X-Files: Paulo Portas - A face do manobrador político

‘Perca-se um amigo, não se perca uma boa notícia’ foi lema em ‘O Independente’. Nos anos 90, Passos Coelho ligava-lhe.
Por Miriam Assor|28.03.16
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Guloso, cinéfilo e sportinguista. Gosta de História, de biografias, de café e que gostem dele. Ouve a música de Parov Stelar e não escuta conselhos. Da fama de teimoso e de obcecado não se livra. De ter um feitio intenso, idem aspas. Afilhado de Maria Velho da Costa e de Teotónio Pereira, ao longo dos anos que liderou o CDS/PP conseguiu um exército de jovens seguidores centristas. Fumador compulsivo, ainda há pouco guiava um Jeep Tuareg, se não fosse a insistência da irmã, Catarina Portas, não saberia enviar SMS. Os seus gabinetes sempre tiveram portas abertas, é, como todos sabemos, preferencialmente de direita, mas o destino colocou-o a residir na rua Salvador Allende. Com o homem que já mandou digitalizar 60 mil páginas quando saiu do governo ninguém perde a virilidade por chorar. Consciente do que se cochicha por aí, é para o lado que ressona melhor, mesmo que sobre o assunto já a revista ‘Le Point’ tenha escrevinhado. Nunca nada foi provado. C’est fini. Sardento e ruivo, já teve a obsessão do bronze. E o sol na piscina do Sheraton, em Lisboa, amorenava-lhe o corpo. Nunca apanhou um escaldão. Casos suspeitos não lhe faltam para que se queimar: Moderna, submarinos e sobreiros. Até à data, não se viu constituído arguido ou acusado. Saiu pela sombra.


A FACE OCULTA

Como ministro da Defesa, aquando do concurso dos Pandur, apareceram os ‘buddies’ americanos. Das três empresas que compareceram para os blindados, duas tinham ligação a Donald Rumsfeld, o político, empresário e ex-secretário de Estado da Defesa dos Estados Unidos. Ganhou uma das americanas, que mais tarde fez contrato com um português amigo de Portas.


Conta-se também que, ainda antes, em 2009, quando José Sócrates chamou os partidos para um entendimento nacional, Portas – já líder do CDS – compareceu pressuroso, mas em seu favor só uma saraivada de berros do então primeiro-ministro, que dizia não gostar de um da comitiva centrista. Se calhar, o noivo José não queria sequer subir ao altar.


Na face oculta do X-File deste domingo, consta ainda Cândida Almeida, a directora do DCIAP que, na campanha de 2009, apareceu próxima do PS. Nos ‘mentideros’ comenta-se à boca pequena que a senhora admitiu buscas a Portas para "equilibrar o jogo político". A amigos e inimigos devemos dispensar igual atenção: dois anos depois, Portas apoiou Cândida à procuradoria.


Mas se Portas tivesse de escolher entre as notícias e as amizades, antes as primeiras. Que o diga Domingos Duarte Lima, antigo colega da faculdade. Jorge Braga de Macedo, muito próximo da família, viu a honra inumada no caso do Monte dos Frades. Dias Loureiro, a sua fonte exclusiva, na hora em que secou, passou num ápice a manchete. Miguel Esteves Cardoso ainda ri muito do tanto que os dois se riam a fazer ‘O Independente’, "a combinar as coisas e os títulos". Quando apareceu o novo rosto do PSD, o referido Duarte Lima, a vontade de rir duplicou, porque o formato da sua cara timbrado no jornal dava azo a gargalhada. O criador dos verbos ‘cadilhar’ – obter uma coisa através de um esquema legal - e ‘entaveirar’, cujo significado fica em tradução livre, está crente: "Ele vai voltar. Um dia, o Paulo Portas vai ser primeiro-ministro".


O Paulo, o que era jornalista, que acordava cedo e trabalhava madrugada fora, sem álcool e com anfetaminas que estimulam o sistema nervoso central, ao contrário da redacção que entretinha o fígado com gins e whiskies, não descose a boca para revelar o que vai agora fazer. A vice-presidência da CIP não conta. Não é remunerada. Muito embora tenha criado uma imagem de alguém alérgico a cartões de crédito ou multibanco, e de não saber lidar com dinheiro, o ar não nutre o ego a ninguém .


Não apenas devido aos assuntos que disparam as vendas, os amigos portugueses e do peito haveriam de descer de piso. "Falamos cordialmente", diz Luís Nobre Guedes, e "Peço desculpa, mas estou a recuperar de uma operação", afirmou Manuel Monteiro, que ainda se deve lembrar e bem de quem deu o salto para a política directamente das costas dele.


CLIENTE EXIGENTE

Entre 1995 e 2000, no início da vida política formal de Paulo Portas, contam-se entre os amigos mais diletos o socialista Jorge Coelho. Manobras só para quem tem carta – desastres só lhe conhecem um, ao volante do seu jeep no Marquês de Pombal. Sobre os tempos do golpe de estado no CDS, repetimos que Manuel Monteiro apenas disse: "Peço desculpa, mas ainda estou a recuperar de uma operação". A verdade, e saúde que tenhamos todos, é que estão de costas voltadas. Pois são largas, as costas, e o alfaiate do Porto cuida-lhe dessa singularidade. "É um cliente exigente." As mangas das camisas têm quatro botões, mas só três estão à mostra. Os colarinhos devem ser altos e abertos. As pregas não prescindem de calças clássicas. Os casacos, no lado direito, dispõem de um par de bolsos inclinados. Os forros merecem a matiz garrida e não se exclui vermelho: "O Dr. Paulo Portas disse-me que os comunistas não são os donos do vermelho" - Augusto Saldanha, que é o homem que lhe produz o vestuário por medida, apoia a frase e acrescenta que Paulo Portas, no momento em que se estreou ministro da Defesa, em 2002, permitiu riscas nos fatos. Tido como "muito vaidoso e muito simpático", opta por tecidos de origem inglesa e prefere os tons castanhos e o azul, do mar, essa imensidão por onde as embarcações especializadas podem submergir. Ao mundo, veio roxo e como poucos: apresentou--se na posição pélvica. Para agravar a situação de um bebé sentado no útero, o cordão umbilical embrulhou-se no pescoço. A vida não o largou. Nem a sorte de quem apareceu no mundo virado para a lua. Até aos 12 anos manteve-se, segundo a mãe, Helena Sacadura Cabral, "um adolescente adorável, meigo, obediente, que adorava o irmão, Miguel, a quem tapava tudo. A partir dessa data, conheceu Sá Carneiro, empolgou-se com a política e deu-me algum trabalho, porque andava envolvido em projectos que lhe retiravam tempo para os estudos". A mãe, que lhe decorou depois o gabinete do Forte da Barra quando foi ministro, nutria nula paciência para tais envolvências: " Eu entendia que a sua maior obrigação era estudar, já que para ele andar no S. João de Brito eu tinha que manter dois empregos".

A lembrança que Paulo Portas deixou no antigo director de turma, e professor de História no 5º e 6º ano, continua viva: "Era um aluno normal, com alguma ascendência sobre os colegas pela sua capacidade de iniciativa e pela exuberância na forma como comunicava com colegas e professores". Nesse período entre 1972 e 1975, o padre Jorge Sena também arbitrava jogos de futebol nos campos do Colégio São João de Brito, em Lisboa, e via que o discípulo jogava com tamanha garra que, inclusive, certa vez teve "que o acalmar, tal era a veemência para ganhar o jogo".


A sua capacidade de liderança manifestar-se-ia no secundário, formou uma lista, integrada por António Pires de Lima – seu colega - e candidatou-se a presidente da Associação de Estudantes. Ganhou. "A sua vertente jornalística e política sobressaía desde essa altura." Fez um pequeno jornal e promoveu debates sobre o ensino público e privado. Pires de Lima, um betinho conservador, era o vice-presidente da associação e Paulo Portas um social-democrata bastante liberal, o presidente. No colégio de orientação jesuíta, Paulo Portas insistiu ser baptizado na Primária.


Enquanto todos os rapazes preferiam festas e touradas, Paulo Portas rodeava-se de pessoas como Pedro Santana Lopes, Helena Roseta e Francisco Sá Carneiro, que assinaria a sua entrada no PSD. Depois de Camarate, o entusiasmo pela social-democracia finou-se. Enquanto estuda Direito na Universidade Católica, já está nos jornais, e licencia-se com 13 valores. Funda depois ‘O Independente’, o laboratório para a carreira política. Cavaco Silva, o cavaquismo e os cavaquistas foram massacrados. Levou à tabela quem afirmara que beijar uma fumadora equivalia a lamber um cinzeiro – José Macário Correia. "Nos anos 90, fomos alvo de perseguição. Eu e minha família fomos achincalhados." Relacionado com a meia branca e conotado com raízes rurais, a piedade do snobismo foi inexistente. Pedro Passos Coelho fartava-se de ligar, mas a sua anã importância não justificava então que lhe atendesse. A vida dá mais voltas do que um carrossel em desenfreado funcionamento.

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