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Viver para crer

Atravesso as ilhas indonésias em rima popular, entre as chuvas da monção, as memórias de um vulcão e a visita a um canhão. O canhão português de Si Jagur, milagre para a fecundidade na crença dos indonésios que, já agora, também acreditam no Pai Natal.
11 de Janeiro de 2009 às 00:00
A Indonésia tem 129 vulcões activos. O Krakatoa entrou em erupção no século XIX. Fez desaparecer uma ilha. As suas poeiras
A Indonésia tem 129 vulcões activos. O Krakatoa entrou em erupção no século XIX. Fez desaparecer uma ilha. As suas poeiras

Pisar chão depois de três dias em alto mar provoca em mim uma sensação 'ao contrário', como se de repente a terra me fugisse debaixo dos pés. Ainda a cambalear e meio adormecida pela pouca dinâmica da vida a bordo – dias passados entre empregadas domésticas com quem falo por gestos e homens escuros de bigode que fumam cigarros de kretek (cravinho) à porta da mesquita – apanho o autocarro para Kuta, em Bali, que cheira a surfistas e a todos os vícios e virtudes dos enclaves turísticos. Não me demoro, afugentada pelas scooters com pranchas acopladas, gente loira de todas as nacionalidades e um irresistível apelo ao consumo pelo preço da chuva. Que cai meticulosamente ao final do dia, arrastando no céu cinzento nuvens e papagaios de papel.

Parto de autocarro para Jacarta, capital da Indonésia, na vizinha ilha de Java, depois de tirar a barriga de misérias com uma cesta de mariscos que faria qualquer abade sentir-se amador. Durante a viagem de 30 horas, viro-me várias vezes para a minha companheira do lado que se limita a sorrir debaixo da burka muçulmana, quando, após ultrapassagens suicidas, exclamo sonoramente 'Jesus Christ!' Não consigo pregar olho, vigiando de soslaio o condutor que cabeceia ao volante, ressuscitando, a assobiar, no exacto momento em que as rodas tocam a berma. É quase de manhã quando passamos em Probolinggo, onde há seis anos desembarquei a caminho de uma intensa experiência sensorial.

Lembro-me como se fosse hoje da visita ao Gunung Bromo. Das mulheres desdentadas com gorros na cabeça que, durante a subida para a montanha, me ofereceram bolos bafientos que tive de cuspir às escondidas. Do frio que senti alojada a mais de 2000 metros de altitude em Cemoro Lawang, fim do mundo rural que acaba precipitadamente à beira do maçico de Tengger. Da indizível estranheza que me invadiu mal poisei a vista na sobrenatural paisagem vulcânica misturada com o verde das montanhas, desoladora caldeira de lava e areia onde homens a cavalo se cruzavam com motos de cross, os cones fumegantes do Bromo e do Semeru empalidecendo com o final da tarde e a memória invadida por imagens de ‘Stromboli’, filme de Rosselini, em que Ingrid Bergman luta pela sobrevivência numa ilha em erupção. Na Indonésia há 129 vulcões activos e quando, em finais do século XIX, o mais famoso de todos acordou com violência tal que se fez sentir a milhares de quilómetros, ficou gravado na história que a erupção do Krakatoa fez desaparecer, em poucas horas, uma ilha inteira e que as poeiras e gases então libertados pairaram sobre os quatro cantos da Terra por mais de um ano.

À hora de ponta, os arranha-céus de Jacarta parecem não se ter libertado ainda das cinzas do Krakatoa, mal se vislumbrando os contornos entre elevados níveis de poluição sonora, visual e atmosférica. A cidade transpira num corrupio de trânsito e de gente que regressa a casa com passagem obrigatória nos centros comerciais ou nos franchisings de fastfood ocidental adaptados a gostos orientais. De entre estes, chamam-me a atenção as cores a néon de um reluzente galo de Barcelos, imagem de marca da cadeia Nando’s, rival português - com domicílio na África do Sul - das asas, hambúrgueres e almôndegas de frango comercializadas pela cadeia de Kenny Rogers, cantor country americano que convida os seus clientes a 'sentirem-se leves como penas.'

É com toda a leveza do mundo que na manhã seguinte visito o centro histórico da antiga Batavia, nome de Jacarta durante a administração holandesa, viagem colonial que termino na praça de Taman Fatahillah a olhar para Si Jagur. O velho canhão português com um punho a sair pela culatra é conhecido por 'senhor da fertilidade' e são muitas as mulheres que se sentam nele com esperança de conceberem filhos. A forma sugestiva do canhão herdado da presença lusitana faz-me rir quase tanto como o Monumento Nacional mandado construir por Soekarno na praça da Liberdade. Uma coluna de 132 metros de altura em cujo topo um macho-man se liberta das grilhetas e que é humoristicamente conhecida entre os indonésios como 'a última erecção de Soekarno' – presidente deposto em 1968 pelo general Suharto, o ditador que sete anos mais tarde ordenaria a invasão de Timor-Leste.

Na esplanada enfeitada de estrelas, renas e pais natais em que me sento para beber uma 'rootbeer', esqueço-me das misérias do mundo e relembro as flores eternas do Gunung Bromo que, em Maio de 2002, os alunos de uma escola me deram para levar aos 'meninos de Timor'. Emocionam-me sempre os gestos de solidariedade. Daqui a três dias é Natal.

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