Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
5

Vida velha

‘A vida de outra mulher’ e ‘Arthur Newman’ são dois filmes que abordam o tema da possibilidade de se ter uma segunda oportunidade

22 de Setembro de 2013 às 15:00
As escolhas de, Joana Amaral Dias, A Vida de Outra Mulher , Arthur Newman
As escolhas de, Joana Amaral Dias, A Vida de Outra Mulher , Arthur Newman

A segunda oportunidade. O cinema está repleto deste tema, de Frank Capra a Michel Gondry, passando por Kaurismaki. É natural. Os filmes são eles mesmos uma outra chance para o espectador que, através da tela e por 90 minutos, pode viver uma vida alheia. Mas o cinema da segunda oportunidade nem sempre funciona.

Os filmes

A ideia deste género de filmes consiste em começar de novo, claro, e é o caso de dois filmes em exibição, ‘A vida de outra mulher’ e ‘Arthur Newman’. Em ambos, os protagonistas estão desiludidos com a vida que construíram, com a sua obra, e pretendem alterá-la radicalmente, encontrar a tal segunda chance. No primeiro, a coisa é só patética e sentimentalona com um prazo de quatro dias para a mudança. Pouco mais que o Carnaval. No segundo, a opção é a fuga da vida velha. Depois desiste-se de fugir e acaba o filme, sem que nunca se chegue a perceber o que teria de acontecer para que a tal modificação profunda chegasse a bom porto. 

Scott Fitzgerald afirmou que “não há segundos atos na vida americana”. Possivelmente, o escritor referia-se ao teatro, no qual o primeiro ato apresenta o drama, no segundo surgem dificuldades adicionais e no terceiro se resolvem os conflitos. Ou seja, talvez o que Fitzgerald estivesse a dizer é que a sociedade pouco representa esse momento em que o protagonista realmente se debate com obstáculos e que, afinal, é a maior parte das nossas vidas. Não haver segundos atos é como se a sociedade preferisse eclipsar a luta que é estar vivo, escondê-la, estimulando a alienação e o corta-mato para a solução ou o desfecho, vendendo a vida como um lugar simples, fácil, liso e sem espinhas. É como se “a vida americana” estivesse cheia de segundas oportunidades e poucos segundos atos. Muito sonho e pouco real.

A questão, evidentemente, é que uma verdadeira mudança nunca é instantânea ou do tipo fuga em frente, nunca tem resoluções prematuras nem atalhos. E, realmente, nunca se começa de novo, sem bagagem, sem memórias, sem passado. No limite, nunca se começa. Na melhor das hipóteses, recomeça-se e volta-se a recomeçar. A fantasia quase universal de abandonar tudo e começar de novo ou de mudar num piscar de olhos é apenas isso mesmo, uma fantasia. Quando se nasce, a vida já é velha, já vem com uma história, com um património, que se adensa e multiplica cada dia e cada ano. Vestir outra pele, a tábua rasa
ou o começar de novo, novo em folha, podem ser muito apelativos e sedutores. Afinal, dá muito mais trabalho consertar, emendar, reparar, restaurar, reformular. Mas também dá muitos melhores filmes.

Título ‘A Vida de Outra Mulher’
Realizador Sylvie Testud
Intérpretes Juliette Binoche, Mathieu Kassovitz, Aure Atika

Título ‘Arthur Newman’  
Realizador:  Dante Ariola
Intérpretes Colin Firth, Emily Blunt, Anne Heche, Sterling Beaumon

Ambos em exibição nos cinemas    

 

 

 

 

 

Exposição

‘Trienal de Arquitetura de Lisboa’

Este ano a trienal é uma experiência. O público pode ver uma fanzine gigante, andar de lanterna e encontrar florestas ou a cidade do futuro, participar em debates, jantar ou até ser expulso por um quarto.       

Trienal de Arquitetura de Lisboa, até 15 de dezembro, no Palácio Sinel de Cordes, Museu da Electricidade e outros espaços da cidade
+ info trienaldelisboa.com/pt/

 

Evento

‘Lisbon Week’

Pois é. Parece que Lisboa nunca acaba. Há sempre mais Lisboa e depois a outra Lisboa. A ‘Lisbon Week’ leva o público pela cidade, mostra-lhe a antiga e a contemporânea, o evidente e o escondido, a arte e a natureza. A maioria dos eventos são gratuitos. 

Evento criado pela Actu (Associação Cultural Turística e Urbana) e realizado pela XN Brand Dynamics em coprodução com a Câmara de Lisboa.

+ Info lisbonweek.com/pt 

 

 

Exposição

‘Aparências Privadas. Auto-Retratos de Artistas Contemporâneos’

Há muito que o autorretrato ocupa um lugar na pintura e nem é preciso voltar a Rembrandt, basta pensar em Boltanski, Cindy Sherman ou Basquiat. Esta exposição explora-o, bem como aos temas da identidade, do duplo, do narcisismo e da imortalidade.

Local: Fundação Arpad Szenes Vieira da Silva, Lisboa

 

Fugir de

‘Dá e leva’

Baseado numa história real, em que um trio de treinadores de ginásio (nos anos 90 não existiam personal trainers e ainda se fazia jogging e não running) rapta um cliente por dinheiro, podia ser uma boa comédia negra sobre a sede de êxito instantâneo e a charlatanice. Infelizmente, o filme não consegue quebrar a fina camada de gelo que esconde 99% do iceberg, ficando-se pela superfície, sempre a patinar.

Realizador Michael Bay 

As escolhas de Joana Amaral Dias A Vida de Outra Mulher Arthur Newman
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)