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Correio da Manhã

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VONTADE INDÓMITA

Vinte e seis anos depois do primeiro dia do resto da sua vida, Fernando Guarany cumpriu os seus maiores desejos. Hoje, a este toureiro só falta convencer o presidente Lula a fazer uma corrida de toiros no Brasil.
27 de Abril de 2003 às 00:00
O dia, o momento preciso, quando ele entrou na sala de cinema com as mãos dentro dos bolsos dos calções, essa tarde quente em que sentiu que tinha um destino, não se lembra bem qual foi. Teria doze, treze anos, por aí. Gostava de ir ao cinema. Via os filmes e sonhava. Coisas de miúdo, sobretudo um como Fernando Guarany, maravilhado pelas imagens em movimento.
De Jatizinho, a pequena cidade no interior do Paraná onde nasceu, guardaria as memórias de uma infância sem história. A sua adolescência desenhava-se no Rio de Janeiro. As tardes quentes, passava-as em frente ao ecrã, agora que a oferta era mais abundante. Numa certa matiné, às primeiras imagens a preto-e-branco, o rapaz transtornou-se. A figura esguia, o corpo magro trajado a ouro e prata comoveu-o. O olhar de rei ou de gigante fê-lo decidir: seria toureiro.
‘Sangue e Arena’ – no Brasil, traduzido por ‘Sangue e Areia’ –, o filme onde um grande matador de toiros (Diamantino Vizeu) se enche de amores por uma bela fadista (Amália Rodrigues) acabava por mudar para sempre a vida de Fernando Guarany.
Os quatro anos que se seguiram não lhe tiraram a ideia da cabeça. Com um bilhete de avião e a roupa no corpo cumpre o caminho acabado de traçar. Tem 17 anos quando aterra no aeroporto de Lisboa. Agora, por sua conta e risco, trata de ser prático: arranja um quarto, toma um banho e pergunta pelo Solar da Hermínia, uma casa de fados onde lhe garantiram que encontraria aficionados e, com alguma sorte, um ou outro cavaleiro, alguns forcados ou um certo matador de toiros. Nessa noite, o papel com morada da casa de fados é o seu único mapa. Fernando acerta em cheio: José Mestre Batista, à época o maior dos cavaleiros portugueses, e Fernando dos Santos, matador de toiros e empresário, são dois dos ilustres clientes dessa noite no Solar. Fernando nem hesita. Alguns dias depois já faz parte da quadrilha e ganha uns cobres como moço de estoques.
Os primeiros passos É Fernando dos Santos quem lhe ensina os primeiros passes. No salão, e sempre que se apanha no campo, Fernando ensaia a técnica e a coragem. Tem pressa, uma urgência que o consome. Faz contactos, quer mostrar o que vale: o que aprendeu e o que sempre foi seu — uma enorme vontade. Habituado a contornar as dificuldades, enquanto espera por “uma oportunidade” faz-se à vida: carrega malas, cola cartazes ou vende bugigangas. Mais tarde, há-de ser guarda-costas e modelo. Para sobreviver tanto lhe faz. Pelo meio tenta a sorte em Espanha, México, Venezuela, Colômbia e Equador. Consegue integrar o cartel em três corridas que se revelam insuficientes. Para triunfar é preciso tempo e atenção e poucos parecem interessados “no brasileiro”.
De regresso a Lisboa, mantém firme a determinação. A imagem de um toureiro que viu na Venezuela – El Funebre – começa a dar-lhe ideias.
No dia 10 de Abril de 1977, Domingo de Páscoa, tarde de corrida no Campo Pequeno, com Armando Soares e José Júlio anunciados, Guarany prepara-se para a maior aventura da sua vida. Às sete da manhã, veste o ‘trace de luces’ comprado em segunda-mão com a ajuda de uns amigos e dirige-se para a porta central da praça de toiros da capital. Afixa um cartaz: “Estou aqui para pedir uma oportunidade de tourear nesta praça. Não saio daqui enquanto não ma derem. Ou saio daqui em triunfo ou morto, dentro deste caixão”. E assim fez: durante 19 dias e 18 noites, Fernando Guarany permaneceu dentro de um caixão vestido de toureiro. A estadia foi interrompida pela polícia por duas ou três vezes, a primeira logo no primeiro dia, pouco passava das dez horas. Mas as duas horas passadas no Governo Civil não o demoveram. O ‘happening’ tinha apenas acabado de começar.
Estrela de TV Os dias que se seguiram eram provas de fogo.
78 horas depois, o sofrimento ganha terreno e Guarany pensa em desistir. Mas a sua história já tinha pegado rastilho. Para além dos locais e noctívagos, a presença de um homem vestido de toureiro dentro de um caixão começava a tornar-se alvo de romarias. Alguns curiosos passaram a apoiantes, as mulheres achavam-lhe graça e, no meio da ‘affición’, o desconforto provocado pelo “brasileiro que só queria uma oportunidade”, já só se escondia em surdina.
Durante mais de duas semanas, “o brasileiro” é a receita mais deliciosa da comunicação social. Tal como as estrelas e os heróis, Guarany é alguém que decide jogar até às últimas consequências. Perante o fascínio de uns, a descrença ou a perplexidade de outros, a popularidade dispara. Em frente da praça já é hábito ver os carros da rádio a entrevistá-lo em directo. A televisão chega logo a seguir e num instante a notícia estende-se à imprensa brasileira. Revistas e jornais dão-lhe primeira página. A primeira batalha está ganha.
Sem outra saída, os empresários do Campo Pequeno resignam-se à vontade popular e celebram um contrato com o ‘diestro’. No dia 27 de Maio de 1977, Fernando Guarany verá o seu maior desejo tornar-se realidade: entrar pela porta grande da praça e enfrentar o toiro. A Manchete e a TV Globo fazem a cobertura desse momento com indisfarçável orgulho nacional.
Em fraca condição física, Guarany aproveita o tempo que lhe resta até ao grande dia para se pôr em forma. Os empresários oferecem-lhe 50 contos pela corrida, mas ele contrapõe: “20% da bilheteira e a bandeira do Brasil içada na praça. Sem isso não há corrida”, disse. Com a praça completamente esgotada, às cinco da tarde, os cavaleiros Gustavo Zenkle, José Zuquete e o matador Paco Duarte acompanharam Fernando Guarany nas cortesias. Foi este o seu momento. Muito mais este do que o que se seguiu com a muleta e o capote. O triunfo, o seu triunfo, era passar aquela porta vestido de toureiro. O resto era a vida e, isso, ninguém controla.
Sempre os toiros Vinte e seis anos depois deste dia, Fernando Guarany é um homem feliz. O rosto meio índio, o olhar astuto, oscila entre a ternura e a tranquilidade. Nunca chegou a ser uma grande figura do toureio, mas isso não parece afligi-lo. Toureou e continua a tourear. Com entrega e rigor. E esgotou algumas praças por causa do mito em que se tornou. A sua paixão pelos toiros, intocável, mantém-se. E a disciplina não abrandou. Trata-se bem, come pouco, não fuma, faz exercício físico e treina, continua a treinar como da primeira vez. Sempre que pode é vê-lo no campo, com os toiros. A experiência ensinou--lhe que a determinação e a coragem nem sempre andam ao lado da sorte. E, em Portugal, o País onde foi ficando, a tauromaquia é coisa de poucos, muito poucos, e ainda são menos os que fazem dos toiros a única profissão.
Outros talentos levaram-no para o mundo dos negócios onde se movimenta com o à-vontade dos vencedores. É um apaixonado por carros e dizem que pressente bons negócios ao longe. Quanto a isso, a vida, Fernando está descansado. Agora só lhe falta convencer o presidente Lula a desafiar todas as regras, furar a moral protectora e consentir uma corrida de toiros no Brasil. “Aí sim, nesse momento, eu ficava descansado”.
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