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Correio da Manhã

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Vidas interrompidas

Já passaram cinco meses da morte dos dois polícias na Amadora, mas para as famílias Abrantes e Alves foi ontem. As lágrimas não secaram. Todos vivem só para chorá-los. E nem o anúncio do início do julgamento, em Outubro, traz alento. “Não há justiça que traga um filho de volta”.
14 de Agosto de 2005 às 14:27
Apesar de separadas por 250 quilómetros, as famílias Alves e Abrantes ficaram com os corações desfeitos no mesmo local: às portas do bairro Santa Filomena, na Amadora. Foi aqui que o agente Alves, natural de Gondomar, e o agente Abrantes, nascido e criado na Guarda, tombaram no chão, mortos a tiro por um criminoso. Foi também aqui, bem longe da terra onde nasceram, que o sonho de ser polícia e servir a comunidade se desvaneceu. Os dois polícias morreram. Morreu também a alegria dos seus familiares.
Maria José Abrantes tem 54 anos, mas no seu olhar pesam muitos anos mais. Nos últimos cinco meses emagreceu quinze quilos. Começou a perdê-los na madrugada do dia 20 de Março, quando acordou com um polícia a tocar-lhe à porta. A farda era igual à do filho, há sete anos na PSP. Mas a notícia que aquele homem trazia, em nada se comparava à alegria que via em António Abrantes. Era a notícia de que o seu filho tinha sido morto, que nunca mais o ia ver. “Naquele dia, a vida deixou de fazer sentido.”
Na noite do ‘Dia do Pai’, Maria José rezou um terço antes de se deitar. Ainda hoje o faz, mas naquela altura pedia a Deus que lhe protegesse o filho, que se encontrava longe do seu colo ao serviço da comunidade. As preces não lhe valeram. Dizem-lhe os amigos que Deus só leva “as pessoas boas”. “Então que Abrantes fosse mau e estivesse aqui ao meu lado”, desabafa com os olhos embaciados.
Mãe de duas mulheres já feitas, irmãs de António Abrantes, Maria José veste-se de negro da cabeça aos pés desde o dia em que soube que nunca mais ia ouvir as gargalhadas do filho. A sua vida tornou-se vazia. Nem a neta ou os sobrinhos parecem arrancar-lhe um sorriso. Agora, os dias, passa-os no cemitério da Guarda. É lá que se sente bem, a rezar pela alma do seu ‘menino’.
A VIDA NUM CEMITÉRIO
Carlos Abrantes, homem forte que lutou na Guerra do Ultramar, em Moçambique, perdeu a garra de combatente. Aos 54 anos esconde-se num silêncio aterrador. Ninguém consegue ouvir nada daquela boca. Só os gritos de revolta e de dor. Ficou sem o seu homem. Ficou sem o seu polícia. A sua vida acabou.
Os pais de António acordam todos os dias sem o querer. Dormem sob efeito de medicamentos antidepressivos e não conseguem ter força para seguir com a vida em frente. As irmãs de António, Susana e Cláudia, de 34 e 33 anos, também estão todas vestidas de preto. O sentimento que partilham não permite cores alegres. Cláudia deixou de trabalhar para cuidar dos pais. “Comerem ou não, é-lhes igual. Agora só vivem para o cemitério.”
A irmã, Susana, é professora e mãe de uma menina de quatro anos, a Beatriz. Todas as noites, quando a pequena vê uma estrela no céu, diz que é o tio Tony a dizer-lhe adeus. Ela ainda o conheceu. Mas o bebé com oito meses de gestação na barriga de Susana, já não o vai conhecer. Nem tão-pouco tê--lo como padrinho, como era desejo da família.
A criança vai ter apenas o seu nome: António Carlos. E vai poder apenas ouvir as suas histórias e ver as suas fotografias por toda a casa dos avós. É que o último andar do prédio da Avenida Duque de Bragança, na Guarda, é um autêntico santuário. Em todos os cantos há uma fotografia de Abrantes, em todas as mesas há flores frescas em sua memória. “Ele agora é o meu Santo, é o meu Deus”, diz a mãe inconformada.
O quarto de António tem a porta fechada. Lá dentro estão trancadas todas as suas recordações. A farda e o boné da PSP estão estendidos em cima da cama. No chão, a bola de futebol, o skate, a mochila da escola. Nas prateleiras, os versos a si dedicados, as fotografias de um casamento de três anos e os cartões de identificação. “Fi--lo em homenagem ao meu filho”, diz Maria José, enquanto passa a mão por cima da placa com o nome ‘Abrantes’.
VOLTAR AO BANCO DO JARDIM
O sofrimento da família Abrantes é o mesmo que todos os dias atormenta os corações da família Alves, em Gondomar. A visita diária ao cemitério de Baguim do Monte, em Rio Tinto, as fotografias, o quarto do polícia de 23 anos, tudo se mantém.
Os lábios de Patrícia Mendes, de 19 anos, tremem cada vez que têm de soletrar o nome de Paulo Alves. A namorada do jovem polícia olha para o vazio e tenta controlar as lágrimas que teimam em saltar. Contém-se, suspira e deita cá para fora o que nunca contou a estranhos: vai ser polícia para continuar o trabalho de Paulo.
O sonho de ser polícia nasceu ao mesmo tempo do sonho do namorado. Só que ele concretizou-o mais depressa por ser mais velho. Após um curso profissional de design e um trabalho onde o ordenado não excedia os 350 euros, Paulo Alves inscreveu-se na Escola Prática da PSP. Fez os testes e passou. Com 19 anos, arrumou as malas, despediu-se e rumou para Lisboa, em busca de uma vida melhor.
Em Rio Tinto, concelho de Gondomar, deixou os pais, os quatro irmãos e a namorada. Tinha de ajudar a família e, para isso, escolheu servir a comunidade. Paulo começa a ser tratado por agente Alves por altura do Euro 2004, quando termina o curso. É colocado na Divisão da PSP de Cascais, mas o seu sonho ainda não estava completamente concretizado. A sua escolha era outra: trabalhar na Divisão da Amadora. “A colocação foi fácil, ninguém queria ir para ali”, diz a irmã de 31 anos, Sandra Alves. Em Outubro, o agente Alves estreia-se na Esquadra da Mina, da Divisão da PSP da Amadora. Pensa que vai lá ficar cinco anos, o tempo que o contrato estipulou.
“Ele dizia que quem era bom polícia na Amadora, seria um bom polícia em qualquer lado”, recorda Patrícia, enquanto cruza os dedos para disfarçar o nervosismo. As suas palavras custam a sair. Está sentada no banco de um jardim onde, outrora, esteve de mãos dadas com Paulo. As recordações estão por todo o lado. Ambos nasceram no bairro Vale de Ferreiros e ali passaram a infância e a paixão de três anos.
Também foi naquele jardim que Patrícia ouviu muitas das histórias que o agente Alves trouxe dos primeiros meses de trabalho. “Ele dizia que aquilo era horrível. Que a partir das 19h00 ninguém saía de casa, com medo. Que os carros eram roubados e vandalizados. Que as próprias patrulhas eram apedrejadas.”
Ainda assim, Patrícia esboça um sorriso forçado. É que o tom com que o namorado contava as histórias não era crítico, muito menos medroso. “Ele contava tudo com uma enorme satisfação, porque era aquele o trabalho com que sonhava. Contava tudo sempre a sorrir. Como se de uma aventura se tratasse. E eu e os amigos passávamos as noites a ouvi-lo”, conta Patrícia.
O HOMEM DA CASA
No dia 17 de Fevereiro, Patrícia vai trabalhar e ouve da amiga que um agente da PSP tinha sido morto na Cova da Moura. “Não é lá que está o teu namorado?”, perguntou-lhe. A jovem não se preocupou, tinha acabado de falar com o namorado. Aliás, ele mandava-lhe sempre uma mensagem via telemóvel para avisar que estava tudo bem. E assim o tinha feito.
Hoje, Patrícia continua à espera da mensagem que não lhe foi enviada no dia 20 de Março. Dia em que a sua vida e os planos com Paulo mudaram para sempre.
Nessa noite, Ana Maria Azevedo, de 46 anos, acordou sobressaltada na sua casa em Rio Tinto. Viu Paulo Alves crescer e partilhar uma grande amizade com o filho Ricardo, de 20 anos. “Andavam sempre juntos de um lado para o outro.” Ana Maria abriu a janela do quarto e viu um grande aparato policial à porta de Rosa e Fernando Alves, os pais do jovem agente. O seu coração apertou-se. Só que preferiu pensar que Paulo estava a chegar com os colegas. O pensamento, mesmo assim, não a descansou. “Pedi ao meu marido, que ia trabalhar, para ver o que se estava a passar”, recorda. A resposta ao sobressalto está ainda hoje gravada na sua memória. “Aconteceu alguma coisa ao Paulo?”, perguntou. “Sim, aconteceu”, respondeu o psicólogo da PSP. Não foram precisas mais palavras do que aquelas que Patrícia recebeu por telefone, quando esperava um sms de boas notícias.
NAMORO SEM FIM
Naquela noite, a dor entrou na casa de Rosa e de Fernando e por lá ficou. Sara, a irmã de 12 anos de Paulo Alves, pontapeou um polícia em desespero dizendo que lhe tinham roubado o irmão. Samuel, o irmão mais novo, de apenas 10 anos, não pôde acreditar que não ia mais saltar para o colo do seu ídolo. A palavra desespero tornou-se insuficiente para exprimir o sentimento daquela família.
“Ele era uma pessoa muito querida por todos. Sempre alegre e a dizer piadas. Era muito amigo da família, enchia aquela casa de alegria”, lembra Ana Maria. Sandra, funcionária administrativa, diz que a família só foi acompanhada por psicólogos até ao funeral. Mas não se importa. “Os principais psicólogos são aqueles que o conheceram e que nos acompanham todos os dias”, diz a irmã do agente. Os últimos cinco meses têm-se desdobrado por mais tempo, e por mais passatempos.
A família Alves procura estar sempre ocupada e aproveitar cada momento. Não se podem ir abaixo, têm de pensar em Sara e no Samuel, os mais novos.
Patrícia, empregada numa loja de roupa de um centro comercial do Porto, não acredita que Paulo não vai voltar. Prefere apoiar-se no sentimento de que ele está ausente temporariamente. Quando se deita, chora. Sente a sua falta. “Nós não acabámos. Apenas nos roubaram algo.” Sabe que os seus 19 anos ainda lhe reservam muita vida. Mas agora a ferida que se lhe abriu no coração ainda não está cicatrizada. E tão depressa não estará.
Arrepiada por ver um carro-patrulha da PSP passar, Sandra Alves afirma que o irmão “ficará sempre como um exemplo. Será sempre falado e recordado”.
Na casa da família Alves, apesar de se manter tudo igual, o dinheiro é contado ao tostão. Fernando está de baixa psicológica há três anos e não trabalha. O único rendimento é o de Rosa, auxiliar numa escola secundária da zona. As duas irmãs mais velhas já seguiram a sua vida. Ajudam como podem. Paulo era o Homem da casa.
Apesar de ainda não ter sido notificada para o julgamento de Marcos, a família Alves está surpreendida com a rapidez de todo o processo. “Queremos que se faça justiça. Mas também não é o julgamento que nos vai trazer o Paulo de volta”, diz Sandra.
DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS
O luso-brasileiro Marcos Fernandes, preso em Março, por suspeita de assassínio de dois agentes da PSP no Bairro de Santa Filomena, Amadora, irá a julgamento já em Outubro. Um recorde absoluto em investigações da Polícia Judiciária. Mais lento está o andamento do caso de Luís Santos, o ‘Rasta’, principal suspeito do homicídio do agente da PSP Ireneu Diniz, em Fevereiro, na Cova da Moura. Ainda não há julgamento à vista.
“Não acredito que haja prioridades diferentes”, defende o criminologista Barra da Costa. “O desfecho num caso de homicídio está relacionado com a qualidade das provas obtidas logo no início da investigação.
Os primeiros três, quatro dias são fundamentais. Se depois dessa altura não houver resultados imediatos, as hipóteses de sucesso tornam-se diminutas.” Marcos Fernandes foi preso poucos dias depois do crime em Santa Filomena.
O mesmo não aconteceu com Luís Santos, que esteve foragido mais de um mês. Em Maio, durante uma cerimónia de beneficência à família do agente Ireneu Diniz, o Governador Civil de Braga, Jorge Gomes, garantiu que o próximo Conselho de Ministros deverá estender o direito à indemnização e à pensão de sangue às famílias dos agentes mortos em serviço – quer eles sejam casados ou solteiros.
A lei em vigor apenas abrange viúvas e filhos. A nova lei terá efeitos retroactivos desde Janeiro de 2005 e contemplará as famílias dos agentes assassinados desde então.
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