Virginia Woolf contada por ela própria

Depois da publicação no ano passado do diário da escritora, escrito entre 1915 e 1926, sai o segundo e derradeiro volume relativo ao período entre 1927 e 1941
Por Fernanda Cachão|14.01.19
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Os primeiros onze anos do diário mostram o quotidiano da jovem Virginia, marcado pela Grande Guerra – entre 1914 e 1918 –, as mudanças políticas, as perdas pessoais e a doença mental, mas também a escrita, sempre a escrita. Neste segundo volume, novamente publicado pela Bertrand Editora, reúnem-se os registos da escritora prolixa mas doente, e mais uma vez as impressões da guerra, a de 1939-45, que já não viu chegar ao fim. Suicidou-se no rio Ouse, aos 59 anos. São excertos do ano 1941, o último, incluído neste segundo volume, que se pré-publica a seguir:

(...)

Quarta-feira, 11 de setembro

Churchill acabou agora de falar. Um discurso claro, comedido, robusto. Diz que se prepara uma invasão. Se acontecer, será nas próximas duas semanas. Barcos e barcaças aglomeram-se nos portos franceses. O bombardeamento de Londres prepara, evidentemente, a invasão. A nossa corajosa cidade — etc., o que me comove, porque para mim Londres é majestosa. A nossa coragem, etc. Outro ataque aéreo a Londres ontem à noite. Uma bomba-relógio atingiu o Palácio. O John telefonou. Esteve em Mecklenburgh Square na noite do ataque. Quer que retiremos de lá a editora imediatamente. O L. vai lá na sexta-feira. As nossas janelas estão partidas, diz o John. Ele agora está alojado não sei onde. Mecklenburgh Square foi evacuada. Um avião foi abatido diante dos nossos olhos um pouco antes do chá: sobre o hipódromo [de Lewes]; uma escaramuça; um desvio; um deles mergulhou depois; e um espesso rolo de fumo negro. O Percy diz que o piloto saltou de paraquedas.

(...)

Sexta-feira, 29 de novembro

Muitos, muitos pensamentos profundos me visitaram. E fugiram. A pena quis apanhá-los; eles viram-lhe a sombra e escaparam. Estava a pensar em vampiros. Sanguessugas. Quem tiver quinhentas libras e instrução superior é imediatamente chupado pelas sanguessugas. Eu e o L. estamos num charco que é Rodmell, e elas bebem-nos o sangue, bebem-nos todo o sangue. Eu percebo as razões dos que sugam o dinheiro dos outros. Mas a vida — as ideias — é de mais. Trocámos os intelectuais pelos simples. E os simples invejam a nossa vida.

(...)

Quinta-feira, 19 de dezembro

1940 está sem dúvida a chegar ao fim. O dia mais curto do ano irá chegar esta semana: depois os dias alongam-se. Seria interessante tomar o dia de hoje, quinta-feira, como exemplo e dizer exatamente que alterações a guerra introduziu nele. Altera-o quando resolvo o que há de ser o jantar. A nossa ração de margarina é tão escassa que não consigo pensar em outro pudim que não seja de leite. Não temos açúcar para fazer uma sobremesa: não há folhados, a menos que os compre já feitos. As lojas só se enchem ao meio-dia. Fazem-se depressa as compras. Em geral, à tarde já não há nada. A ração de carne diminuiu esta semana. O leite está tão racionado que até o pires do gato é um problema. Levo uma hora a fazer manteiga das natas do leite — o produto de uma semana de trabalho é cerca de meia libra [duzentos gramas]. A falta de gasolina também altera os dias. A Nessa só cá pode vir quando vai a Lewes fazer as compras. Os preços sobem constantemente. A partir do verão fiquei muito mais sovina.

Não compramos roupa, vamo-nos remediando com a que temos.

Passamos dificuldades mais do que necessidades. Não temos fome nem frio. Mas a flor do luxo foi arrancada, e a hospitalidade.

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Domingo, 22 de dezembro

Como eram lindos, estes velhos — o pai e a mãe — como eram simples, como eram claros e tranquilos. Estive a ler velhas cartas e as memórias do pai. Ele amava-a — ah, ele era tão franco, tão racional, tão transparente — e tinha um espírito de uma delicadeza, de um escrúpulo, de uma cultura e transparência. A vida de ambos, descobri-a serena, alegre mesmo: sem lamas nem redemoinhos. E tão humana — com os filhos e os murmúrios e canções do quarto de brinquedos. Mas, se o ler como sua contemporânea, perderei a minha visão de criança, por isso devo parar. Sem turbulência; sem envolvimentos; sem introspeção. (...)

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