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Visita ao mundo desconhecido do Santa Maria

Urgência Central. Um homem jovem aperta com a mão direita o lado esquerdo do tronco. Tem vestida a camisa com riscas vermelhas que escolheu quando de manhã saiu de casa. Está deitado numa maca. Não chora, é suposto os homens não chorarem, permite-se apenas fechar os olhos com força a cada pontada. Levam-no. Lá dentro vão tirar-lhe a dor do peito.
21 de Outubro de 2007 às 00:00
Tirar as dores, aliviá-las, cuidar para que não voltem é a dimensão que se vê e os doentes experimentam no interior daquele edifício com 5400 janelas. Quem lá entra mal suspeita da complexa engrenagem que, como num gigantesco relógio, permite o funcionamento do Hospital de Santa Maria.
O mais provável é o homem de camisa às riscas vermelhas vir a precisar do oxigénio transportado por um dos quatro tubos que passam rentes ao tecto do piso -1, no subsolo do HSM. Os outros levam protóxido de azoto, usado nas anestesias, ar comprimido e vácuo. Constituem a rede de gases medicinais. Mantê-la é uma das atribuições do Serviço de Instalações e Equipamento.
O oxigénio chega em estado líquido à Avenida Prof. Egas Moniz. É evaporado em depósitos instalados na área do hospital e transportado por tubagem. Também o protóxido de azoto é fornecido líquido e a seguir evaporado.
Uma central produz o ar comprimido e o vácuo, que serve para aspirar as secreções.
Um dos mais recentes incidentes implicou precisamente a falha do sistema de vácuo da sala de Otorrinolaringologia. É por estas e outras que “há sempre gente de prevenção”, garante Durão de Carvalho, director do serviço, folheando um caderno de tamanho A4, no qual são registadas as ocorrências de emergência, em dias não úteis.
O inexplicável desaparecimento dos comandos dos aparelhos de ar condicionado na Urgência e a consequente impossibilidade de regular a temperatura justificaram nova entrada no livro de registos. No HSM, só aparelhos centrais de ar condicionado são meia centena e pequenos cerca de 900. O funcionamento do universo designado pela sigla AVAC – Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado – é garantido por pessoal próprio e do Serviço de Utilização Comum dos Hospitais (SUCH).
O dano ou desadequação não significam apenas a possibilidade de afogueamento ou arrepios. Podem, em algumas circunstâncias, resultar em prejuízo real para o doente, nomeadamente em áreas consideradas críticas, entre as quais os blocos operatórios, a Unidade de Queimados e os Cuidados Intensivos.
Operários e engenheiros raramente se cruzam com os que entram no hospital em busca de alívio. Nem, acontecendo alguma vez tal encontro, hão-de os que sofrem prestar-lhes muita atenção. A dor isola e concentra o corpo em si mesmo – ao homem de camisa vermelha não interessa o que se passa cá fora enquanto não o libertarem da tenaz que lhe aperta o peito. Mas aqui não se dá o caso de não sentir o coração o que os olhos não vêem. “Temos a percepção de que do outro lado estão pessoas muito fragilizadas”, responde Durão de Carvalho.
PISO -1
Nos corredores sombrios do piso -1 predomina o som monótono de rolamentos. Mulheres com batas azuis empurram plataformas gradeadas com pilhas de roupa de cama, resguardos, pijamas... Homens isentos de uniforme puxam carros que levam dentro material de consumo clínico – compressas, máscaras de oxigénio, fios de sutura, pensos, ligaduras, seringas ... – para os serviços dos pisos superiores.
Da zona da cozinha, encerrada no início do mês por ordem da Agência de Segurança Alimentar e Económica e já antes destinada a obras, apresenta-se um veículo eléctrico. Junta-se à circulação. Neste momento todas as refeições – 2702 por dia, em média – para os utentes chegam ensacadas da cozinha central da Eurest, empresa contratada, que também confecciona os almoços e jantares, mais de 900, servidos no refeitório aos colaboradores e familiares de doentes internados.
Diante das portas, por enquanto fechadas, da cabina do elevador estaciona uma espécie de armário cinzento com rodas. Toma-se a parte pelo todo e aplica-se-lhe a designação do sistema de reposição automática de material de consumo clínico através de leitura de etiqueta – “kanban”, palavra japonesa para “etiqueta”. Este “kanban” vai para a Urgência Central e vem, como os demais, do Armazém, no exterior do edifício principal do HSM.
Prateleiras e prateleiras quase a perder de vista. Nelas arrumam-se 1800 categorias diferentes de artigos de consumo clínico e hoteleiro – sabonete líquido, esponjas, detergentes para máquinas de lavar louça. Os mais requisitados ficam ao nível do tronco, para facilitar a tarefa de reposição. Diária em serviços como os da Urgência Central, Pediatria e Cuidados Intensivos. Bissemanal nas unidades de Internamento. Semanal nas Consultas.
“Etiqueta” é a palavra mágica nos 105 centros de custos do Santa Maria repostos através do método Kaban. Em cada serviço, sempre que um enfermeiro vai buscar um artigo, espera-se que faça a leitura electrónica da etiqueta apensa ao mesmo. O gesto permite que no Armazém se saiba exactamente o que foi consumido e, consequentemente, o que falta.
Na Urgência procede-se à reposição total do stock a 75 por cento. Os demais serviços são reabastecidos a partir de metade. Material clínico destinado aos que ficam no mesmo piso – Pneumologia de Homens e Mulheres, por exemplo – segue num só carro. É da maneira que, uma vez no edifício principal, se poupa tempo à espera dos elevadores, nenhum dos quais, 16 ao todo, é de serviço. Doentes e homens que carregam “kanbans” podem encontrar-se.
Oelevador chegou. O “kanban” destinado à Urgência Central sobe finalmente ao piso 1 e, mais uma vez, a etiqueta indica onde arrumar cada artigo. Máscaras de oxigénio. Sistemas de soro com controlador de gotas. Kits de algaliação. Sondas de aspiração. Tudo nos seus lugares até que alguém precise e o enfermeiro venha buscar o artigo, cuidando de registar-lhe a saída. Etiqueta.
MAIS ETIQUETAS, MENOS FORMULÁRIOS
O hospital do futuro terá cada vez mais etiquetas e menos formulários a passar de mão em mão. É para tornar possível o “hospital sem papéis” que trabalha Paulo Derriça, director do Serviço de Sistemas de Informação do HSM. Trabalha ele e trabalham 12 servidores Intel, dois sistemas de armazenamento para arquivo e arquivo de longa duração, um sistema de imagem digital e outro de “backup” centralizado.
O corredor central do HSM tem 1600 metros – quatro vezes o comprimento das raias interiores de uma pista oficial de atletismo – mas o caminho que o doente percorre no circuito informático é incomparavelmente mais longo. E, apesar disso, muito mais rápido.
O primeiro contacto com o sistema dá-se ou na Consulta, ou na Urgência. O doente entra numa espécie de ‘matrix’ benigna que no segundo caso se designa “alert”. Todo o caminho que vier a fazer – para exames, análises, pequenas cirurgias – ficará registado.
De modo que Luís Correia, médico da Urgência, pode, após reconhecimento por impressão digital, visualizar no monitor do seu gabinete a radiografia de um úmero antes de chamar o doente a quem pertence o braço radiografado.
Da ‘matrix’ sai-se para a rua, para internamento, naquele ou noutro hospital ou com destino ao centro de saúde. Só não é possível ‘entregar’ o doente aos centros de saúde, ainda fora desta complexa rede de atalhos electrónicos.
PYXIS
Na Urgência há dois Pyxis. Parecem dois grandes armários de medicamentos. Percebe-se que são muito mais quando alguém não autorizado tenta abrir as gavetas. Em vão. O acesso depende do reconhecimento da impressão digital e, mesmo em tais casos, pode programar-se a máquina para libertar uma gaveta só até ao ponto onde possa retirar-se uma única ampola – de morfina, por exemplo. A reposição funciona a exemplo do método Kanban para o material de consumo clínico.
Os Pyxis, que até final do ano devem servir 650 das 1100 camas do HSM, são entendidos como mais-valia pela directora da Farmácia Hospitalar do HSM, Piedade Ferreira. Representam a ordem e a possibilidade de controlo de acesso inexistentes no corredor do piso 4 a que chamam Farmácia.
Quando o Hospital de Santa Maria, que completa 54 anos em Novembro, foi concebido não havia qualquer referência à dispensa de medicamentos. Nota-se. Os técnicos sentem na pele a irracionalidade, patente desde logo na circunstância de fazer-se a recepção de medicamentos no 7.º piso de um edifício sem elevadores de serviço.
Dali descem ao 4.º, onde permanecem – mais de 1800, sem contar com reagentes e gases medicinais – até serem dispensados. Mas a Farmácia não se reparte apenas por dois andares. Há bocados dela em cinco, nomeadamente no -1, onde estão soros, inflamáveis e entéricos, todos em sítios diferentes.
Tal dispersão “tem-nos dificultado o cumprimento integral das boas práticas de farmácia”, admite Piedade Ferreira, esperançada na conclusão das obras do novo edifício da Farmácia, que concentra no piso térreo a distribuição, recepção e gestão de ‘stocks’ e no de cima as áreas técnicas.
Por enquanto é no piso 7 do edifício central que tem lugar a preparação de citotóxicos, usados nomeadamente no tratamento de doentes do foro oncológico. É também lá em cima que se procede à readaptação das dosagens existentes no mercado para administração na Pediatria. Do 7.º andar vêm ainda as saquetas para alimentação parentérica – através das veias.
RESÍDUOS DE CITOTÓXICOS
Os resíduos de citotóxicos são depositados num contentor de uso único para prevenir o vazamento. O lugar dos restos de medicação, material cortante e perfurante, são os contentores amarelos. Matérias infecciosas – resíduos do Grupo III – acabam nos verdes. Os vermelhos servem para recolher restos orgânicos. O HSM produz ainda resíduos líquidos perigosos, nomeadamente formol, alcoóis e clorofórmio, recolhidos em recipientes entregues, vazios, nos serviços que deles precisam.
O Hospital de Santa Maria é um enorme produtor de resíduos – cerca de nove toneladas por dia – quer urbanos, quer hospitalares. Quem trata deles é uma empresa contratada, a Ambimed. Escolhe-se as horas de menor movimento naquela ‘cidade’ para proceder à recolha dos contentores e dos sacos.
O sono nunca é descansado no HSM mas entre as 6h00 e as 7h30 sente-se pelo menos uma certa acalmia. Os funcionários da Ambimed aproveitam-na e sobem para recolher o lixo da zona de sujos existente em cada serviço. Em alguns, nomeadamente na Urgência Central, faz-se três recolhas diárias.
O homem jovem de camisa às riscas vermelhas há-de agradecer a vida ao médico que lhe tirou a tenaz do peito, sem saber que outras pessoas, a desoras, em corredores mal iluminados no subsolo do hospital, puxando kanbans, também cuidaram dele.
MATERIAL SUFICIENTE PARA UM MÊS
Já foram oito, distribuídos por várias zonas do edifício central do Hospital de Santa Maria, mas agora existe um único armazém de material para consumo clínico, hotelaria, administrativo e para conservação e equipamento. Fornecedores são cerca de 200 e categorias de artigos 1800. Basta para um único mês de consumo. Está continuamente a entrar e a sair material. Películas radiográficas, por exemplo, são de imediato encaminhadas para o Serviço de Radiologia, o único que as pede. Todos os artigos são entregues com a indicação do custo. Para que se saiba o valor do que é consumido.
ARMAZÉM E FARMÁCIA
50 734 É o valor em euros do consumo médio diário de material de consumo clínico, que inclui compressas, fios de sutura, máscaras de oxigénio, sondas... O valor do material hoteleiro –sabonete líquido, detergentes... – ascende a 1477,38 euros.
5 É o número de locais do hospital por onde se reparte a Farmácia Hospitalar. Há ‘bocados’ de Farmácia dispersos pelos pisos 4, 7 e -1. Sem contar com os reagentes e os gases medicinais, há 1800 medicamentos à disposição.
3974 Número médio, em quilogramas, de roupa tratada por dia. Imediatamente antes de sair para a lavandaria de Vialonga, a roupa é pesada. Uma vez lavada repete-se o procedimento.
900 Número aproximado de aparelhos pequenos de ar condicionado no Hospital de Santa Maria. Os centrais são meia centena. Nas áreas críticas é essencial a filtragem de alta eficácia.
HOSPITAL DE SANTA MARIA
Foi fundado em 1954 por Egas Moniz. Dá cobertura a mais de 350 mil habitantes. Em 2006, mais de 240 mil pessoas acorreram à Urgência do HSM e 37 mil beneficiaram dos serviços de internamento. No ano passado foram realizadas 20 mil operações nos blocos ci-rúrgicos da instituição. O edifício central, com 5400 janelas, é exemplo da arquitectura do Estado Novo.
VEM DA LAVANDARIA
A roupa suja é pesada na área da Rouparia, no piso -1, e segue em camiões para a lavandaria do Serviço de Utilização Comum dos Hospitais, em Vialonga. Todos os dias chegam dois camiões com roupa lavada ao HSM.
TECNOLOGIA E RESÍDUOS
12 É o número de processadores Intel ao serviço do Hospital de Santa Maria. A infra-estrutura tecnológica integra ainda dois sistemas de armazenamento, um de imagem e um “backup”.
8959 É a quantidade, em quilogramas, de resíduos produzidos diariamente no Hospital de Santa Maria; 230 funcionários asseguram a limpeza. Um dia significa 650 horas de trabalho.
URGÊNCIA E PISO -1
O Hospital de Santa Maria, na sua dimensão visível, palpita no serviço de Urgência. O contraponto, ou seja, o local dos bastidores onde a actividade é mais intensa, são os corredores do piso -1. Por aí circulam carros fechados com material de consumo clínico destinado aos serviços, outros com pilhas de roupa, plataformas com contentores...
RESÍDUOS DOS GRUPOS III E IV
São encaminhados para as instalações da Ambimed na Quimiparque, Barreiro.
Os do Grupo IV são queimadosno estrangeiro.
Os resíduos sólidos urbanos são compactados e recebidos pela Valorsul, em S. João da Talha.
CONSUMO ELÉCTRICO
1.5 milhões de euros/ano
O consumo de energia eléctrica no Hospital de Santa Maria é equivalente ao de uma pequena cidade –18 milhões de kilowatts/hora por ano. A conta anual da luz ascende a 1,5 milhões de euros. O que, no Serviço de Instalações e Equipamento, ocupa mais horas de trabalho é precisamente a manutenção da rede eléctrica do hospital.
REDE DE ÁGUA
Sessenta quilómetros é, aproximadamente, a extensão da rede de abastecimento de água que serve o Hospital de Santa Maria. Procedeu-se ao longo dos anos à renovação de parte da rede mas a outra é ainda a original. O HSM dispõe de cinco reservatórios de água para usar em caso de emergência.
SALA DE REANIMAÇÃO DA URGÊNCIA
Os computadores estão espalhados pelas várias áreas do Serviço de Urgência do Hospital de Santa Maria. Tudo o que acontece ao doente fica aqui registado. Para aceder à informação sobre o doente, o médico coloca o dedo num leitor de impressão digital, de modo a que o sistema ‘alert’ o reconheça como utilizador autorizado. A informação é registada digitalmente e em tempo real fica acessível aos vários intervenientes no processo. Sem papel.
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