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Correio da Manhã

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Vestidas com a farda da Guarda

Conduzem motas, montam a cavalo, usam armas pesadas, chefiam destacamentos. Na GNR, elas provam que o sexo fraco não existe.
19 de Fevereiro de 2012 às 00:00
Marília Sebastião é marinheira na GNR  há três anos
Marília Sebastião é marinheira na GNR há três anos FOTO: Mariline Alves

Quando chegou à recruta do Exército, em 1994, Ducília Carona fazia figas para não ser reconhecida. Mas foi traída por um reencontro imprevisto – um camarada que fazia também a recruta tinha sido porteiro de hotel e reconheceu a jovem, que, meses antes, fizera parte de uma distinta comitiva que ficara alojada na unidade hoteleira. A palavra espalhou-se rapidamente, estava ali uma das finalistas do concurso Miss Portugal. E assim nasceu a alcunha de ‘Pocahontas’, que ainda hoje se cola ao nome de Ducília. "É engraçado como as coisas acontecem. Quando fui candidata a Miss Portugal, disseram-me que não devia dizer que queria ser polícia ou militar, porque isso era pouco feminino. Quando cheguei ao Exército, essa experiência das misses foi motivo de risota entre os meus camaradas, que me julgavam uma rapariga frágil e sem estaleca para a vida militar."

Mas Ducília depressa se impôs pelos seus dotes atléticos. Afinal, na juventude, foi campeã de atletismo, em provas tão diferentes como os 60 metros ou o salto em altura. "A minha destreza física foi sempre a ‘arma’ que usei para convencer os meus pares de que podia fazer igual ou melhor que eles", conta.

Mulher de armas, esteve oito anos nos Pára-quedistas. Fez missões no Kosovo e em Timor-Leste, em pé de igualdade com os homens. Depois optou pela GNR. "Queria estar mais perto das populações", explica. Na Guarda há oito anos, a militar continuou a quebrar barreiras. "Fui a primeira mulher a fazer a especialidade de Cavalaria em Évora", lembra Ducília, hoje com 36 anos e o posto de cabo.

Colocada depois na Unidade de Segurança e Honras de Estado, começou pelos cavalos de Braço de Prata, mas hoje conduz motas. É estafeta do 2º Esquadrão e, entre outras funções, percorre diariamente cerca de 100 km de mota, a entregar correspondência oficial entre órgãos de Estado. "As pessoas que me vêem no trânsito ficam surpreendidas, até porque na lapela tenho os apelidos Paulo Carona. Até já me perguntaram se mudei de sexo", conta. Ducília não duvida que a GNR só tem a ganhar com a entrada de mais militares femininas: "As mulheres têm uma outra sensibilidade. Conseguem resolver os problemas com que se deparam com outra subtileza."


DO IRAQUE AO TEJO

Acabada a formação em Cavalaria, Marília Sebastião concorreu a uma missão de risco. Em 2004, voluntariou-se para a força policial da GNR que ia ser destacada para o Iraque e, em poucas semanas, estava em Bagdade a fazer patrulhas nos blindados. "Fui para lá porque mereci. Tive de fazer as mesmas provas do que os homens." Desses quatro meses de missão, lembra o ambiente de tensão que se vivia: "Era condutora e apontadora. Felizmente, nunca estive debaixo de fogo, mas o perigo sentia-se a cada esquina. Aprendemos a ler todos os sinais, por exemplo, se não houvesse crianças a brincar na rua, temíamos que algo de grave pudesse acontecer."

Hoje com 31 anos, a guarda admite que sempre se interessou por "actividades tipicamente ligadas aos homens". Depois de voltar do Iraque, passou por várias unidades da Guarda, mas cedo se sentiu atraída pelas lanchas que patrulham a costa portuguesa. Mais uma vez, prestou provas e foi admitida no curso de Marinheiro. Hoje trabalha na Unidade de Controlo Costeiro e não troca a experiência por nada. "Aqui estamos a aprender todos os dias."

CHEFE DE 230 MILITARES

Quando entrou na Academia Militar, em 2002, a intenção de Ana Ribeiro de Oliveira era tirar o curso de Medicina. Rapidamente mudou de ideias. "Percebi que a GNR encaixava melhor com a minha personalidade. No 5º ano já estava a receber formação na Escola Prática, em Queluz. Em Maio de 2008, estreou-se em funções de comando, no Destacamento de Alenquer. Depois passou por Mafra, até chegar a Vila Franca de Xira, onde, desde há três anos, lidera um destacamento com cerca de 230 militares. "É uma grande responsabilidade. Os primeiros tempos foram difíceis. Entrei na altura da greve dos camionistas, em que tivemos de fazer muitas noites seguidas, com várias operações em simultâneo. Mas tive sempre a humildade de pedir conselhos aos guardas mais velhos."


Pelo meio, a tenente de 27 anos casou-se com um militar da GNR e teve uma filha. "A instituição dá boas condições às mulheres para terem filhos. Só é pena que a farda que as grávidas têm de usar seja tão mazinha, parece um uniforme de mecânico", conta entre sorrisos. Ana Oliveira conhece muitas mulheres na GNR que como ela estão a desempenhar funções de chefia. "A GNR mudou muito nos últimos anos e mudou para melhor. As mulheres são parte importante dessa mudança."

MULHER DE FORÇA

Quando os militares da Unidade de Intervenção são chamados ao terreno, é sinal de que se esgotaram todas as possibilidades de conter uma desordem pública pela via pacífica. Equipados com escudos, capacetes e armamento pesado, estes militares têm por missão travar a ameaça rapidamente. Uma missão que a guarda Suse Franco, de 29 anos, prepara com treino físico rigoroso e espírito de equipa.

Na GNR desde 2006, Suse sempre escolheu unidades em que a adrenalina é elevada: "Estive durante dois anos e meio nos GIPS, a unidade que faz o combate a incêndios florestais. Fui uma das primeiras mulheres a pertencer a esta unidade." Depois escolheu o Grupo de Intervenção, com sede no quartel de Sta. Bárbara, em Lisboa, mas apta a intervir em todo o País. "Treinamos todos os dias e só pode estar aqui quem cumpre determinados requisitos físicos."

Com experiência anterior nos Pára-quedistas do Exército, Suse admite que as suas funções a levam a estar mais exposta ao perigo, mas garante que não pensa nisso quando sai em missão: "Não penso nos riscos. Temos o equipamento adequado e a instrução necessária a enfrentar as ameaças", conta. Lembra com orgulho a missão que fez em Timor-Leste: "Sente-se que há um respeito pela GNR que não é igual ao das outras forças da ONU que estão no país." Enquanto se sentir em forma, Suse Franco quer continuar na Unidade de Intervenção. "É uma vocação", explica.


MEMÓRIAS DE INFÂNCIA

Nascida em Alcácer do Sal, uma das memórias de infância que Cidália Varela guarda com mais nitidez é a da presença de tropas especiais na região, quando preparavam uma das missões de manutenção da paz na Bósnia. "Eu ia vê-los todos os dias, até chegaram a fazer-me pinturas de guerra na cara. Decidi que ia ser polícia ou militar", conta a guarda, de 23 anos.

Assume que sempre foi uma Maria-rapaz: "Quando as minhas amigas vinham brincar comigo e traziam as suas Barbies, eu costumava pintá-las com graxa. Não tinha grande jeito para as brincadeiras femininas", conta a militar, que foi campeã regional de natação na juventude.

Quando fez o 12º ano, a GNR foi a opção mais óbvia. Entrou há três anos e esteve sempre em unidades de Cavalaria. A paixão pelos animais remonta também à infância. "O meu pai trabalhava para um senhor que tinha cavalos e comecei a montar muito cedo. Quando entrei na GNR, não tive dúvidas em escolher a Cavalaria."

Colocada no 3º Esquadrão de Cavalaria, em Braço de Prata (Lisboa), Cidália faz patrulhamentos a cavalo na cidade e participa nas cerimónias do render da guarda no Palácio de Belém ou no acompanhamento de chefes de Estado estrangeiros.

Neste momento é a única mulher do 3º Esquadrão a fazer patrulhas a cavalo, mas garante que sempre foi bem acolhida pelos seus pares: "Eles tratam-me sempre bem, porque sou a única a sair com eles para a rua", diz Cidália.

Foi na Guarda que encontrou o namorado com quem vive e ambos fazem planos de se mudar para um posto do Interior do País, onde possam ter uma vida mais calma para constituir família. "Ele também é de Cavalaria, pelo que gostaríamos de estar num posto que tivesse esta especialidade. O meu sonho era poder ter uma casa no campo, com condições para ter cavalos." Quanto à Guarda, tem uma convicção: "Havemos de ter uma mulher a comandar a GNR."


INSTRUÇÃO FEMININA EM PORTALEGRE

Avoz de comando da tenente Rita Batista, de 27 anos, faz-se ouvir na parada, em hora de formatura. A militar da GNR, que comanda uma companhia de instrução no Centro de Formação de Portalegre, decidiu abraçar esta carreira após terminar o 12º ano. Entrou para a Academia Militar em 2002. Antes de chegar a Portalegre, no início de 2012, estava colocada no terceiro Esquadrão da Unidade de Segurança e Honras de Estado, em Lisboa, onde era adjunta do comandante do Esquadrão.

Garante que ser mulher não atrapalha o cumprimento do dever: "Temos de nos fazer valer pelo exemplo. É a primeira experiência na formação e está a ser bastante gratificante. É muito positivo ver a evolução dos alistados." Satisfeita com o seu percurso na Guarda, Rita Batista espera que, no futuro mais próximo, possa ser promovida a capitão. Ambiciona comandar um Esquadrão de Cavalaria.

Menos experiente, mas também com funções de comando de um pelotão de formação em Portalegre, a alferes Cláudia Santos, de 23 anos, diz que a carreira militar a fez abdicar de hábitos típicos de uma jovem da sua idade. Mas nunca se arrependeu. "Os valores da instituição e a disciplina tornam--nos adultos. É uma escola de vida." Entrou para a Academia Militar em 2006. Natural da Guarda, já esteve colocada no Destacamento de Pinhel, onde foi adjunta do comandante.

ADEUS JORNALISMO

Filipa Gonçalves, sargento da GNR de 27 anos, parecia estar destinada a seguir esta vida. É filha e irmã de militares, mas garante que a decisão de concorrer à GNR não teve influência dos familiares. Tanto que ainda ingressou no curso de Jornalismo e Comunicação em Portalegre, mas, ao fim de um ano, deixou a universidade em segundo plano e alistou-se na Guarda. "Acompanhei a experiência do meu irmão na GNR. Quando percebi como era a instrução e esta carreira, senti que devia mudar de caminho, embora o jornalismo também fosse muito aliciante", conta a sargento, que é adjunta da alferes Cláudia Santos.

"Somos duas mulheres a comandar um pelotão, mas não sentimos qualquer diferença em relação aos outros grupos", explica Filipa Gonçalves, que já passou pela Divisão de Comunicação e Relações Públicas enquanto frequentou vários cursos dentro da instituição. As promoções foram acontecendo: "Fui guarda provisório, depois guarda, cabo e agora sargento."


À PROCURA DO SONHO

Rute Lopes, de 20 anos e natural de Évora, e Ana Santos, de 25 e oriunda de Condeixa-a-Nova, integram o mais recente alistamento da GNR. "Inscrevi-me na Universidade de Évora porque não fui chamada da primeira vez que me alistei, mas agora entrei e a mudança de vida é radical", diz Rute Lopes, guarda provisório.

Para Ana Santos, a experiência implica sacrifícios maiores. "Deixei em casa três filhos para vir para a Guarda. Tenho uma bebé de quatro meses e mais dois filhos com quatro e seis anos", explica a formanda, que já esteve no Exército. "Estudei até ao 9º ano. Estive emigrada em França, mas a vida civil não se encaixa na minha personalidade. O meu sonho é que um dia os meus filhos se possam orgulhar de mim."

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