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"Vi os corpos mutilados dos três majores"

Só fui chamado para a tropa aos 21 anos, por causa dos adiamentos. Fiz a recruta em Tavira e, depois, a especialidade de atirador no Regimento de Infantaria de Beja
30 de Março de 2008 às 00:00
'Vi os corpos mutilados dos três majores'
'Vi os corpos mutilados dos três majores' FOTO: DR

Estava no Regimento de Infantaria 3, em Beja, quando fui mobilizado para a Guiné. Tinha sido promovido a furriel. Soube que ia em rendição individual – para o lugar de um camarada morto em combate. Embarquei no navio Uíge, em 22 de Outubro de 1969, com destino a Bissau. Seis dias depois apresentei-me na Companhia de Caçadores 2596, aquartelada no Pelundo, na região central da colónia.

Passei por um momento muito difícil e que ficou para a história da Guerra do Ultramar. Foi o episódio bárbaro e sangrento da morte dos três majores portugueses e de um alferes que os acompanhava. Foram mortos à traição, desarmados, e cortados à catanada por um grupo de guerrilheiros, na zona de Jolmete, relativamente perto do aquartelamento da minha companhia, no Pelundo.

Os três majores (Pereira da Silva, Passos Ramos e Magalhães Osório) tiveram vários encontros com chefes da guerrilha a fim de os convencer a abandonarem a luta. Isto fazia parte de um plano secreto do general Spínola, então comandante-chefe. Soube-se depois que o trabalho dos majores estava a dar resultados. A guerra na Guiné ou acabava ou endurecia.

Na manhã de 20 de Abril de 1970, reparei que dois jipes saíram do quartel para os lados de Jolmete. Eu nem sonhava o que estava a acontecer. Naquelas viaturas, vim a saber, seguiam os três majores, o alferes Mosca e três guias guineenses. Iam para mais um encontro.

Ao fim da tarde, o capitão da companhia quis saber quais eram os pelotões que estavam livres. Estavam dois livres – o primeiro, comandado pelo alferes Francisco, e o quarto, que estava à minha responsabilidade e de um outro furiel, o Carlos Silva. O capitão estava com cara de caso. Informou-nos que os três majores tinham ido de manhã para Jolmete e deviam ter regressado ao Pelundo pela hora do almoço – mas, ao fim do dia, ainda não tinham dado sinais de vida: ou estavam mortos, ou sequestrados. Recebemos ordens para sair imediatamente à procura deles. Já era de noite.

Chamámos o pessoal dos dois pelotões e saímos, bem armados e prontos para a porrada, por volta da meia-noite. Éramos uns 50 homens. Levámos dois guias, o Dibo e o Massabá, guineenses da nossa confiança. À frente, seguia o primeiro pelotão, do alferes Francisco. Depois, iam duas viaturas ‘unimogues’. A fechar a coluna, ia o meu pelotão.

Após umas quatro horas de caminho, já tínhamos percorrido uma dezena de quilómetros, parámos a um sinal dos guias. Eles tinham conseguido ver na escuridão, lá mais à frente, a traseira de um dos jipes que procurávamos. Como era de noite não nos aproximámos do jipe – porque podia estar armadilhado. Só avançámos quando o dia clareou. Aquilo podia ser uma emboscada. Aproximámo-nos com todo o cuidado. Vimos então uma cena macabra – uma tragédia que por mais que me esforce não consigo limpar da cabeça.

Os majores, o alferes e os três guias que os acompanhavam tinham sido barbaramente assassinados. Os corpos estavam horrivelmente mutilados. Apresentavam golpes de catana no pescoço, nos braços e nas pernas – e foram abertos ao meio à catanada. Devem ter sofrido muito. Os cadáveres dos três guias ainda estavam em pior estado: foram cortados aos bocados. Os sete corpos estavam espalhados. Dava a ideia de que tentaram fugir. Partiram desarmados para o encontro. Não tinham maneira de se defenderem. Foram apanhados à traição. Todos eles eram homens valentes.

Recolhemos os corpos, com a ajuda dos nossos guias, e colocámo-los tapados nos ‘unimogues’. Entrámos em contacto com o nosso comandante para lhe dizer o que se passava. Daí a pouco, recebemos ordens para permanecermos no local - porque o nosso general Spínola ia a caminho, de helicóptero, e era preciso assegurar a protecção da zona. Nós não sabíamos se estávamos a ser cercados por uma força de guerrilheiros do PAIGC. Assegurámos um perímetro de segurança. O meu pelotão ficou a proteger uma zona mais afastada. Vi o helicóptero ao longe: aterrou – e descolou momentos depois numa nuvem de pó. Spnínola foi lá. Se os guerrilheiros andavam por perto, e era natural que andassem, não se manifestaram e nem nós os vimos. Nem disparámos um tiro.

Chegámos com os corpos ao quartel de Pelundo em cima da hora do almoço. Acho que nem almocei. Ainda hoje, retenho na memória as imagens horríveis daqueles corpos esquartejados.

Cerca de um ano depois, em Fevereiro de 1971, fui para a Companhia de Caçadores 2614, em Aldeia Formosa, no Sul da Guiné. Fui mandado para o Inferno. Era uma zona muito mais perigosa que o Pelundo. Um soldado do meu pelotão recebeu um telegrama da mulher a dizer que estava com outro. O homem ficou passado dos carretos. Só queria ir para o mato matar toda a gente. Não o deixávamos sair do quartel. Quando saíamos para o mato, ele ficava a fazer trabalho de pedreiro ou de carpinteiro. |

'TODOS OS DIAS ESCREVIA AOS MEUS PAIS' 

Depois da comissão na Guiné, Francisco Rodrigues terminou o curso de regente agrícola. Quando regressou, os pais estavam à espera dele, em Évora, e levaram-no a Fátima. “A minha mãe tinha feito a promessa de me levar a Fátima se voltasse inteiro. Todos os dias, quando estava na Guiné, escrevia uma carta aos meus pais para os tranquilizar. A minha mãe é que passava pior. O meu pai, para a distrair, levava-a a passear a Beja de carro”, recorda Francisco Rodrigues. Casou-se. Tem dois filhos. Divorciou-se há 12 anos. Está reformado. É presidente da assembleia geral da Associação dos Expropriados da Área de Sines.

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