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Correio da Manhã

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VIVER PARA CONTÁ-LA

É um dos livros do ano. ‘Vivir Para Contarla’, publicado em Espanha em 2002, chega finalmente a Portugal, pela mão da D. Quixote. É o primeiro volume das memórias de Gabriel García Márquez, provavelmente o mais consensual dos escritores vivos, Prémio Nobel da Literatura em 1982 e autor, entre outros, de ‘Cem Anos de Solidão’ e ‘Crónica de Uma Morte Anunciada’.
7 de Março de 2003 às 16:31
Colombiano, nascido em 1928, o autor debate-se há algum tempo com uma doença grave, mas encontra forças para registar as suas impressões de uma vida ligada à literatura. O ‘Domingo Magazine’ antecipa um excerto do quinto capítulo do novo livro, que chega ao mercado nos próximos dias.

“Nunca imaginei que nove meses depois do grau de bacharel seria publicado o meu primeiro conto no suplemento literário ‘Fin de Semana’ de ‘El Espectador’ de Bogotá, o mais interessante e severo da época. Quarenta e dois dias mais tarde foi publicado o segundo. No entanto, o mais surpreendente para mim foi uma nota de consagração do subdirector do jornal e director do suplemento literário, Eduardo Zalamea Borda, Ulises, que era o crítico colombiano mais lúcido da época e o mais atento ao aparecimento de novos valores.

Foi um processo tão inesperado que não é fácil contar. Tinha-me matriculado no princípio daquele ano na faculdade de Direito da Universidade Nacional de Bogotá, como estava combinado com os meus pais. Vivia mesmo no centro da cidade, numa pensão da Calle Florián, ocupada na sua maioria por estudantes da costa atlântica. Nas tardes livres, em vez de trabalhar para viver, ficava a ler no meu quarto ou nos cafés que o permitiam. Eram livros de sorte e azar, e dependiam mais da minha sorte do que dos meus azares, pois os amigos que podiam comprá-los emprestavam-mos com prazos tão apertados que passava noites em claro para os devolver a tempo. (...) Assim descobri para sorte minha os já muito descobertos Jorge Luis Borges, D. H. Lawrence e Aldous Huxley, Graham Greene e Chesterton, William Irish e Katherine Mansfield e muitos mais.

Víamos estas novidades nas montras inatingíveis das livrarias, mas alguns exemplares circulavam pelos cafés de estudantes, que eram centros activos de divulgação cultural entre universitários da província. Muitos tinham os seus lugares reservados ano após ano, e ali recebiam o correio e até os vales postais. (...)

Eu preferia El Molino, o café dos poetas mais velhos, apenas a uns duzentos metros da minha pensão e na esquina crucial da Avenida Jiménez de Quesada com a Carrera Séptima. (...) Foram muito poucos os nomes grandes das artes e das letras do país que não passaram por aquelas mesas e nós fazíamo-nos de mortos na nossa para não perdermos nem uma das suas palavras. Embora costumassem falar mais de mulheres e de intrigas políticas do que das suas artes e ofícios, diziam sempre qualquer coisa de novo para aprender. Os mais assíduos éramos os da costa atlântica, não tão unidos pelas conspirações caribenhas contra os cachacos como pelo vício dos livros. Jorge Álvaro Espinosa, um estudante de Direito que me ensinara a navegar na Bíblia e me fez aprender de cor os nomes completos dos companheiros de Job, colocou-me um dia em cima da mesa um calhamaço intimidante e sentenciou com a sua autoridade de bispo: - Esta é a outra Bíblia.
Era, claro, o ‘Ulisses’ de James Joyce. (...)

Um dos meus companheiros de quarto era Domingo Manuel Vega, um estudante de medicina que já era meu amigo desde Sucre e partilhava comigo a voracidade da leitura. O outro era o meu primo Nicolás Ricardo, o filho mais velho do meu tio Juan de Dios, que mantinha em mim vivas as virtudes da família. Vega chegou uma noite com três livros que acabava de comprar e emprestou-me um ao acaso, como fazia com frequência para me ajudar a dormir. Mas dessa vez conseguiu de facto o contrário: nunca mais tornei a dormir com a serenidade de antes. O livro era ‘A Metamorfose’, de Franz Kafka, na falsa tradução de Borges publicada pela editora Losada, de Buenos Aires, que definiu um novo caminho para a minha vida desde a primeira linha e que hoje é um dos grandes monumentos da literatura universal. (...)

Ao terminar a leitura de ‘A Metamorfose’ ficaram-me as ânsias irresistíveis de viver naquele paraíso alheio. O novo dia surpreendeu-me na máquina portátil que o próprio Domingo Manuel Vega me emprestava, para tentar algo que se parecesse com o pobre burocrata de Kafka transformado num escaravelho enorme. Nos dias seguintes não fui à universidade com receio que se quebrasse o feitiço e continuei a suar gotas de inveja até que Eduardo Zalamea Borda publicou nas suas páginas uma nota desconsolada, na qual lamentava que a nova geração de escritores colombianos carecesse de nomes para recordar e que nada se vislumbrasse no futuro que pudesse remediar isso. Não sei com que direito me senti aludido em nome da minha geração pelo desafio daquela nota e retomei o conto abandonado para tentar um desagravo. Elaborei a ideia do argumento do cadáver consciente de ‘A Metamorfose’ mas aliviado dos seus falsos mistérios e preconceitos oncológicos.

De qualquer forma, sentia-me tão inseguro que não me atrevi a falar dele com nenhum dos meus companheiros de mesa. Nem sequer com Gonzalo Mallarino, meu condiscípulo da faculdade de Direito, que era o leitor único das prosas líricas que eu escrevia para ultrapassar o tédio das aulas. Reli e corrigi o meu conto até ao cansaço e, por último, escrevi uma nota pessoal para Eduardo Zalamea – que nunca tinha visto – e da qual não recordo nem uma letra. Pus tudo dentro de um sobrescrito e levei-o em pessoa à recepção de ‘El Espectador’. O porteiro autorizou-me a subir ao segundo andar para entregar a carta ao próprio Zalamea em corpo e alma, mas a simples ideia me paralisou. Deixei o sobrescrito na mesa do porteiro e fugi.

Isto tinha sido numa terça-feira e não me inquietava nenhum palpite sobre a sorte do meu conto, mas estava certo de que em caso de ser publicado não seria muito depressa. Entretanto, vagueei e divaguei de café em café durante duas semanas para disfarçar a ansiedade dos sábados à tarde, até 13 de Setembro, quando entrei em El Molino e dei de caras com o título do meu conto a toda a largura de ‘El Espectador’ acabado de sair: ‘A Terceira Resignação’.

A minha primeira reacção foi a certeza arrasadora de que não tinha os cinco centavos para comprar o jornal. Este era o símbolo mais explícito da pobreza, porque muitas coisas básicas da vida quotidiana, além do jornal, custavam cinco centavos: o eléctrico, o telefone público, a chávena de café, o engraxar os sapatos. Lancei-me à rua sem protecção contra a chuvinha imperturbável, mas não encontrei nos cafés próximos nenhum conhecido que me desse uma moeda por caridade. Também não encontrei ninguém na pensão à hora morta do sábado, salvo a dona, que era o mesmo que ninguém, porque lhe estava a dever setecentos e vinte vezes cinco centavos por dois meses de cama e estadia. Quando regressei à rua, disposto a qualquer coisa, encontrei um homem da Divina Providência que saiu de um táxi com ‘El Espectador’ na mão e pedi-lhe com frontalidade que mo desse.

Assim pude ler o meu primeiro conto em letra de forma, com uma ilustração de Hernán Merino, o desenhador oficial do jornal. Li-o escondido no meu quarto, com o coração desembestado e de um só fôlego. Em cada linha ia descobrindo o poder demolidor da letra impressa, pois o que tinha construído com tanto amor e dor como uma paródia domesticada de um génio universal, revelou-se-me então como um monólogo arrevesado e inconsistente, mantido com dificuldade por três ou quatro frases consoladoras. Tiveram que passar quase vinte anos até que me atrevesse a lê-lo pela segunda vez e o meu juízo de então – apenas moderado pela compaixão – foi muito menos complacente.

O mais difícil foi a avalancha de amigos radiantes que me invadiram o quarto com exemplares do jornal e elogios desmesurados sobre um conto que de certeza não tinham entendido. Entre os meus companheiros de universidade, uns apreciaram-no, outros compreenderam-no menos, outros com mais razões não passaram da quarta linha, mas Gonzalo Mallarino, cuja avaliação literária não me era fácil pôr em dúvida, aprovou-o sem reservas.

A minha maior ansiedade era pelo veredicto de Jorge Álvaro Espinosa, cuja navalha crítica era a mais temível, mesmo para além do nosso círculo. Sentia-me num estado de espírito contraditório: queria vê-lo de imediato para resolver de uma vez a incerteza, mas ao mesmo tempo aterrava-me a ideia de o enfrentar. Desapareceu até terça-feira, o que não era raro num leitor insaciável, e quando reapareceu no El Molino não começou por me falar do conto mas da minha audácia.

- Suponho que te dás conta da encrenca em que te meteste – disse, fixando nos meus olhos os seus verdes olhos de cobra real. – Agora estás na montra dos escritores reconhecidos e tens muito que fazer para o mereceres. (...)”
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