ZÉ PEDRO: ACABAR ERA UM DESPERDÍCIO

Eles comemoram 25 anos na próxima terça-feira. Zé Pedro, o guitarrista, responde a 25 perguntas que revelam os desejos e angústias dos Xutos. É o retrato de uma banda que ainda marca o país. E várias gerações.
11.01.04
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Quem eram os Xutos & Pontapés em 1979? Um grupo de adolescentes…
Começámos a conhecer-nos no final da década de 70. Eu seguia com muita atenção [a banda] os Faísca, onde estava o Pedro Ayres Magalhães, de quem fiquei amigo, e comecei a ter o bichinho de fazer uma banda ‘punk’. Juntámos o grupo, o Kalú veio através de um anúncio de jornal e… cá estamos [risos].
E agora?
Somos pessoas mais maduras e com mais 25 anos em cima. Penso que conseguimos uma boa relação de trabalho, de amizade e de respeito uns pelos outros e é isso que nos mantém vivos.
Como eram as vossas bebedeiras há 25 anos?
Eram muito fortes! Hoje são mais suaves porque o corpo e a mente já não aguentam. Aliás, eu já não aguento nada! Naquela época, vivia-se um período de euforia total. Em 1978, a entrada do movimento ‘punk’ e dos Sex Pistols no cenário activava bastante as ‘besanas’ e, diga-se a verdade, não só…
As drogas, o sexo…
Fui o mais atiçado para as experiências com drogas. Metia quase tudo o que havia, desde extintores de incêndios até comprimidos. Houve uma altura em que estive ‘agarrado’ à heroína mas não gostei e, felizmente, consegui sair ileso.
Muito sexo?
Como adolescente que era, vivia um bocado desafogado nesse aspecto… No fervilhar da adolescência, aliado à tentativa de me tornar ‘rock star’, surgiam muitas mulheres. Hoje estou atinado [risos]. Tive experiências duradouras e positivas. Neste momento, desejo consolidar uma relação que tenho e que é bastante satisfatória.
E os outros elementos?
Cada um tinha a sua vida. Conhecemo-nos para formarmos a banda, não éramos amigos e sempre respeitámos a individualidade de cada um. Nenhum dos membros, à excepção do Zé Leonel [o primeiro vocalista] fazia parte do meu círculo mais próximo, mas claro que ficámos amigos. Hoje, tenho a impressão que passamos grande parte do ano juntos na estrada. Muitas vezes, acabamos por ir juntos aqui e ali, mas forçosamente não estamos nas horas vagas uns com os outros. Não faz parte.
Onde é que ensaiavam?
Nos primeiros anos alugávamos uma sala já equipada, a Senófila, em Lisboa. Foi aí que conheci o Kalú e também onde apanhámos grandes ‘besanas’ de álcool, ganzas… Agora, temos duas garagens nossas, transformadas em salas de ensaio.
O vosso primeiro concerto foi nos Alunos de Apolo em Lisboa, a 13 de Janeiro de 1979. Curiosamente, esse espectáculo estava integrado nas comemorações dos 25 anos do ‘Rock n’roll’. Hoje, são vocês que festejam os 25 anos.
Tínhamos tido duas horas de ensaios para esse concerto. Eu andava sempre de cara pintada a usava alfinetes-de-ama nos lábios. O Tim e o Kalú sentiam-se apreensivos. Fomos para os Alunos de Apolo onde os Faísca iam dar o seu último concerto e o Pedro Ayres fez muita questão em ter-nos lá. Subimos ao palco depois das duas da manhã. Eu tinha tomado anfetaminas e a coisa passou muito depressa. Tocámos quatro músicas em seis minutos! Saímos de lá a pensar que éramos a melhor banda do mundo e que, um dia, íamos ser reconhecidos.
Como é que o vosso “espírito punk” encarava a cultura vigente?
Mal, muito mal! Nós éramos uma corrente de oposição. Éramos contra tudo.
E todos…
Éramos nós próprios. E continuamos a ser…
O que sentem ainda quando pisam o palco?
Existe sempre muita adrenalina; habituamo-nos a encarar os concertos como momentos únicos e especiais na nossa vida. Há uma grande magia quando subimos ao palco. Além disso, temos o privilégio de possuir uma excelente relação com o público.
urioso que o vosso público seja tão vasto. Avós, filhos, netos...
Sou um grande fã de bandas. Como espectador, quando vejo os Metallica em palco identifico-me com a actuação deles, porque respeitam o público; e esse espírito existe dentro da nossa banda. Acredito que os Xutos & Pontapés e o público se vão moldando um ao outro. A nossa atitude é estarmos atentos e sensíveis à realidade e sermos honestos. Sempre fomos uma banda decidida e que faz autocrítica. Quisemos fazer música e quem nos quiser acompanhar nesta luta é bem-vindo. Nunca julgámos ninguém por dizer mal de nós nem ficámos completamente embevecidos por dizerem bem. Conhecemos as nossas limitações.
A crítica nunca vos afectou?
Não, às vezes riamo-nos do que escreviam sobre nós. Antes de ser músico, eu era crítico de música nos jornais, por isso, quando começámos a nossa carreira, conhecia todas as pessoas que escreviam. Muitos deles eram músicos ressabiados, o que era uma grande chatice [risos].
Que relação têm, então, com os críticos musicais?
Dos estrangeiros, tenho que destacar o Phillipe Manoeuvre [director da ‘Rock & Folk’] por quem nutro uma enorme admiração. Infelizmente, hoje em dia, a crítica em Portugal é muito má. Conheço quase todos os que escrevem sobre música, respeito todos, mas tirando casos pontuais, há muita gente a escrever que não percebe nada do assunto.
Quais as diferenças entre o vinil e o CD?
Prefiro o CD porque é muito mais prático, arruma-se facilmente e dura muito mais. Também faço de DJ e utilizo sempre CD. Admiro bastante quem consegue ser DJ de vinil, mas são concepções diferentes.
Em 1985 actuaram pela primeira vez no estrangeiro. Em Espanha. Recorda-se?
[gargalhadas] Quer saber se estávamos ‘besanos’? Na realidade, passámos grande parte das nossas vidas alcoolizados! Foi em Mérida, numa discoteca e filmado para uma televisão espanhola. Lembro-me que foi a primeira vez que ficámos muito bem instalados. Quando chegámos à porta do hotel, demos três voltas e pensámos: “Será que é mesmo aqui?” Para não dar bandeira, mandámos um à frente para se certificar. E as refeições? O que curtíamos as refeições… a estada no hotel superou as expectativas do concerto.
Quando é que deram o último espectáculo no estrangeiro?
Não me recordo. Foi há muito tempo. Tocámos muito em Espanha, França, Itália, Canadá… mas deixámos porque era extremamente absorvente e coincidiu com uma época em que estavam a nascer os primeiros filhos de alguns de nós.
Quem foram os vossos ídolos?
A nossa grande referência, além dos Sex Pistols, são os Clash. Actualmente, somos muito influenciados pelo ‘rock n’roll’.
O sexo, drogas e ‘rock n’ roll’ eram importantes como fonte de inspiração?
Também! Para nós, o Joe Strummer, o vocalista dos Clash, era uma enorme fonte de inspiração. Tal como os nossos sonhos e desejos. Por exemplo, o Tim escreveu a letra da ‘Mãe’ assim que saiu do cinema. Tinha ido ver o ‘La Luna’ do Bertolucci. A inspiração pode surgir da vida, da televisão, até de uma frase do noticiário da noite.
Lembra-se da vossa primeira ida à televisão?
Foi em 1979 ou em 1980. A televisão veio ter connosco, filmou-nos na sala de ensaios para um debate sobre os problemas de gerações. Nós estávamos todos excitados porque a televisão estava ali e ficámos todos contentes quando fomos apontados como um problema da nossa geração. Éramos o exemplo do que não se devia fazer!
Mas vocês sempre foram considerados rebeldes…
Muito obrigado pelo elogio! Quando somos adolescentes, parece que queremos mudar o mundo. Continuamos a acreditar que o podemos fazer, mas de uma maneira mais madura.
Século XXI. Como é ir à televisão?
É um drama! Só aceitamos convites quando respeitamos as pessoas envolvidas nos programas. Há pouca coisa que possamos fazer na televisão.
Na adolescência, que sonhos tinham?
Sermos a melhor banda de ‘rock’ em Portugal, fazer a primeira parte dos Rolling Stones e eu queria tocar na Festa do Avante. Já conseguimos tocar com os Stones e parecíamos uns putos! Também já fomos ao Avante. Continuamos a sonhar ser a melhor banda portuguesa! Estamos a preparar um novo disco que sairá em Março ou Abril e que vai assinalar os nossos 25 anos. São onze ou doze faixas inéditas. Queremos colmatar algumas das nossas deficiências e gostávamos que este fosse o melhor trabalho da nossa carreira.
Alguma vez se preocuparam com o futuro?
Não! O espírito ‘punk’ era “vives aqui e agora e amanhã logo se vê”. Tenho a impressão que este espírito nos acompanhou largos anos. De há uns tempos para cá é que começámos a ver as coisas de forma diferente. Por exemplo, neste momento, e talvez devido à maturidade que fomos adquirindo, achamos que seria um desperdício se a banda acabasse. Antes, não nos importávamos minimamente com isso.
O que sente quando se fala em morte?
Nunca liguei muito até viver de perto essa experiência, não só pela morte da minha mãe e do pai do Tim, mas porque eu próprio brinquei com a morte. Gostava de não ter medo da morte e espero viver muitos e muitos anos! [risos]

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