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VIDAS: SALVOS PELO TRABALHO

Há pessoas para quem o trabalho tem uma importância vital. Se não fossem os seus empregos, talvez elas sucumbissem à morte, à perda, à solidão ou à rotina dos dias.
27 de Abril de 2003 às 00:00
Sérgio V. garante ter “uma vida nova” desde que recebeu a sua primeira proposta de trabalho. O matemático de 30 anos até sabe de cor a data do convite da empresa de consultadoria: 19 de Junho de 1998. Talvez porque três dias antes havia perdido a mãe, que sofria de doença prolongada. “Foram tempos bastante difíceis”, desabafa. Sérgio questionou-se sobre o seu futuro. Havia acabado o curso e não tinha trabalho em vista. 72 horas mais tarde, tudo mudava com um telefonema. “Foi uma surpresa, até porque as entrevistas não me tinham corrido de feição. Aceitei o emprego na hora!”. Cinco anos depois, Sérgio confessa que aquela proposta terá sido a sua salvação. “Permitiu-me desfocar da dor”.
O PC DE TERESA
“Quando se trabalha esquece-se de tudo o resto”. Quem o afirma com uma convicção feroz é Teresa Sousa, 33 anos. Há dez anos, um acidente de viação atirou-a para uma cadeira-
-de-rodas. Apesar da deficiência, Teresa manteve-se à tona com um trabalho administrativo numa firma de contabilidade. “Há o preconceito de que um deficiente é um incapaz. Mas a componente mental está activa a cem por cento.” Apesar da sua grande limitação nas mãos, Teresa talvez domine tão bem um computador como um ‘hacker’ universitário. “Com um PC vamos até ao fim do mundo”, disserta. O controlo de facturas ou o processamento de texto não a aborrece. Pelo contrário. “Adoro o que faço. Não sei o que seria hoje sem o meu emprego.”
LIVRE E INDEPENDENTE
Telma Oliveira, de 25 anos, também está apaixonada… Pelo trabalho. Há dois anos, a sua vida desabava como um castelo de cartas. O casamento estagnara e o emprego de quatro anos na biblioteca estava por um fio. “Queriam reduzir o meu salário em 200 euros”, conta. Em poucos meses, pediu o divórcio e procurou um novo emprego. “Fiquei em pânico porque julgava que não sabia fazer mais nada.” Pura ilusão. No início de 2002, a pacata bibliotecária que entrava às nove e saía às cinco, transformou-se numa dinâmica vendedora de serviços de limpeza. “Hoje, tenho uma vida bastante agitada: telefono a clientes, apresento orçamentos, viajo para todo o lado…”, declara num ritmo acelerado. Diferenças entre a Telma de 2001 e 2003? “Antes vivia numa concha e dependia de outros. Hoje, sou uma mulher independente e pago as minhas contas”, anuncia com um sorriso de felicidade.
CORRIDAS COM BARREIRAS
António Fortunato também sorri. Sentado numa das salas da sua empresa de colchões, o torreense conta como sobreviveu à perda do pai. “A correr”, sussurra. Tinha apenas 16 anos quando viu o progenitor partir sem avisar. Para esquecer as mágoas, dedicou-se ao atletismo, nas escolas do Sporting. Teve a sua primeira coroa de glória numa prova de estafetas, no estádio das Antas, no Porto, em 1962. Ao cair da noite, telefonou à mãe a anunciar o feito. “Ela, que tivera aquele desgosto, chorou, orgulhosa, ao ouvir--me dizer que era pela primeira vez campeão de Portugal!’” Durante o resto da carreira, António Fortunato teve outros momentos altos, mas acabou por não se dedicar profissionalmente ao desporto. Sem o progenitor a sustentar a família, foi obrigado a trabalhar ainda jovem. E só treinava quando podia. Aos 56 anos, continua a correr pelos veteranos da selecção nacional e a coleccionar vitórias pelos quatro cantos do globo.
APRENDER O BÊ-Á-BÁ
Cristina Cachucho, de 34 anos é menos viajada. A vida de mãe não lhe permite grandes devaneios. Aos 26 anos, depois de ter dado à luz o Rodrigo, foi obrigada a ficar em casa a tomar conta dos filhos. “Ser doméstica numa idade tão nova era frustrante”, recorda. Os anos foram passando e a sua vida rotineira teimava em não mudar. “Às vezes, para variar, vestia o fato de treino e ia ao café. Noutras, ficava a ver TV.” O seu grande sonho era o de tomar conta de crianças, num jardim-escola, mas a falta de experiência e habilitações não lhe acalentavam esperanças. “Ao fim de cinco anos desesperantes, recebi um convite de uma amiga para trabalhar como auxiliar de educação”, afirma. De lá para cá, tem aprendido com os mais novos o bê-á-bá da sua profissão.
“Sou uma outra pessoa!”
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