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Correio da Manhã

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“Vivo na certeza de ter salvo vidas”

Vivi na Guiné momentos que nunca esquecerei, principalmente uma missão em que poderíamos ter morrido todos, na mata do Óio
Marta Martins Silva 1 de Maio de 2016 às 15:00

Embarquei para a Guiné a 31 de julho de 1965, no navio ‘Niassa’. Estivemos um mês em Bissau, onde fizemos uma primeira operação, mas os mosquitos eram tantos que não conseguíamos estar parados, o que, convenhamos, numa missão em que temos que passar despercebidos não funciona, por isso tivemos que regressar à ‘base’. Depois disso, o nosso batalhão instalou-se em Bissorã, onde eu era responsável pelo posto de rádio.

A temível mata do Óio

Já quase no fim da nossa comissão, aconteceu a situação que mais me marcou e que está presente como se tivesse acontecido ontem. Foi iniciativa minha (precipitada, inconsciente: pânico aos 24 anos) decidir que tínhamos que ir embora daquela operação na mata do Óio, sob pena de ficarmos todos ali. Passei a palavra e consegui que todos fossem atrás do que eu disse. Se não o tivesse feito, eu e muitos daqueles jovens camaradas teríamos perecido naquela tão falada e temível mata. Naquele confronto, estavam envolvidos o Batalhão 1857 e mais companhias, e, pela logística deslocada, por lá havíamos de ficar dois ou três dias expelindo guerra.

Os da frente já haviam desalojado o inimigo dos seus abrigos de cimento, que eu pude constatar à passagem da Companhia 1419, uns depois dos outros (fila indiana), os que se envolviam em combates intensos na desvantagem à exposição das emboscadas, no breu da selva, à luz do dia e sob o domínio do armamento mais sofisticado e de maior potência que o do exército português, nos levaria a devastação irreparável.

Aquela mata era imensa, terrível, frondosa e famosa. Para nosso conhecimento, só penetrada por estreito carreiro, de tão estreito que macas ou padiolas não caberiam ali. Porém, o óbvio já nos invadia: quantas baixas mais? Bem embrenhados na densa mata e confinados àquele carreiro, imitando as pegadas no nosso avanço, nos coube chegar a razoável clareira. As árvores tomaram nosso partido; tivessem elas mãos e batiam palmas ao âmago dos nossos medos, alinhados na irreverência e fogosidade de tanta juventude de então. Aceitaram que seus enormes e gordos troncos ficassem crivados de balas, de setas envenenadas, de estilhaços disformes das fragmentações dos tiros doutros morteiros, bem superiores aos que pudéssemos devolver. Estabelecido o pânico, o descontrolo. Não havia plano B! E não havia ali negociadores. Tão-pouco poderíamos contar com os esforçados e valorosos paraquedistas que naquele dia também nos sobrevoavam. Eu vi que qualquer tentativa de se juntarem a nós em terra seria suicídio. Era descer, descer sem arrefecer o inferno! E sem regresso! E, há 50 anos, não tínhamos ninguém, os ex-combatentes estavam sozinhos e por conta própria! Eis então que: em conformidade com a situação, eu, o soldado 4718/64, e como se fora eu o general, tinha que ser eu a agir: aquela como se fosse hecatombe inglória, devastadora e desumana, que nos impuseram e se encaminhava para trágico fim coletivo, ameaçava não deixar ninguém para contá-la. Comovo-me de o pensar, choro, mas tenho vivido na certeza de ter salvo muitas vidas.

Modesto Salgueiro

Comissão: Guiné (1965-1967)

Força: Batalhão 1857

Atualidade: Reformado, tem 72 anos. Vive no Forte da Casa.





A minha guerra
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