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“Vivemos o pior e aprendemos o melhor”

Na minha companhia houve cinco mortos e oito feridos. E devo confessar que devo a minha vida à bebedeira de um camarada
26 de Agosto de 2012 às 15:00
Um momento de descontracção com os colegas no rio Dange, em que aproveitaram para subir a uma pedra, no meio do rio, sob a protecção dos companheiros
Um momento de descontracção com os colegas no rio Dange, em que aproveitaram para subir a uma pedra, no meio do rio, sob a protecção dos companheiros FOTO: Direitos reservados

Assentei praça em Leiria com 20 anos e fui tirar a especialidade de apontador de metralhadora no quartel de Abrantes. Depois fui fazer o IAO à base de Santa Margarida, ou seja, a preparação para combate, mas que era dada por quem nunca tinha estado no meio do mato a combater.

Embarquei no navio Uige em Maio de 1971, com destino ao norte de Angola. Foram doze dias em que viajámos como ratos, no porão, onde nem sequer casas de banho havia. Havia, isso sim, muitas melgas, de tal forma que, quando desembarquei em Luanda, já ia com paludismo e fui directamente para a enfermaria militar do Grafanil, enquanto o meu batalhão seguiu para a zona três, ou seja, a zona de Maria Fernanda, nos Dembos, a pior zona da guerra colonial em Angola.

Logo no primeiro dia fomos atacados pelo inimigo e o dia mais triste da minha companhia foi ter de fazer mais de 60 quilómetros para ir levar o cadáver do rapaz a outro acampamento, pois como tínhamos acabado de chegar nem sequer tínhamos urnas para o transportar. Foi chorar de pena, de ódio, de raiva o caminho todo, para lá e para cá...

Servia-nos de consolo o correio, as cartas da família e das madrinhas de guerra que chegavam duas vezes por semana, e isso era quando chegavam, pois muitas vezes o comboio era atacado pelo caminho, sofria emboscadas, e não havia entregas.

Da zona de Maria Fernanda fomos depois para a beira do rio Dange, onde ficámos literalmente abandonados à nossa sorte. Muitas vezes tivemos mesmo de pescar se queríamos comer, pois nem mantimentos lá chegavam. Aí perdemos mais um homem, também num ataque.

De lá, seguimos para Luanda e depois para a Zenza , onde fazíamos missões de intervenção, ou seja, ajudar outra companhia que estava em dificuldades.


DEVO A MINHA VIDA

Seguiu-se o Nambuangongo e aí deixámos ficar mais três homens, se bem que aí foi por causa de um acidente. Na realidade eu também seguia a bordo da berlier que se virou, mas devo a minha vida a um camarada que, por acaso, nesse dia fazia anos e estava com os ‘copos'. É que como operador de metralhadora eu costumava viajar numa berlier de torre, ou seja, lá dentro. Mas como ele, que era o condutor da berlier de torre estava bêbado, fui numa berlier de parapeito. Foi a minha sorte! Quando se deu o acidente fui projectado para a berma da estrada, antes da berlier ter dado dezenas de voltas e ter-se despedaçado no fundo de uma ribanceira. Se aquilo tivesse acontecido na berlier de torre, eu tinha ficado lá dentro e era morte certa.

Nunca tive a oportunidade de agradecer a esse rapaz, porque ele também veio a morrer, noutro acidente. Depois de Nambuangongo fomos terminar a comissão no Lungwebungu, onde morreu o Jonas Savimbi. No sítio onde ele caiu morto, debaixo de uma mangueira, era onde eu e os meus colegas costumávamos esperar que o avião aterrasse para entregar o correio...

A minha companhia sofreu, no total, cinco baixas mortais e oito feridos.

Como presidente da associação de ex-combatentes de Arganil, que tem quase 250 sócios, costumo até dizer aos outros homens que, por lá, vivemos o pior e aprendemos o melhor, que foi o sentido da união e da camaradagem. Às vezes choramos, às vezes rimos, mas é para isso que servem as recordações.

PERFIL

Nome: Leonel Costa

Comissão: Angola (1971-1973)

Força: Batalhão 2872, companhia de caçadores 2505

Actualidade: Vive em Arganil e tem uma empresa de construção civil 

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