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VISEU: ELES FIZERAM UM BUNKER

No coração de Portugal há uma família preparada para a guerra. Com medo do que possa vir a acontecer no período pós-conflito do Iraque, construíram um ‘bunker’ no sítio de uma antiga garrafeira, e acreditam poder resistir um mês, se a ‘coisa’ der para o torto.
6 de Abril de 2003 às 15:03
Almiro Moreira Marques, de 51 anos, ex-emigrante na Suíça, construiu um abrigo semelhante a um ‘bunker’, a que acede a partir da sua residência em Barbeita, Viseu. “Estou preparado para enfrentar o pior. Para a guerra ou para os terramotos”, garante o próprio, mostrando o compartimento, começado a construir em 1991, decorria então a Guerra do Golfo.
O homem, casado, com dois filhos, inspirou-se num costume da Suíça, onde os cidadãos são encorajados a construir um compartimento de defesa que disponha de acesso nas suas residências. “Na Suíça tudo é diferente, as pessoas pensam em tudo, principalmente no pior. Lá, as pessoas são aconselhadas pelo governo a construírem locais onde se possam abrigar em caso de catástrofe. Aqui não, ninguém liga nada a isso!”, esclarece.
Almiro Marques, taxista e proprietário de um restaurante em Viseu, garante não ter visto qualquer ‘bunker’ igual ao seu. Planeou-o e construiu-o a partir de ideias próprias. “Não é preciso saber muito para construir uma coisa destas. Eu já tinha ideia de fazer isto há muitos anos, e na altura em que construí a garrafeira, aproveitei e alarguei o buraco. As paredes têm 40 centímetros de espessura”, explica o ex-emigrante.
O acesso ao ‘bunker’ parte da cozinha de serviço ou de um anexo à residência. É um autêntico labirinto no subsolo. Quem entra pela cozinha encontra, em primeiro lugar, uma longa e recheada garrafeira com 3700 garrafas “cheias de bom vinho”, como diz o seu proprietário. Num determinado local encontra-se, disfarçada, uma porta blindada, construída em aço e madeira. Pesa mais de duas toneladas. É a entrada para o ‘bunker’. A seguir, aparece uma divisão semelhante a um ‘hall’ e depois uma outra porta, mais pequena, embora também muito pesada.
Este local é, como nos diz Almiro Marques, “à prova de tudo”. O ambiente é escuro e mete medo. Uma fraca lâmpada ilumina o compartimento que tem uns 20 metros quadrados. O proprietário garante que tem capacidade para albergar mais de uma dezena de pessoas. Não há rede de telemóvel. A temperatura é constante no Verão e no Inverno, oscilando entre os seis e oito graus Celsius.
UMA SANITA E QUATRO MÁSCARAS
O abrigo foi concluído há mais de sete anos. Está equipado com uma sanita e quatro máscaras NBQ, para defesa nuclear, biológica e química, que custaram 400 euros. Nele estão guardados alguns frutos secos – os géneros alimentícios serão aí depositados apenas no caso de se registar uma crise. Dispõe de uma câmara de entrada de ar com filtro. Muito estreito, o túnel por onde circula o ar poderá ser utilizado como saída de emergência, mas nele apenas caberá quem estiver em boas condições físicas. Em breve irão ser colocadas no abrigo duas camas, assim como bens de primeira necessidade, porque, como afirma Almiro Marques, “teremos que estar preparados para o pior, e eu estou pronto para me defender da guerra.”
Quanto ao facto de ter construído o ‘bunker’ apesar de uma situação de guerra ser muito improvável em Portugal, o proprietário explica: “Nós nunca saberemos o que poderá suceder com uma guerra à escala mundial. Todos sabemos que há países com armas nucleares, e um dia, sem ninguém o prever, poderá acontecer uma tragédia. Foi precisamente a pensar nisso que eu decidi construir este compartimento. Vale mais prevenir do que remediar.”
Rui Marques, de 23 anos, filho de Almiro Marques, tem orgulho nesta iniciativa do pai. “É sinal que ele se preocupa com a nossa segurança. No início achei a ideia ousada e um tanto desnecessária, mas agora dou-lhe razão, porque a segurança da humanidade está cada vez mais ameaçada. Esta guerra é prova disso, nunca se sabe o que poderá acontecer”, diz o jovem.
“É um local muito seguro. Fica por debaixo do acesso à nossa garagem e até hoje ainda não houve sinais de cedência”, refere Almiro Marques, refutando a ideia de que teria construído o compartimento devido a traumas de guerra. “Fui comando e estive a prestar serviço militar em Angola, mas o ‘bunker’ não tem nada a ver com isso. Conheço minimamente os planos de defesa pessoal e, no meu catálogo, entrou este abrigo”, explica.
“As pessoas podem julgar que sou maluco, mas não sou, e no futuro veremos quem é que terá razão. Conforme está o Mundo, nunca se sabe o que poderá acontecer. Pode ocorrer uma guerra com consequências que ninguém sabe quais são, um terramoto ou outra catástrofe qualquer. Se assim for, eu e a minha família poderemos aguentar um mês em situações muito adversas”, conclui Almiro Marques.
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