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X-Files - Rui Vitória: O treinador que leva o nome da águia

Treinador repete a roupa dos jogos em que ganha, toca bateria, espera o quarto filho e tem o fisco de olho em si
Miriam Assor 15 de Maio de 2016 às 15:00
Rui Vitória nasceu há 46 anos, em Alverca do Ribatejo
Rui Vitória nasceu há 46 anos, em Alverca do Ribatejo

Azul e branco são as cores preferidas do treinador dos encarnados e ‘Boss’ o perfume que usa. A unanimidade que circula em Alverca do Ribatejo, onde nasceu, está imune a gostos clubísticos e não tem truques: Rui Vitória faz justiça ao apelido. É um senhor. Educado. Honesto. Pragmático. Demasiado organizado. E calmo. Contam-se as vezes que se exalta e, se tal acontece, é capaz de dar bons gritos, mas nunca em público. Reservado. Vaidoso o quanto baste. Não teme obstáculos. Gosta de objectivos, de carne, de arroz de cabidela, de bom vinho, e do tinto vindo do Douro ou do Alentejo.

O perito em indirectas, que ri mais do que conta, é mentor de jantares e almoços de confraternização. O facto de ser obcecado pelo trabalho não o transforma num invisual sobre o olhar do Mundo. Previdente no discurso e cirúrgico nas palavras. Os seus discípulos sabem a lengalenga: os jogadores são sinais a quem é proibido ficar intermitente.


Fernando Ogre, presidente do Futebol Clube de Alverca, atribui-lhe, e de rajada, quatro adjectivos; "Rigoroso, empenhado, concentrado e humilde". O dirigente do clube onde Rui Vitória se estreou como jogador nos juniores ri, bastante, mas apenas conta sobre eventuais ‘coboiadas’, que após uma despedida de solteiro, com direito a multa policial, ficou estipulado que todos da festa haveriam de jantar com frequência.


Paulo Moisão, ex-colega na União Desportiva Vila-franquense e depois seu jogador, caracteriza-o de feição intensa: "O Rui, que é uma pessoa espectacular, como capitão de equipa ou como treinador, unia a equipa e tinha um sentido enorme de liderança. Foi o primeiro treinador a perguntar opinião aos jogadores." Filho de um soldador e de uma escriturária, o bicho pelo futebol herdou do pai, que havia sido guarda-redes do Alverca, aluno irrepreensível que somente viu a raposa no 12º ano por ter intentado ser futebolista. O jornalista Pedro Castelo, director de comunicação do Vila-franquense, realça o que escasseia no futebol: "O Rui Vitória é simples e afável. Nos salários em atraso esteve sempre em defesa do grupo. É alguém que une e não desune."      


A 4KM DE JESUS

Dos tempos em que chutava bola, os mais antigos recordam-no como "pé de chumbo", pela biqueirada de artilharia que vinha dos seus pés. Tinha o tique de jogar com a mão de lado. E batia as grandes penalidades para o mesmíssimo lado: o esquerdo. Supersticioso comedido, ou alguém que não dispensa ritos de conforto, entra em campo primeiro com o sapato direito. Antes de eliminar o FC Porto para a Taça da Liga, no momento dos penáltis, avisou o seu adjunto, Arnaldo Ferreira, de que ficaria de costas para o campo. A garrafa de água vai à boca no instante que antecede um contra-ataque. Usa a roupa da semana passada, em que saiu vitorioso. Conta-se que nos anos em que treinou o Clube Desportivo de Fátima não consentia que o autocarro do clube fizesse marcha-atrás com jogadores e treinadores lá dentro. O lema do director, padre António Pereira, repetia-se: "O que é preciso é que ninguém se aleije, que haja saúde." Já sobre o treinador que seria levado dos juniores do Benfica para o Fátima, a simpatia benze-se com água benta: "O Rui Vitória possui princípios vincados, trabalha com exigência e competência. Ele ajudou a fazer o Fátima e nós a fazer o Rui. Temos uma grande gratidão pelo trabalho que fez por nós e valorizamos o seu percurso. Foi aqui que ele começou a crescer."


Derrotou o FC Porto de Jesualdo Ferreira, na terceira eliminatória da Taça da Liga, em 2007/08. Chegaria ao principal escalão em 2010/11, pela porta do Paços de Ferreira, e logo na estreia colocava a equipa na final da Taça da Liga, perdida para o Benfica. Em 2013, já no comando do Vitória de Guimarães, vingava-se com a conquista da Taça de Portugal.


Diz-se que Jorge Jesus desde esse Domingo 26 de Maio iniciou uma azia rija com Rui Vitória. Quase vizinhos, quatro quilómetros é a distância que vai da moradia na Herdade da Aroeira, na Margem Sul, à vivenda na Marisol de Jorge Jesus.

Ana Fernandes, ex-manequim e proprietária da boutique Anana, defende, como pode, o amigo de infância: "Até a responder ao Jorge Jesus, ele tem classe." A classe a que se refere diz, sobretudo, respeito à noite de derby, quando o Benfica marcou, em Alvalade, o único golo do encontro e saltou para a liderança da I Liga. Após o fim do jogo, o treinador do Sporting veio dizer que Rui Vitória jogara com uma equipa pequena. O comandante das águias ripostou: "Pequena? Talvez tenha sido em relação ao jogo da época passada". Ana Fernandes persegue na defesa: "A sua carreira sobe, sobe, mas ele não perde a humildade. E olhe que o Rui já sofreu muito ."


Na recta de Pegões, num sábado de 2002, um acidente de automóvel matou-lhe os pais, Avelino Vitória e Esmeraldina, e os pais do seu melhor amigo, Paulo Xavier, ex-jogador do Benfica. A desgraça mudou a sua forma de pensar, depois de tanta dor nada o pode atingir. O irmão Victor Vitória, meia dúzia de anos mais velho, alivia a tragédia recordando as peripécias nos campeonatos caseiros na rua em Alverca: "O Rui, como era novo, tinha de acatar as nossas ordens". Pois. Não acatava. Mal aparecia nas imediações, começava a dar ordens. Não adiantava dizer: ‘Sai daqui; não vês que és um puto’. Ele não arredava. Um dia, conseguiu apanhar a bola e deu-lhe tamanho pontapé que foi com séria dificuldade que voltaram a vê-la.


Mas "o Rui era um miúdo vistoso, as miúdas andavam atrás dele", lembra o irmão. O tio, João Vitória, vai mais longe: "Aquilo era uma estampa de homem! Para as raparigas era um desatino!"  


A ex e a actual mulher de Rui Vitória vestem-se na boutique de Ana Rodrigues. Do primeiro matrimónio com Carla Lázaro, informática, nasceu Mariana, que fez 17 anos. A segunda mulher, Susana Barata, professora de Educação Física, actualmente em licença sem vencimento, que Rui conhecera quando ambos leccionavam na Escola Gago Coutinho, em Alverca, é mãe das duas filhas e está no sétimo mês de gestação de um rapaz. Inseparáveis, aproveitam o pouco tempo livre para sair juntos. Já bastaram os anos que Susana e as meninas viviam em Alverca e Rui em Guimarães. No Minho e de auscultadores nos ouvidos, distraía a solidão na bateria eléctrica.


Nas festas de Natal do Vitória de Guimarães dispensava-se DJ. Neno cantava, um dos dirigentes tocava viola e Vitória era o baterista. Começara sozinho, cedo, assim que que descobriu que as portas faziam barulho, para aborrecimento da mãe. Ainda hoje Rui Vitória tem tique particular: tamborila com os dedos na mesa. Com 10 anos foi estudar bateria na Escola de Música Jorge Nascimento, em Alverca. O seu antigo professor, João Seixas, à época baterista dos Ferro & Fogo, conta que "tinha independência de braços e de pernas e era ambidestro. Era um dos melhores".

Apeteceu ao destino que Vitória fosse o seleccionado por Luís Filipe Vieira, com quem se cruzara no Futebol Clube de Alverca, também como presidente, para um atrevimento que escapa desde 1976/1977: o tricampeonato.


Rui Vitória poderá ouvir estrondo similar à bateria de John Bonham dos Led Zeppelin se hoje a festa for benfiquista.
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