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Vidas em suspenso

A fé, diz-se, move montanhas. É dela que se alimentam muitos casais, que a infertilidade impediu de ter filhos. Esquecidos pelo Estado, que lhes recusa apoio, lutam sós para concretizar um sonho.
16 de Abril de 2006 às 00:00
Vidas em suspenso
Vidas em suspenso FOTO: Ricardo Cabral
Aos 32 anos, Filipa ainda não cortou a meta na maratona da infertilidade. Já lá vão quatro anos desde o momento em que decidiu ter um filho, mas o que pensava ser um presente da mãe natureza revelou-se um percurso difícil de percorrer. Não foram, no entanto, os muitos baixos que a fizeram desistir. “Sei que o meu dia vai chegar”, confirma, com a mesma certeza que a leva a continuar a tentar. Sempre. Até conseguir o que quer: um filho.
No longo currículo de tratamentos conta com sete estimulações ováricas, quatro inseminações artificiais, duas fertilizações in vitro, três intervenções cirúrgicas e quatro transferências de embriões congelados. A caminho de mais uma, a quinta, contabiliza até agora gastos na ordem dos 50 mil euros, uma pequena fortuna, mas nada comparada com a riqueza maior que é poder vir a ser mãe.
Em Portugal, estima-se que 500 mil casais sofram com problemas de infertilidade, com 12 mil novos casos todos os anos. Números que, durante muito tempo, foram insuficientes para dar ao problema visibilidade suficiente para integrar a agenda política. O que se tem traduzido numa falta de apoios. Filipa sabe bem o que é lutar sem eles. Sabe o que significa ter que gastar do seu bolso, com pouco ou nada a merecer comparticipação estatal. Por isso, escolheu o privado, recusando, como tantos outros sem alternativa, ser mais um nome na longa lista de espera dos hospitais públicos. Um sacrifício que nem todos podem fazer.
Ser mãe era um sonho antigo, e ter cinco filhos a meta a atingir. Por isso, Joana não quis adiar para mais tarde a maternidade. Começou a tentar engravidar aos 28 anos, logo após ter dito o sim no altar. “Pensei que ia ser fácil e não achava nada normal que ao fim de cinco meses não estivesse grávida.” Mas foi isso que aconteceu. E porque a cegonha tardava a chegar, acabou por ser encaminhada para uma consulta de infertilidade.
À sua espera tinha uma longa lista de exames, caminho para encontrar um nome e a solução para o problema. O nome chegou: infertilidade. Mas não havia magia capaz de concretizar o sonho de há muito. A receita era... tentar. Ao diagnóstico, seguiram-se os tratamentos, que se repetiram numa espiral de esperança, ansiedade e desilusão. Foi assim durante três anos após o diagnóstico. Ao todo, 14 tentativas traduziram-se em gastos na ordem dos 40 mil euros. “Chega-se a um ponto que já não se tem vida própria, que ela se resume ao objectivo definido: ter um filho”, refere. Um “carrossel emocional” que deixa marcas.
“Depressões graves, comportamentos anti-sociais, dificuldades sérias no relacionamento conjugal, são problemas que podem surgir. Mas há pessoas que enfrentam a situação sozinhas e que conseguem encontrar forças onde não pensavam existir”, explica Conceição Faria, psicóloga especialista na área da infertilidade.
Joana confirma que os tratamentos se tornam um ciclo vicioso. “Acreditávamos que bastava mais um tratamento e ficávamos grávidos. E as pessoas não têm noção do drama. É um problema que envolve o casal, com horas marcadas para ter relações sexuais; envolve o trabalho, com faltas sucessivas para fazer os tratamentos; envolve a família...”
Reabilitar a relação conjugal e a vida social é, por isso, tarefa essencial. “Não poder ter um filho é um sofrimento muito grande, mas o casal tem que aprender a viver com a ideia que pode nunca conseguir. É fundamental que percebam que desejar ter filhos não é a mesma coisa que não conseguir viver sem eles.”
Segundo a especialista, o apoio psicológico é importante, às vezes antes mesmo dos casais se aperceberem que precisam dele. Partilhar é também palavra de ordem. “Falar sobre o assunto, conhecer outros que passaram pelo mesmo, ajuda muito.”
Ter voz quando o silêncio é a tónica dominante é o objectivo de um grupo de mulheres unidas por uma causa. Foi através da internet que se conheceram e através dela que decidiram fazer ouvir o sofrimento dos que fazem tudo para ter um filho.
Os encontros para lá do ecrã deram os seus frutos e o mesmo grupo prepara-se agora para criar a Associação Portuguesa de Infertilidade (API). “O problema que as pessoas com esta doença têm que enfrentar é grande”, explica Cláudia Vieira, uma das responsáveis pela futura API.” Os custos associados aos tratamentos e a dificuldade de aceder a eles através dos hospitais públicos, onde as listas de espera podem chegar aos três anos, tornam urgente que se faça algo.”
A questão monetária é determinante e pode fazer a diferença entre engravidar ou adiar para sempre o sonho. “Mesmo no serviço público, só em medicamentos gastam-se 600 a mil euros em duas ou três caixinhas de injecções. Estamos a falar de um tratamento e as taxas de sucesso à primeira são muito baixas, o que obriga a várias outras tentativas. Há pessoas a endividarem-se e a vender tudo o que têm.”
Mudar a realidade é o que pretende a associação. “A ideia é promover grupos de ajuda, dar informação técnica e, quem sabe, no futuro, contribuir para que possam, pelo menos, fazer uma tentativa. No fundo, queremos que a infertilidade deixe de ser um tabu.”
A esperança foi a última a morrer em Joana. Quando, há cinco meses e meio, abriu o envelope que continha o resultado das últimas análises, confessa que o “chão lhe fugiu debaixo dos pés.” Estava grávida. “Fiquei eufórica. Para mim, o Mundo deixou de existir.”
TAXAS DE INFERTILIDADE ESTÃO A AUMENTAR
Dizem as estatísticas que as taxas de infertilidade estão a aumentar em todo o Mundo. Um problema que continua a passar despercebido aos governantes nacionais. Por isso, está disponível na internet uma petição para sensibilizar para o problema. Para assinar, basta aceder a www.ipetitions.com/petition/unidasporumacausa.
15% É esta a percentagem de casais portugueses que não conseguem conceber
12 meses Um casal é infértil quando não conseguiu conceber depois de um ano a tentar, sem protecção
27% das inseminações artificiais em Portugal resultam numa gravidez. As restantes falham
40% dos casos de infertilidade têm origem masculina. Em 20%, o motivo não tem explicação
SER OPTIMISTA
Procurar culpados ou negar a existência do problema não contribui para a sua resolução. Siga os conselhos de quem sabe e procure encarar a vida de outra forma.
A: ESTAR ATENTO
A infertilidade é uma área da Medicina em constante evolução. Por isso, o casal deve procurar manter-se atento às novidades e, acima de tudo, não ter receio ou vergonha de perguntar ao médico especialista e esclarecer todas as dúvidas que permitam fazer as escolhas mais acertadas.
B: EVITAR A CULPA
Apontar o dedo e tentar encontrar culpados não vai ajudar a resolver o problema da infertilidade. O pensamento do casal deve ser sempre direccionado para o futuro, para aquilo que pode ser feito, em vez de se pensar no que ficou por fazer. Olhar para a frente e não para trás é o caminho.
C: A FORÇA DO OPTIMISMO
A infertilidade é um problema difícil e, como tal, não deve ser negado. E para o conseguir resolver, nada melhor, dizem os especialistas, que uma boa dose de optimismo, arma importante para enfrentar a crise. Isto sem, no entanto, deixar de parte o realismo, para prevenir maiores decepções.
D: CONSCIÊNCIA DO PROBLEMA
Para que o tratamento não se torne a razão de viver do casal, os especialistas aconselham a fazer um esforço para manter algumas rotinas diárias, como fazer exercício físico, ir às compras, sair com os amigos, que permitem criar alguma distância do problema e mantê-lo em perspectiva.
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