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X-Files Catarina Martins: Sempre na boca de cena

É voz fundamental do Bloco de Esquerda contra as expectativas de muitos num partido que tardou em aceitá-la.
Miriam Assor 3 de Julho de 2016 às 15:00

Azul é a cor preferida da recém-eleita coordenadora do Bloco de Esquerda (BE). À beira-mar é o local onde as decisões complexas são tomadas. Gosta de nadar. A sua definição de política dispensa bóia e utiliza a palavra colectivo: "Sempre que estamos a trabalhar para construir colectivamente aquilo em que acreditamos, estamos a fazer política". As intervenções, sintetizadas em notas e redigidas em letra de médico, seguem o caminho do caixote do lixo, pois ficarão vivas na cabeça.

Oriunda de uma família muito politizada à esquerda, Catarina Soares Martins gosta de trabalhar em equipa, de se manter informada de tudo, sem ser centralizadora, gosta de Woody Allen, Francis Ford Coppola, Patrice Chéreau, Pedro Almodóvar, de jazz e de música pop. É neta de uma professora de piano e irmã de João Martins, pianista e percussionista, que já residiu em Nova Iorque. Catarina também aprendeu música, mas as teclas, agora, moram no Parlamento. Não é do tipo de baixar os braços. As dificuldades ultrapassa-as com determinação e convicção. Nunca, nunca deixa nada pela metade.


Sabe ouvir. Expressa-se com destreza. É perita em construir pontes. Bebe dois litros de água natural por dia. A laringe precisa de humidificação. Aprendeu a colocar a voz. O fortalecimento do diafragma é o melhor camarada para aqueles que precisam de articular as palavras sem erros. Actriz, que deixou o teatro pela política, tem timbre vincado. Tem pujança.


Presença infatigável na cena do hemiciclo, olhos que a viram representar asseguram que a mensagem agora transmitida passava à frente da prestação em palco. O actor José Wallenstein, um dos encenadores convidados da Visões Úteis, a companhia de teatro portuense fundada por Catarina Martins em 1994, e que abandonaria em 2009, pela política e pelo lugar de deputada na AR, define-a com sorrisos: "Muito afirmativa, ela era a energia do grupo. A sua atitude, de levar as coisas para a frente, é uma das suas características."


No teatro foi senhora de sete ofícios: actriz, encenadora, produtora, houve dias em que até fez de operadora de som. Trabalhou com muitos encenadores e com quem "aprendeu muito". Entre eles, António Feio e João Paulo Cardoso, desaparecidos precocemente. Mas foi ter visto, em pequena, Maria do Céu Guerra a actuar que a influenciou, definitivamente.  


Nasceu a 7 de Setembro do ano que antecedeu a revolução de Abril. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Aberta e Mestre em Linguística pela Universidade do Porto, presidiu a PLATEIA – Associação de Profissionais das Artes Cénicas, mas a senda artística começara muito antes. Aos 13 anos, estreou-se num curso de teatro. Três anos depois, no liceu, representou sozinha um monólogo de Bertolt Brecht. Suportou 120 minutos em palco, não obstante a aparatosa queda que deu sobre um tijolo que trazia nas mãos.


É seu pai Arsénio Martins, professor reformado de Matemática, prémio Nacional de Professores, e fundador do Bloco. Parte da infância foi vivida em Gaia, na margem esquerda do Douro, antes de ir com os progenitores, docentes, para São Tomé e Príncipe, e depois Cabo Verde, ao abrigo de um programa com as ex-colónias.


A mudança marcou-a: "Ir para São Tomé com seis anos: a confusão do aeroporto de Lisboa, andar de avião pela primeira vez, aterrar numa terra muito diferente, com ar quente e húmido."


Os primeiros anos escolares haveriam de ser feitos em África, e aquando do regresso a família residirá em Aveiro. Arsélio e Rosa Amélia Martins, seus pais, militaram na extrema-esquerda radical – da Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa (OCMLP), criada em 1972, ao Partido Comunista (Reconstruído), criado no final de 1975 da junção de outras forças análogas, entre as quais a própria OCMLP. A família mudou algumas vezes de endereço, fintou perseguições. Em Nogueira da Regedoura, Santa Maria da Feira, na casa dos avós maternos de Catarina, a PIDE, em 4 de Julho de 1942, disparou a metralhadora sobre o seu tio-avô António Carlos Ferreira Soares, conhecido por ‘médicos dos pobres’. À sepultura do antigo militante do PCP sempre foram velhos comunistas, alguns vindos da Venezuela.


Catarina Martins é mulher de Pedro Carreira, físico de formação, também ligado ao teatro. Traduziu e adaptou ‘A Frente do Progresso’, de Joseph Conrad, para a Visões Úteis — e lá estava o marido no elenco. É mãe de duas pré-adolescentes, uma mãe "como todas, acho eu". "Tento fazer o meu melhor para que cresçam saudáveis, ganhem autonomia, sejam felizes. Fico muitas vezes a pensar que devia fazer mais… Ser mãe é das coisas mais difíceis da vida. E sem dúvida, das melhores", explicou quem saiu de casa dos pais aos 17.


O BLOCO

O Bloco de Esquerda encontrava-se espatifado e só não terá sido sepultado por falta de coveiro. Catarina Martins conseguiu que a morte partidária fosse ressuscitando. As pessoas que a conhecem jamais desconfiaram que, com ela a capitanear, a morte não iria ser desviada. A primeira batalha foi portanto, a conquista do próprio Bloco: Catarina não era vista como figura de proa, e em 2014 ganhou por pequena margem a disputa com Pedro Filipe Soares.


O historiador Fernando Rosas lança-lhe bouquet: "O BE reencontrou a unidade nesta convenção, que foi uma consagração. A Catarina é forte. Colocou o Bloco no centro da política." Os 19 assentos parlamentares confirmam a saúde do partido agora coordenado por uma militante de há apenas seis anos. O BE é a terceira força política do país e integra a chamada ‘geringonça’ governamental.

O antecessor, Francisco Louçã, já dela dissera que é uma trabalhadora incansável. Às seis da manhã, dossiers já merecem a sua atenção. João Semedo, que chegou a partilhar com ela a liderança, disse que Catarina possui "apesar da aparência frágil, nervos de aço e resistência física e mental".


Sempre fez política, sem militar em partido algum, embora se tivesse aproximado a certa altura do PSR. Da luta estudantil às organizações de precários, passando por movimentos culturais ou associações de pais – na boca sempre a palavra "coletivo". Não terá tido a ambição de liderar o Bloco. Mas a vontade de o integrar era mais do que evidente. Enviou emails a pedir para aderir ao partido, com o qual já havia colaborado. Do lado de lá, silêncio.

João Teixeira Lopes é o responsável pela entrada. Convidou-a para número dois da lista que, em 2005, encabeçou à Câmara do Porto. Perdeu. Não houve azar. Tivera a sorte de a conhecer antes, pois como deputado detinha a área cultural e a incumbência levara-o a ser seu espectador. As palavras que o vice- -presidente da Associação Portuguesa de Sociologia dedica a Catarina são dadas de rajada: "É frontal, bastante determinada."


Isenta de papas na língua, defendeu que a mulher deveria ter a escolha de abortar, admitiu ter fumado charros, embora a erva enrolada lhe provocasse enxaquecas. Sobre os exames nacionais – maior dor de cabeça dos jovens – a maneira que encontrou para rejeitar o método pode ter tido graça mas arrepiou muitos: se tivesse de ser operada, disse, preteria o cirurgião que fez exames em favor do que foi feliz na escola. Aprende-se melhor quando se é feliz a aprender, escreveu no Esquerda Net.


A actividade política pode não rimar com a actividade partidária. E por tal, sobre a altura do convite para ser deputada, conta: "Hesitei um pouco. Depois aceitei planeando fazer apenas um mandato, centrado nas questões da cultura e do trabalho precário. Entretanto a vida foi correndo. Hoje tenho outras responsabilidades que nunca planeei ter."


No fim-de-semana passado, a X Convenção Nacional do Bloco de Esquerda elegeu-a coordenadora da comissão política. A responsabilidade de ter feito uma aliança com o Governo terá decerto dias melhores e piores. A relação com António Costa é, ao que consta, de "respeito mútuo". Comunicam com frequência, mas o primeiro-ministro ter-se-á engasgado quando no encerramento da convenção, no Casal Vistoso, a líder partidária que tem pouco mais de metro e meio avisou: se a Comissão Europeia empregar sanções a Portugal ou dificultar o Orçamento do Estado para 2017, o Governo deve retribuir com a marcação de um referendo.
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