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Vladimir Nabokov: o inventor da ninfeta perversa

Sobreviveria hoje às brigadas do politicamente correto?
João Pedro Ferreira 12 de Maio de 2019 às 12:00
Vladimir Vladimirovich Nabokov
Vladimir Vladimirovich Nabokov

Vladimir Vladimirovich Nabokov (1899-1977) foi um homem dos sete instrumentos: poeta, romancista, professor de literatura russa, criador de problemas de xadrez, cruzadista e entomólogo especializado em borboletas.

Nascido numa família aristocrática da Rússia imperial, a revolução bolchevique obrigou-o a emigrar para Inglaterra, onde se formou em Cambridge. Mais tarde viveu em Berlim, nos EUA (naturalizou-se americano), vindo a morrer na Suíça.

Já autor de vários livros em russo, Nabokov ganhou fama mundial com ‘Lolita’, publicado em inglês por uma editora francesa em 1955. Proibido em Inglaterra e em França, o escândalo catapultou-o para o sucesso. O romance conta a história do amor obsessivo de um professor universitário de meia-idade por uma rapariga de 12 anos que é tudo menos inocente, num jogo perverso de insinuação e sedução que atinge o clímax quando Humbert mata o jovem por quem Lolita decidiu trocá-lo.

Ao criar a personagem Lolita, menina cujo corpo se vai metamorfoseando em mulher – a paixão do escritor pelo estudo das borboletas não é aqui mera coincidência –, Nabokov sublinha a ambiguidade moral da ninfeta, tema recorrente na literatura erótica.

As acusações de imoralidade e pedofilia não beliscaram, nos conservadores anos 50, a apreciação da qualidade do livro, considerado pela crítica uma obra fundamental da literatura do século XX. Resta saber se, nos nossos dias, Nabokov teria conseguido resistir às brigadas censórias do politicamente correto.

Do livro ‘Lolita’, tradução da edição inglesa da Penguin, cotejada com a francesa da Gallimard

"Lolita, luz da minha vida, labareda da minha carne. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca até, ao terceiro, tocar nos dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã ela era Ló, simplesmente Ló, com o seu metro e quarenta e sete e calçando um único soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha tracejada. Mas nos meus braços foi
sempre Lolita.

(…) Continuou indolentemente recostada no canto dianteiro, quase esparramada. Lola, o botãozinho, devorando a sua maçã imemorial, cantando através do seu sumo, deixando cair o chinelo, esfregando o calcanhar do pé deschinelado, de soquete encardido, no monte de revistas velhas empilhadas à minha esquerda, no sofá - e cada movimento seu, cada ondular, ajudava-me a disfarçar e a aperfeiçoar o sistema secreto de correspondência tátil entre monstro e bela - entre a minha fera amordaçada e quase a rebentar e a beleza do seu corpo cheio de covinhas, coberto pelo inocente vestido de algodão.

(...) Quando se retesou para atirar o caroço da maçã devorada para a lareira, o seu peso jovem, as suas pernas inocentes e impudicas e o seu traseiro roliço escorregaram para o meu colo tenso, torturado, subrepticiamente ativo. (...) Fui transportado para um plano onde nada interessava a não ser a infusão de prazer preparada dentro do meu corpo.

(…) No serralho por mim próprio criado, eu era um radiante e robusto turco, adiando deliberadamente, com plena consciência da sua liberdade, o momento em que desfrutaria verdadeiramente a mais jovem e mais delicada das suas escravas. Suspenso à beira desse abismo de voluptuosidade (num requinte de equilíbrio fisiológico comparável a certas técnicas artísticas), continuava a repetir, ao acaso, palavras por ela proferidas - - barmen, alarmante, minha fascinante, minha Carmen, amén, amén -, como quem fala e ri durante o sono, enquanto a minha mão, feliz, subia pelas suas pernas impregnadas de sol até onde a decência permitia. No dia anterior ela fora de encontro à pesada cómoda do vestíbulo e... ‘Olha, olha!’, exclamei, ofegante. ‘Vê o que fizeste, vê o que fizeste a ti própria! Oh, vê!’

Tinha uma equimose arroxeada-amarelada na deliciosa coxa de ninfeta que a minha enorme mão cabeluda massajou e envolveu lentamente - e, devido à sua reduzidíssima roupa interior, dir-se-ia que nada poderia impedir o meu musculoso polegar de alcançar o quente recesso das suas virilhas... assim como se acaricia e faz cócegas a uma criança sacudida de riso, só isso, apenas isso... ‘Ah, não tem importância nenhuma!’, afirmou, com uma repentina nota aguda na voz, e contorceu-se e encolheu-se toda, e inclinou a cabeça para trás, e os dentes brilharam-lhe no rubro e húmido lábio inferior, ao mesmo tempo que se virava um pouco, e a minha boca prestes a soltar um gemido, senhores jurados, quase tocou no seu pescoço nu, enquanto eu esmagava contra a sua nádega esquerda o derradeiro espasmo do mais longo êxtase que homem ou monstro jamais conhecera."

A verdadeira Lolita
Sally Horner foi raptada aos 11 anos por um homem de 50, que a levou pelos EUA durante 21 meses, até ela fugir. Pormenores coincidem com a história de ‘Lolita’.

Sinónimo de ninfeta
O impacto global do livro de Nabokov transformou ‘Lolita’ em sinónimo, por antonomásia, de pré-adolescente erotizada, causadora de paixões fatais.

Hebefilia é crime
A obsessão por Lolita é um sintoma de hebefilia, atração por pré-adolescentes. Na adaptação ao cinema, a idade da protagonista passou de 12 para 16 anos.  

Nabokov na ‘Playboy’
Em 1964, Nabokov foi entrevistado pelo futurológo Alvin Toffler e, em 1975, pelo realizador e humorista Mel Brooks. "Uma entrevista louca", lê-se na capa.

A ‘Lolita’ de Kubrick
Sue Lyon tinha 16 anos quando foi Lolita no filme de Stanley Kubrick, ao lado de ‘monstros sagrados’ como James Mason e Peter Sellers. Ganhou um Globo de Ouro.

Fatal para Jeremy Irons
Dominique Swain vestiu a pele de Lolita e enfeitiçou um patético Humbert interpretado por Jeremy Irons, na versão realizada por Adrian Lyne em 1997.

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