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Correio da Manhã

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Virginia Montsol e Portugal

‘A Inglesa e o Marialva’ é um livro literariamente belo e historicamente importante.
João Pereira Coutinho 19 de Maio de 2019 às 08:00

O nome é Virginia Montsol. Só os aficionados das touradas o reconhecem. Na década de 1960, aqui aterrou, em busca de um professor que a ensinasse. A quê? A tourear a cavalo e, proeza dupla, ou talvez tripla, a ser aceite pela sociedade fechada: a sociedade portuguesa e, dentro desta, a sociedade ainda mais fechada das grandes famílias tauromáquicas.

Eis, em resumo, a história que Clara Macedo Cabral nos oferece em ‘A Inglesa e o Marialva’, um livro que é, ao mesmo tempo, literariamente belo e historicamente importante.

Comecemos pela história. A Segunda Guerra trouxe um rasto de destruição à Europa e à Grã-Bretanha. Mas ao abalar a sociedade inglesa de forma profunda, cultivou nos filhos do pós-guerra um desejo de realização e liberdade com que os seus pais nunca sonharam. Virginia é um exemplo: cavaleira exímia, tomou-se de amores pela tourada. E, sozinha, partiu para Portugal, para aprender a arte.

O país que encontrou era o avesso da sua Inglaterra: autoritário, de uma rigidez social quase absoluta. E pobre, muito pobre. Isso é sobretudo visível nas descrições quotidianas que pontuam o livro, quando casas, refeições, trajes ou comportamentos (entre os sexos ou entre as mulheres) nos parecem (quase) medievais.

Porém, no meio desse cenário desolado, Virginia encontrou o seu mestre (o cavaleiro Alberto Luís Lopes, o marialva do título) e, no mestre, o amor de uma vida. Para além do triunfo na arena, claro.

Clara Macedo Cabral reconstrói esse período com um rigor que já seria de louvar. Mas a autora vai mais longe, intercalando com subtileza romanesca dois tempos que são espelho e eco um do outro: o Portugal da década de 60, na juventude de Virginia; e a Inglaterra dos anos 80 e 90, quando Virginia, gradualmente incapacitada pela doença, recorda os tempos portugueses, a vida que teve – e a vida que não teve.

Depois de terminar o livro, só um pensamento me ocorreu: para quando o filme? Para quando a série?

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