos quatro irlandeses, embora ainda estejamos a tentar descobrir qual deles é o mais guloso.
......BONO QUESTIOUNOU PORTUGUÊS SOBRE A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS?
Aquando de uma estadia no nosso país, Bono Vox indagou um funcionário do requintado Hotel da Lapa, onde pernoitara, sobre como conseguiram os portugueses fazer uma revolução com cravos, sem um brutal derramamento de sangue. É que na Irlanda a guerrilha do IRA ainda estava presente. Uma questão curiosa do autor de ‘Sunday Bloody Sunday’.
...ROBALOS, DOURADAS E CAMARÃO-TIGRE
Em Abril de 2004, data da sessão fotográfica para o álbum ‘How To Dismantle An Atomic Bomb’, a comitiva dos U2 deliciou-se com algumas iguarias típicas da cozinha lusitana. Robalos, douradas, camarões-tigre, feijoada de búzios e alheira de caça estavam entre os pratos pedidos. No grupo houve mesmo alguns vegetarianos que não tocaram na carne ou no peixe. Não deviam ser os quatro famosos irlandeses.
......AO FIM DE 26 ANOS THE EDGE AINDA SE LEMBRA DO VINHO VERDE?
Enquanto os velhotes trabalham de sol a sol para garantir boa vindima, os U2 dão provas de conhecerem a produção vinícola portuguesa. É mesmo verdade, e prova disso ainda há poucos dias o guitarrista The Edge contava ao CM que uma das recordações da passagem pelo Festival de Vilar de Mouros se prendia com o vinho verde, bebido há 26 anos. Será que é isso que ele bebe em vez da Guinness?
A 'Domingo Magazine' mostra-lhe, em exclusivo, as fotos dos primeiros anos do grupo de Dublin.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)