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‘Virinha’, a avó que se tornou viral

‘Verdadeira Mulher da Beira’ vista mais de um milhão de vezes.
Alexandre Salgueiro 12 de Junho de 2016 às 16:00
Elvira Teixeira, de 70 anos, com a foice que também aparece no vídeo
Elvira Teixeira, de 70 anos, com a foice que também aparece no vídeo FOTO: Edgar Martins

Elvira de Oliveira Teixeira era, até há duas semanas, uma cidadã anónima. Mas aos 70 anos, metade dos quais passados a trabalhar em França, esta mulher natural do concelho de Ourém e agora a viver em Caria, no município de Belmonte, tornou-se uma sensação na internet. E ao contrário da maioria daqueles que procuram fama ou reconhecimento na rede, ‘Virinha’, como lhe chamam carinhosamente os amigos e a família, conseguiu-o sem querer e sem esforço.

Tudo começou com um vídeo, colocado no YouTube a 28 de maio, que regista parte de um diálogo entre Elvira e um casal que viajava de carro da aldeia histórica de Sortelha para a Covilhã pela EN18 e que parou para lhe pedir indicações. A conversa dispersa-se. Começa com o lamento de uma placa mal colocada na estrada que induz os viajantes em erro, mas em apenas três minutos e 45 segundos ‘Virinha’ fala dos políticos locais, da televisão, da internet, do neto, de sexo e da falta dele, com jeito despachado e uma língua afiada que debita mais de três dezenas de palavrões e um sem-número de expressões impossíveis de reproduzir nestas páginas.


O condutor do veículo gravou a conversa e terá sido o próprio a colocá-la online no seu canal do YouTube, sob o título ‘A Verdadeira Mulher da Beira’. Em apenas duas semanas o vídeo teve um milhão de visualizações e incontáveis partilhas nas redes sociais. ‘Virinha’ tornou-se numa avó viral.


Mais do que o discurso politicamente incorreto, o que parece cativar os internautas que comentaram o vídeo é a forma genuína como a residente em Caria se expressa. "Eu sou assim desde pequenina. As palavras saem-me de forma natural e não as digo com maldade. Quando dizemos um palavrão algumas pessoas ficam logo a pensar em coisas maldosas, mas a maldade está é na cabeça de quem assim pensa", afirma à ‘Domingo’, que a encontrou à porta de casa com o marido a dar indicações a mais um turista que se enganou no cruzamento que fica mesmo em frente à sua propriedade. "As pessoas vêm na estrada do Sabugal e não viram para a Covilhã e para a autoestrada porque o raio da placa em vez de estar posta antes do cruzamento está depois. Isto arrasta-se há mais de um ano, ninguém faz nada e todos os dias há sempre alguém que se engana", assegura.

"Foi assim que esta coisa de eu ir parar à internet começou. Por causa da má sinalização. O casalito perdeu-se no caminho e pediu-me indicações e olhe… começámos a falar e as palavras começaram-me a sair como as cerejas: umas atrás das outras. Eles acharam piada e gravaram, mas nem me apercebi disso, nem imaginei o que iam fazer com a gravação", explica. Ainda assim, diz não ter levado a mal que o vídeo tenha sido publicado no YouTube. "Sinto-me um pouco envergonhada porque não estou habituada a ser vista por tanta gente, mas não pelas palavras que usei. Vergonha é roubar e ser corrupto como alguns políticos e banqueiros deste País", atira de seguida. "Aqui é que as pessoas são todas cheias de ‘não-me-toques’ e levam logo a mal quando dizemos uma asneira. É por isso que eu gosto da gente do Norte. São pessoas mais genuínas e que falam o português como eu. Eram os meus melhores camaradas quando estive emigrada", diz, entre duas gargalhadas.


SINDICALISTA EM FRANÇA

Assim que os amigos começaram a ver o vídeo, que se espalhou como fogo pelas redes sociais, começaram a chover telefonemas: "Além de França e de Portugal, já recebi chamadas a dizer que me tinham visto no Canadá, no Brasil e na Argentina. Mais uma vez, e como é hábito, lá consegui pôr os meus amigos todos a rir." Quem não achou tanta piada, admite, foi a família mais próxima: "As minhas duas filhas e o meu neto não gostaram muito e ficaram envergonhados, mas eles já sabem que eu sou assim, que falo assim e que já não tenho idade para mudar. Mas também sabem que só lhes quero bem, independentemente do que diga."


Já o marido, José, natural de Sortelha, e "camarada de quase 50 anos", continua a achar piada às expressões e ao tom cáustico com que a esposa as profere. "Sempre teve esta alegria e esta forma de estar que põe toda a gente a rir. E já nem a imagino de outra maneira", diz a sorrir.


Oriunda de família humilde da freguesia de Freixianda, Ourém, Elvira emigrou para França em 1965, com 19 anos. E durante os 35 seguintes trabalhou na cultura de cogumelos: "Passava os dias debaixo de terra, com uma lanterna na cabeça e uma bateria de três quilos às costas a apanhar os famosos champignons de Paris. Chegava a fazer sete quilómetros por dia. Era um trabalho duro, mas nunca fui mulher de ficar fechada em casa."


Socialista ferrenha, Elvira foi sindicalista em França e gaba-se de ter conhecido Georges Pompidou, Charles de Gaulle e François Mitterrand. "Não falei com eles, mas estive na sua presença. Todos grandes homens, sobretudo o Miterrand", diz.


Dos tempos em território gaulês, mais concretamente na região de Yvelines, nos arredores de Paris, diz guardar as melhores recordações mas desde que regressou a Portugal, em 2000, nunca mais pensou em voltar a sair: "A França foi a minha mãe. Foi quem me deu tudo o que hoje tenho. Mas Portugal é que é o meu país. Amo-o e não o troco por nenhum outro."

 

UM VÍDEO SEM QUALQUER CENSURA

"Desde que veio a internet é tanta p... e tanto cab... que eu nunca vi na minha vida." Assim falou Elvira de Oliveira Teixeira numa conversa que foi gravada e colocada no YouTube, com o título ‘A Verdadeira Mulher da Beira’. Os desabafos da septuagenária de foice em punho foram o segundo vídeo mais visto nos últimos dias em Portugal, introduzindo nas conversas termos como "pandeleiragem" e "tesos como um carapau". 

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